Volume 1, Número 2 (2011)

Editorial

Apresentar o segundo número de REBELA é, por si só, uma grande satisfação e um grande desafio. A satisfação vem da possibilidade de avançar na proposta de fortalecer o espaço de discussão sobre os temas e problemas latino-americanos, abordados preponderantemente pelo pensamento marxista, criticamente apropriado ao nosso contexto. Ultrapassar a barreira do primeiro número é também motivo de satisfação porque constatamos que REBELA foi acolhida por um número significativo de pensadores e militantes da região que para este veículo enviaram suas reflexões. Não só pelos que enviaram suas contribuições mas também por todos aqueles que se manifestaram efusivamente pela criação da revista. É, ao mesmo tempo, um grande desafio porque despertamos expectativa sobre a continuidade deste projeto e porque a ele queremos responder coerentemente, ampliando a cobertura de temas, disciplinas, autores, nacionalidades, garantindo espaço de circulação de conhecimentos movidos pelo propósito de transformar a realidade latino-americana e de contribuir para a libertação dos povos. A satisfação e o desafio também são fruto do conjunto de temas abordados nos artigos que aqui vão publicados, como se poderá ver na breve síntese que se segue.

Magdalena Juricic Campos e Cristian Obando Ruiz buscam explicar, em Conflicto por el Gas en Magallanes, Chile: movimiento social y recursos naturales, a relação entre recursos naturais e organização social, a partir da análise do conflito ocorrido entre o final de 2010 e início de 2011, desencadeado pela alta do gás doméstico na região de Magallanes, na Patagônia chilena. Além da importância geopolítica daquela zona, os autores destacam, numa abordagem histórica, o papel de empresas e do governo chileno como responsáveis pela exploração, uso e distribuição de gás e de petróleo daquela zona bem como a forma pela qual o povo se organizou para o enfrentamento e a resolução do conflito. A industria da moda é o cenário para um estudo sobre superexploração de trabalhadores migrantes na Argentina, em Detrás de la Industria de la Moda. María Ayelén Arcos e Camila Montero apresentam casos de marcas conhecidas, denunciadas por explorar o trabalho de migrantes clandestinamente e mostram que, ao contrário do que se pressupõe, o trabalho clandestino não está vinculado unicamente ao mercado informal; constitui a realidade em cerca de 80% da produção no setor de vestuário no País.Em Críticas de Colectivos Sociales Brasileños a Impactos Socioambientales Asociados a Proyectos Financiados por el BNDES, Gabriel Eduardo Schütz e Marcelo Firpo de Souza Porto trazem para discussão os resultados de uma investigação exploratória sobre conflitos sócio-ambientais que envolvem diretamente o BNDES, banco estatal brasileiro criado para promover o crescimento econômico com desenvolvimento social e modernização da infra-estrutura do País. Coletivos sociais tem denunciado a associação de alguns empreendimentos financiados pelo BNDES com prejuízos sanitários e ambientais nos locais onde se instalam. Os autores pretendem contribuir para o debate em torno do papel das organizações públicas como instrumentos a serviço de um modelo econômico ecologicamente sustentável, mais justo e inclusivo na América Latina. Para Marcos Antonio da Silva e Guillermo Alfredo Johnson, a persistência da relação imperialista na América Latina se sustenta, entre outros elementos materiais e imateriais, na disseminação de uma cultura política que afirma e reproduz valores liberais. Esta afirmação feita em Neoliberalismo e Cultura Política na América Latina é decorrente do balanço crítico que os autores fazem das concepções político-ideológicas do imperialismo e dos valores culturais e políticos produzidos e reproduzidos em torno da visão de Estado, Democracia e Sociedade Civil implementados na América Latina no final do século XX. Os autores argumentam que tais concepções mascaram a dominação do capital e que a crítica político-ideológica é fundamental para o desenvolvimento das lutas anti-capitalistas. Em A Trajetória do Neoliberalismo na Venezuela e sua Conjuntura Atual, Vandiana Borba Wilhelm apresenta um panorama das mudanças políticas, econômicas e sociais ocorridas na Venezuela, resultantes das condicionalidades para a renegociação da dívida externa e da adesão às diretrizes do Consenso de Washington. Tendo como marco o ano de 1998, ocasião em que Hugo Chávez foi eleito democraticamente presidente da República, a autora faz uma análise das políticas governamentais, problematizando e explicitando traços de rupturas ou de continuísmos do governo Chávez, em relação às políticas neoliberais do período anterior.Anelise Suzane Fernandes Coelho investiga, em Os Anos de Primavera no País da Eterna Tirania,as reformas sociais realizadas entre os anos de 1944 e 1954, na Guatemala. Naquele ano, o movimento revolucionário guatemalteco instalou um governo democrático, legalizou o Partido Comunista e promoveu a reforma agrária. Ao final desse período de 10 anos, no contexto da Guerra Fria, a Guatemala vivenciou um golpe de estado, orquestrado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos. A autora busca compreender os aspectos sociais da revolução guatemalteca, particularmente a relação entre as reformas sociais e a presença do Partido Comunista na vida política do País. Do Extrativismo ao Agronegócio das Monoculturas de Mercado na Amazônia Norte mato-grossense, de Fiorelo Picoli, discute a transição gradativa da indústria de transformação de madeiras para a agropecuária de mercado na floresta amazônica brasileira. Aponta os atores sociais envolvidos e mostra a conivência do poder público com a ocupação ilegal das terras e a consequente destruição ambiental; aponta também a participação das elites locais na ação predatória e na exploração dos trabalhadores. Reflexões sobre conceitos e ideias trabalhados por Che Guevara, como o homem novo, a necessidade do exemplo, o trabalho voluntário e a busca da perfeição, dentre outros, são apresentados por Rafael Cuevas Molina e Paulette Barberousse Alfonso em Implicaciones Educativas del Pensamiento y la Práctica de Ernesto “Che” Guevara. Os autores estimulam o aprofundamento à “pedagogia da entrega”, típica da prática desse revolucionário e pensador social. Por fim, as fotos colhidas na cidade de João Pinheiro, por Rubens Lopes constituem o ensaio fotográfico Sant’Ana do Alegre: o caminho mineiro do cerrado, mantendo o compromisso de REBELA em abrigar formatos não convencionais, colorindo e enriquecendo nosso olhar sobre a região.

Boa leitura!

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