Venezuela, Haiti, e a ajuda humanitária

7 de Março de 2019, por Elaine Santos

Ajuda humanitária não tem levado paz, mas o caos
Ajuda humanitária não tem levado paz, mas o caos

Texto de Elaine Santos e Ricardo Correa  

Aos olhos dos mais atentos, normalmente aqueles e aquelas que estão de alguma forma envolvido nas violências cotidianas relacionadas ao capitalismo, vivemos uma crise em toda a América Latina e se focarmos na aclamada “ajuda humanitária” não há um só país que possa eximir-se de solicitar ajuda, caso isto fosse possível. 

Contudo, os grandes líderes do mundo, em conjuntos com as mídias empresariais, formatam todo o discurso, toda a opinião pública, inclusive a da esquerda que não consegue distinguir de que lado está. Intelectuais parecem confusos em seus posicionamentos, sequer ousam questionar uma opinião tão formatada e generalizada acerca da Venezuela. 

Desta vez o imperialismo elegeu a Venezuela como inimiga do mundo, ninguém precisa ler grandes obras clássicas para saber que os processos históricos são complexos e que existe violência tanto do lado das pessoas que apoiam Maduro, bem como as que se colocam em oposição a ele, a correlação de forças não é, como muitos creem, uma luta do bem contra o mal. Há algumas semanas tentamos chamar atenção para este fato e não nos espanta que grande parte da esquerda por vezes se coloca como cúmplice do sistema,  prova disto é a  demonstração de que já não consegue analisar os processos em conjunto, comprando as agendas políticas norte americanas ou europeias para explicar a realidade dos colonizados, subdesenvolvidos.

Em decorrência destes processos que nos exige cada vez mais abrir perguntas macro para responder de forma local, temos o Haiti, sim o Haiti, país que passa por intensos protestos exigindo a saída do presidente Jovenel Moise, eleito em 2016. 

O movimento de manifestações, que começou em 09 de fevereiro, bloqueando estradas, saqueando comércios locais, mostra o desespero e a violência reativa de uma população que enfrenta as autoridades, somando dezenas de mortos e feridos . 

Por que a violência?

Os protestos começaram devido aos grandes problemas econômicos que o país tem passado nos últimos anos, a falta de acesso aos serviços básicos, tudo cada vez mais caro e a falta de perspectiva levaram a população à reação. Além disto o atual presidente Jovenel Moise está envolvido em diversos escândalos de corrupção e desvios de verbas.

Obviamente, o Haiti é sempre retratado como um dos países mais pobres do hemisfério, mas poucos examinam o país reconhecendo nele o histórico que lhe pertence.

O Haiti foi o primeiro país onde uma rebelião de escravos deu certo, as terras haitianas eram então dominadas pelos franceses, e até os dias atuais, incrivelmente, é mais fácil encontrar notícias acerca do Haiti em mídias francesas do que nas latino-americanas. Como todo país que tenta ser independente, em sua forma mais literal, o Haiti não foi reconhecido por diversos países, incluindo os Estados Unidos que após este período exerceu domínio sobre os haitianos seguido por um governo militar (Papa Doc) que matou mais de 300 mil pessoas, assim sendo, o Haiti só conseguiu obter algum tipo de democracia eleitoral em 1990. 

A República do Haiti entrou para os Anais da história como o primeiro país a estabelecer uma república negra a partir da revolta dos escravos iniciada em 1791 até 1803. Liderados pelo revolucionário Toussaint L'Ouverture, os haitianos conquistaram a independência da França em 1804. A derrubada dos colonizadores teve alto custo para o país: devastação geográfica, desestruturação da economia e redução aguda da população devido as mortes ocorridas. Diante desse regadio miserável, o imperialismo continuou atuando e gerando mais crise, como afirmou Heredia (2003) o que funciona hoje é a lógica do terror e da iminência de guerra e conflito constante. 

Nesse sentido, potências europeias e os EUA entraram em disputas pelo controle do país, um dos pontos a destacar é o racismo como justificativa para que a ordem capitalista se impusesse, possibilitando o domínio do país, como mencionou Galeano (2010) acerca de uma declaração do funcionário do alto escalão do governo americano de que a população negra não teria capacidade de autogovernar-se, seriam incapacitados enquanto civilização. 

