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O passado e o presente

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Por Michel Goulart da Silva em 19 de agosto de 2026

O passado e o presente

Grande Domesday Book. Compilado entre 1086 e 1087 d.C. por Guilherme, o Conquistador, como um levantamento da posse de terras e propriedades na Inglaterra normanda . (Arquivos Nacionais, Londres, Reino Unido)

Os últimos anos foram marcados por ataques contra o conhecimento históricos, no bojo do combate do irracionalismo contra as diversas áreas da ciência. Cada área do conhecimento sente o impacto do negacionismo e do questionamento a suas bases epistemológicas básicas, sendo atacadas pelas aberrações produzidas tanto pelo irracionalismo como pelo senso comum. O revisionismo sobre os crimes da ditadura, o movimento antivacina e até mesmo a ignorância das pessoas que se dispuseram a gravar vídeos ou se fotografar representando estar ingerindo detergente, entre outras coisas abomináveis, são parte de um projeto de destruição da razão e de retorno ao obscurantismo anticientífico que remonta a antes do Renascimento.

No caso da História, esse movimento passa por procurar reescrever a forma como a sociedade encara os diversos processos vivenciados pela humanidade. Os ideólogos do anticientificismo atual difundem o revisionismo históricos, que tem seu grande inimigo na Revolução Francesa. Quando descrevem esse processo, ressaltam as violências cometidas e, com isso, procuram demonstrar que se trata de algo traumático para a humanidade. Contudo, ainda que façam esse movimento retórico, para esses ideólogos o problema é menos a violência e mais o que há de fundo naquele processo, que a transformação da sociedade.

O processo genericamente conhecido como modernização – ou desenvolvimento ou outros termos possíveis –é o centro do combate dos revisionistas, que parece preferir um mundo sem industrialização e dominado por pregações religiosas a uma sociedade desenvolvida e que centra suas decisões no conhecimento científico e na racionalidade. Por certo que essa sociedade tem suas contradições, denunciada em especial pelos socialistas, mas, a a despeito de suas críticas, não deixam de olhar para a necessidade e a importância do desenvolvimento econômico, político e social.

Em âmbito nacional, o revisionismo perpassa pelas interpretações distorcidas sobre a ditadura iniciada com o golpe de 1964. Essas intepretações tentam apresentar o golpe como uma necessidade histórica diante de uma suposta tentativa de dominação comunista. Procuram culpar o governo de João Goulart pela sua própria derrubado, por ter tentado mobilizar o apoio popular e se alinhado a forças externas ao bloco norte-americano. Os revisionistas procuram, ademais, fazer propagando dos dados econômicos da ditadura, exaltando os dados do PIB, mas deixando de lados indicadores como desemprego e os impactos do pesado arrocho salarial imposto aos trabalhadores.

Não há problema em rescrever sobre os diversos processos históricos e, a partir da análise das fontes, pontuar novas interpretações. Esse é um processo que marca as diversas gerações de historiadores, sempre prontos a serem superados a partir do que se possa compreender diante da análise das fontes. Contudo, o que fazem os destruidores da razão não é analisar fontes e partir da compreensão histórica existente, mas sim tomar os textos de ideólogos e encaixar os fatos em suas deturpações. O trabalho sério do historiador é ignorado e as fontes não mais são questionadas, e sim esquecidas ou mesmo destroçadas pelo irracionalismo.

Esses setores revisionistas não mostram compromisso com a memória, a história e mesmo o patrimônio. Para eles, o passado não tem importância, considerado as políticas públicas voltadas à memória uma despesa contábil que serve apenas para onerar o Estado. Para eles, espaços como arquivos e museus guardam um conjunto de velharias cuja utilidade a sociedade não conhece e para as quais não deveria dar importância.

Contudo, esses espaços guardam fragmentos – objetos e documentos dos mais variados – da nossa e de outras culturas. Podem guardar o que restou da vida de outras épocas, abrindo a possibilidade de conhecer nossa própria espécie ou outras que talvez não tenham nem convivido com nossos antepassados. O trabalho do historiador não se limita a contar uma narrativa, como acreditam os irracionalistas, mas analisar os documentos deixados pelo passado e, dessa forma, construir um conhecimento científico sobre a sociedade.

Para um historiador, um fragmento rasgado de papel pode ser o início de uma grande pesquisa sobre um século inteiro. Para um arqueólogo ossos sujos de terra podem abrir a possibilidade para revolucionar o conhecimento que temos sobre a vida. Conhecer o passado, tanto o mais distante como o mais próximo, permitem a sociedade escapar de repetições lamentáveis, como ditaduras e genocídios, o que explica porque o conhecimento histórico enquanto ciência é irrelevante para a extrema direita.

Para os reacionários, não faria diferença se ainda acreditássemos que a humanidade nasceu no Jardim do Éden ou que a maioria das pessoas morresse em massa por epidemias, desde que conseguissem destruir a razão e a ciência e se manter no poder. Para a maioria da população, seria garantida apenas algo como uma terra arrasada da qual mal podem tirar seu sustento, a partir das migalhas que eventualmente caíssem das mesas dos poderosos. Os reacionários temem a transformação da sociedade e, por isso, desqualificam o conhecimento histórico. Cabe à sociedade preservar os fragmentos do passado e lutar para que estejam acessíveis a todos.

 

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