Indígenas debatem o acesso à universidade

30 de Setembro de 2015, por Elaine Tavares

 


Fotos: Rubens Lopes

O segundo dia de atividades do Encontro Nacional de Estudantes Indígenas foi de luta, debates e emoção. Porque não é todo dia que a palavra viva dos povos originários é protagônica. Nas mesas de discussão, nas danças, nas palavras de denúncia, no anúncio da luta. Afinal, discutir o acesso e permanência dos estudantes indígenas no ensino superior passa por refletir a vida mesma das comunidades indígenas de todo o Brasil, a luta pela demarcação das terras, o processo de afirmação da cultura, o direito a diferença. Falar em educação implica falar em sobrevivência e autonomia.

A lei que permitiu as cotas para estudantes negros, indígenas e de escolas públicas abriu uma vereda dentro das universidades que os indígenas estão aproveitando ao máximo. Entrar no ensino superior, muito mais do que garantir uma carreira no mundo dos brancos, é imprimir na vida universitária o passo cadenciado da vida indígena. É mostrar que o povo originário vive, resiste e insiste. É conhecer a realidade do não-índio, apropriar-se do saber socialmente construído e re-criar desde os saberes autóctones, não-formais.

Na reflexão sobre a realidade indígena latino-americana os estudantes tomaram conhecimento da luta gigantesca dos irmãos e irmãs de toda a Abya Yala, que constroem cotidianamente outros saberes, que levantam universidades indígenas, como as da Colômbia ou do Equador, que colocam o foco nas demandas dos povos e não no mercado. A educação como ferramenta de saber e não como mercadoria. Na fala de parentes da Colômbia e do México reforçaram laços que atravessam as barreiras linguísticas e se irmanam na realidade semelhante vivida aqui como ali. Em todos os cantos da grande Abya Yala os povos indígenas se levantam e vão rasgando preconceitos e medos pré-concebidos em mais de 500 anos de colonização mental.

O movimento dos estudantes indígenas é singular porque nas suas vertentes de discussão , ainda que com divergências, eles avançam para o que os unifica: a opressão que toca a todos e o desejo de mudar a realidade.  Sua organização é diferente, implica na junção do político com o espiritual e o sagrado. A palavra é dita, o debate é feito, e logo em seguida uma etnia puxa um canto, uma dança, e todos os parentes entram na roda, no giro da cantoria, na união com o que há de mais sagrado dentro de cada um.  E a melodia ancestral ecoa, unificando e amalgamando força.

Há muita estrada para trilhar dentro das universidades e na sociedade brasileira que ainda vê o índio como algo exótico, ou como um atrapalho. Mas, essa juventude – mais de oito mil -  que hoje ocupa os bancos das universidades está disposta a abrir caminhos e imprimir outros ritmos. A universidade não está preparada para os indígenas, para os negros, para os pobres.  Mas eles estão sim preparados para a universidade. E não estão dispostos a apenas consumir acriticamente um saber colonizado. Não. Eles querem trocar conhecimento e estão dispostos a deixar também sua marca.

O terceiro ENEI dentro da UFSC está sendo uma bonita lição. Na hora do almoço, quando eles dançam e adentram o restaurante universitário com suas canções, há um assombramento, um tremor. É quando o não-índio percebe que ali estão os guerreiros, as guerreiras, os primeiros homens e primeiras mulheres, os donos dessa terra, que vivem, que reivindicam e que permanecem. 

E ainda que venham com sua violência, os jagunços, os pistoleiros, os juízes aliados ao poder, os latifundiários, os governos, todos dispostos a varrer da terra o povo indígena, a vida originária floresce nas aldeias e nas cidades. Ñanderu, Tupã, os deuses da natureza dão a força e os homens e mulheres incendeiam os caminhos.

Nunca mais o mundo sem eles!