Originários da Austrália, o horror ainda segue

17 de Fevereiro de 2017, por Elaine Tavares


Eles são os povos mais antigos da humanidade. Os originários australianos. Estão ali naquelas terras desde há 50 mil anos. Seus antepassados foram os primeiros humanos a cruzarem o oceano desde a África e fixaram-se na Austrália e Papua Nova Guiné, permanecendo isolados até quatro mil anos atrás. Não tem sido fácil a luta desse povo para proteger suas terras e preservar sua cultura. Segundo suas tradições, os aborígenes australianos se concebem como uma raça de heróis arquetípicos que viajaram por uma terra em formação esculpindo lugares sagrados por onde passavam. Eles vivem o que chamam o “tempo dos sonhos”, momento de criação no qual sonharam os padrões que dão forma ao mundo. Esse é um tempo prévio e posterior à vida, no qual o indivíduo existe eternamente.  

Quando os europeus chegaram à ilha, no século 18, havia mais de 300 mil pessoas vivendo ali, divididas em pelo menos 500 grupos étnicos, comunicando-se num total de 300 línguas e 600 dialetos. Hoje sobrevivem cerca de 200 línguas, mas a absoluta maioria em risco de extinção. Apenas 20 se mantêm fortes.

A ocupação inglesa na ilha foi violenta, eivada de massacres, com a decretação de leis discriminatórias que perduram até hoje,  e a tentativa de destruição da cultura e da religião animista praticada pelos aborígenes. Os colonizadores também violaram e destruíram locais sagrados, além de praticar a caça justamente aos originários, que eram vistos e tratados como animais. 


Mesmo com a independência da ilha em 1900, os ingleses que dominavam o país seguiram tratando os australianos originários com a mesma discriminação. Nessa época – entre 1910 e 1970 - que ficou conhecida como a da “geração roubada”, os que buscavam criar uma nova nação branca – e aqui já estavam também os neozelandeses - praticaram as maiores atrocidades contra os povos autóctones. Uma delas, a mais perversa, era “confiscar” crianças originárias de pele mais clara para serem educadas em centros educativos, visando incutir nelas a cultura ocidental, roubando-as de suas tradições. 

Os lugares, espécies de reservas, onde viviam os povos originários, eram visitados sistematicamente em busca dessas crianças e, uma vez encontradas, as que tinham traços menos marcados e a pela mais pálida, eram sequestradas por agentes do governo. Uma violação que existiu até os anos 70 do século passado. Mais de 100 mil crianças tiveram esse terrível destino. A prática foi cunhada pelo governo racista de “política de assimilação”. Centenas de famílias foram destruídas com essa ação governamental e até hoje as comunidades vivenciam essa dor, porque muitas das crianças que foram levadas jamais voltaram para casa. E as que foram obrigadas a essa violência ainda hoje sofrem as consequências.

A experiência dessas crianças nos chamados centros educacionais também foi dramática. Nomeadas como “negras”, “macacas” e “lixo”, não havia um dia que não eram cuspidas e humilhadas pelas crianças brancas. Além disso, tinham o corpo inspecionado todas as manhãs, diante da turma, para ver se tinham tirado a “sujeira” que nada mais era do que sua cor. 
Os povos originários da Austrália até os anos 60 do século passado tampouco podiam participar da vida do país, sequer tinham direito a voto.

A política de assimilação e destruição chegou a colocar esse povo quase em extinção. Em 1945 eles eram apenas 40 mil almas. 

O objetivo maior dos brancos era o roubo das terras. Naqueles dias eles visitavam as comunidades, ofereciam presentes e festas. Durante a festa era colocado arsênico na comida e na água, prática que dizimou aldeias inteiras. Quando não matavam diretamente, introduziam nas comunidades o uso do rum, fazendo com que se embebedassem e brigassem entre si. 

Com o passar do tempo, os originários foram se integrando à vida do país, principalmente pelo trabalho, mas igualmente enfrentavam a discriminação, sendo considerados preguiçosos e incapazes. Mas, por sua pele mais escura, resistam mais ao sol enquanto os brancos queimavam. Por conta disso eram tolerados.  

Hoje, depois de muitas lutas travadas, os povos australianos já conseguiram garantir alguns direitos, mas seguem sendo vistos como seres de segunda classe. Seus salários são três vezes mais baixo que os dos brancos, o desemprego entre eles é maior, a taxa de mortalidade infantil é alta e a média de vida baixa. Menos de 30% dos originários completam o nível superior e a maioria segue isolada em lugares bem longe da cidade. Eles são animistas e gostam de se concentrar onde tem água, em acampamentos temporários. Acreditam que o ser humano é só mais um no universo de seres com o ser supremo. Desfrutam e partilham a natureza.

Quase chegando à extinção eles vêm crescendo desde o final do século passado e hoje já são 2% da população, pouco mais de 400 mil. A maioria ainda vive no interior, mas muitos conseguem se virar bem na cidade. O problema mais grave nas comunidades – herança nefasta dos colonizadores – é o alcoolismo e a violência, coisa que vem sendo combatida justamente com recuperação das tradições.

É incrível que tudo isso tenha acontecido naquelas remotas terras sem que o mundo se levantasse em protesto. Os aborígenes enfrentaram tudo isso sozinhos até bem pouco tempo e hoje lutam para manter viva a sua cultura, bem como a posse de seus territórios sagrados. Em 2008 o primeiro ministro do país chegou a pedir desculpas pelo massacre sistemático e pelo roubo das crianças, mas não foi um pedido formal, uma vez que isso poderia acarretar pedidos de indenizações. Até nisso foram cínicos.

Há muito ainda para ser conhecido e reparado na relação com os legítimos donos da Austrália. Mas essa é uma luta que segue a passos largos. Num dos países mais ricos do mundo, os verdadeiros donos da terra ainda precisam mendigar. Nada muito diferente das condições dos demais povos originários dos países que viveram colonizações violentas, como é o caso também da América Latina.