A influência americana no território sempre esteve presente, atuando como principais responsáveis pelos golpes e assassinatos de governantes. O momento histórico mais emblemático foi no governo de Jean François Duvalier (o Papa Doc) - 1957 a 1971 - que para se manter no poder cedeu à vontade norte-americana para ter o apoio imperialista. O voto decisivo na OEA (1961) pela exclusão de Cuba retrata muito bem nossa afirmação, ou seja, mesmo depois da queda da ditadura de Duvalier, outros governos continuaram a seara da instabilidade por influências externas e disputas internas, com forte presença americana. 

A miséria de alguns que, quando trabalham, são submetidos a jornadas exaustivas sem direitos trabalhistas e com salários ínfimos, gera lucro para outros,  a exemplo das empresas que se aproveitam da mão de obra barata e se somam ao Estado no seu exercício de poder. Soma-se a isto a corrupção dos governantes, endêmica ao sistema do lucro com primazia , que impossibilita que os cofres públicos forneçam o mínimo de condições para sobrevivência. Saúde, educação, segurança, moradia não entram na pauta das políticas públicas. Nessas condições, as convulsões sociais tornaram-se um lugar comum. 

Em 2004, sob o argumento de ajuda humanitária, estabelecimento da ordem política e garantia na implantação dos projetos de cooperação internacional para o desenvolvimento, foi instalada a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) liderada pelas forças militares do Brasil.

Durante os 13 anos que esteve no país, pouca coisa mudou, sobretudo, no que concerne aos Direitos Humanos. Denúncias de uso excessivo da força, abuso sexual infantil, entre outras violências, estão na imensa lista de imputações. Essa penetração de forças sob o discurso da ajuda humanitária somente tornou o país mais dependente, e percebe-se que foi uma maneira de manter a ordem social para aproveitamento da exploração capitalista. Para piorar a situação, o país sofreu com um terremoto em 2010 causando a morte de mais de 200 mil pessoas e após a chegada da missão da ONU aconteceu uma epidemia de cólera matando mais de 8 mil pessoas.  Logo após o terremoto, o Haiti contraiu empréstimo com o FMI de 114 milhões, entretanto, esse dinheiro não chegou a mão da população revertido em melhorias diante da catástrofe.

O Haiti segue sangrando e pouco tem despertado interesse do mundo a volta. Por outro lado, temos visto nos últimos anos a Venezuela na rota das atenções. Diversas forças políticas apoiadas pelos EUA tentam a todo custo derrubar o presidente Nicolas Maduro - com o apoio patético do governo brasileiro - a crise se instalou, e a população tem sofrido com a ausência de necessidades básicas para a sobrevivência. E mesmo por parte dos tacanhos brasileiros que costuma virar as costas aos vizinhos, parecem agora se sensibilizar com a tão sofrida Venezuela, contudo, não hesitaram em expulsar os imigrantes venezuelanos que viviam na fronteira.  

Com este cenário a imprensa criou uma atmosfera de horror e canalizou as atenções para o país que demonstra resistência às investidas externas. Diante dos ataques visíveis ao povo Venezuelano, muitos questionam se o interesse ali estaria baseado apenas no petróleo e isto torna as lutas no Haiti mais invisíveis na grande mídia como se este , vanguarda das revoluções, não possuísse riquezas de interesse mundial, algo que não é bem a realidade, considerando que desde meados de 2015 os EUA passaram a ser autossuficientes na produção de petróleo investindo fortemente no óleo de xisto, e segundo dados do Agência Internacional de Energia (AIE), pretendem ser o maior produtor até 2020.

Portanto, a investida em ter o poder na América Latina passa por outras questões, vão além do petróleo, discussões que constituem o cerne do sistema capitalista, tão bem explicado por Marx, retomado por Lenín tratando do imperialismo e dissecado na nossa dependência colonial por autores como Marini e Mariatégui – o que estamos vivenciando nada mais é que um processo de acumulação e por conseguinte de dominação dos recursos naturais sob um falseado discurso de “paz”,  e dominação das mentalidades que continuam pensando por meio de uma lógica dual. Criticam as situações que ajudamos a perpetuar, são contrários ao imperialismo e ao mesmo tempo o propagandeiam, por meio de séries, marcas que em nada alteram nossa sociedade e ao, contrário, levam a um apagamento da nossa história.

Já que quem não possuí história sequer pode ter existido, ou pode existir sendo para sempre uma sombra à serviço de outrem.