Pelo direito a autodefesa dos povos indígenas

18 de Janeiro de 2019, por Cris Tupan


Como um integrante do povo Guarani, diante da violência desatada contra as populações indígenas, nos últimos meses, no Brasil, procurei elaborar algumas reflexões acerca da necessária autodefesa de todas as nossas comunidades. São dez tópicos que compartilho para o necessário debate entre todos os parentes.

Primeiro: Não falo pelos povos indígenas ou por nossas organizações.

Segundo: Defendo a tese necessária da revolução brasileira, feita por trabalhadores e trabalhadoras. Os quilombolas, os ribeirinhos, os favelados, os operários, os camponeses, as mulheres, o/as lgbtqi e nós indígenas devemos nos organizar em auto defesa com um programa para o nosso povo. O povo da quebrada, o povo das palafitas, da floresta e dos fundões do mundaréu... daqueles lugares nos quais os vermes botam ovos (Plínio Marcos).

Terceiro: Os inimigos do povo já estão armados. Jagunços, Estado, milícias, crime e latifúndio matam e roubam faz anos, e, toda resistência vem sendo esmagada. A nova fase da ditadura é liberal e golpista. Não aceitaram o modelo capitalista eleitoral e, desde 2016, são implementadas a piores medidas, dentro da lógica de conciliação de classes liderada pelo PT nos últimos 14 anos.

Quarto: O governo atual é ilegítimo, foi eleito em uma fraude orquestrada com apoio do capital internacional, do patronato nacional, da mídia nacional, do judiciário e do latifúndio financiado por corporações nacionais e internacionais vinculadas ao imperialismo estadunidense, alemão, inglês, francês e chinês. Esses Estados são os beneficiados diretos pela renda da terra (extração de minerais e outras riquezas nacionais e naturais, por exemplo a água).

Quinto: Antes e depois da posse o ilegítimo governo atacou e ataca os sindicatos, os pobres, os indígenas, os intelectuais, os camponeses sem terra, os trabalhadores e trabalhadoras sem teto e sem emprego. Ameaça com prisão, morte e exílio. Quem esquece a fala do Bolsonaro para o público na Avenida Paulista? Matar, prender e exilar os vermelhos.

Sexto: Com a posse do governo ilegítimo confirmou-se que, pelo menos 50% dos empossados são investigados ou já punidos pela justiça. Queiroz é apenas a ponta do iceberg de uma família toda envolvida em mal feitos desde que o patriarca entrou para política. Grassam fatos desses personagens travestidos de moralistas. E o pior é que contam com o apoio de bancadas lideradas por podres pastores.

Sétimo: É fato que a questão da nova lei de armas atende a interesses escusos de empresas que financiaram políticos para fazer lobby pró-armas.

Oitavo: Os sujeitos da necessária revolução brasileira estão acuados pela fome, pelo desemprego, pela injustiça social e pelo golpe. Alguns progressistas empregados públicos, uns poucos membros de partidos de esquerda e de sindicatos e movimentos sociais vem lutando contra os retrocessos e ilegalidades desde antes de 2016 (ano do golpe contra Dilma) e são nossos companheiros. Destaco que alguns estão confusos nesse momento da luta. Caracterizam o governo de fascista e ao mesmo tempo interpretam liberalmente a questão do decreto de armas.

Nono: O ideograma chinês para a palavra crise é o mesmo que para a palavra oportunidade. O “bagúio” tá loco mesmo, é fato, e é preciso tirar vantagem disso. A direita, mesmo sabendo que era ilegal, sempre se armou. Cabe a esquerda organizada aproveitar esse momento de contradição e tomar a auto-organização como programa e preparar-se para resistir por todos os meios necessários.

Décimo: Nós indígenas, lançamos uma campanha “Sangue indígena nenhuma gota a mais”. Precisamos cumprir com isso, retomar nossa resistência ancestral exemplificada por Sepé Tiarujú e pelos anciões na guerra dos Tamoios. O povo Brasileiro seguirá nosso exemplo. Os jagunços, os invasores e os ladrões pensarão duas vezes antes de invadir nossa terra se souberem que estamos aptos para a defesa, conforme manda a lei. Assim que precisamos nos organizar, treinar, cultivar a disciplina e assim garantir a auto defesa. Nosso exemplo ajudará o povo Brasileiro a construir a necessária revolução democrática e socialista.

Viva os povos indígenas do Brasil, e viva o povo brasileiro.