Volume 4, Número 3 (2014)

Editorial

A Revista Brasileira de Estudos Latino-Americanos apresenta mais um número, oferecendo textos que aportam o pensamento crítico produzido no Brasil e nos demais países da América Latina.

Começamos com um precioso ensaio Gilberto Felisberto Vasconcellos, que disseca criticamente o livro de Nildo Ouriques, “O colapso do figurino francês”, relacionando-o com os problemas do subdesenvolvimento brasileiro, o colonialismo e a falta de um pensamento crítico. No ensaio Nildo Ouriques, discípulo de Ruy Mauro Marini, detona os cipayos esclarecidos de São Paulo, Vasconcellos aporta importante autores brasileiros e elabora um importante retrato crítico da realidade.

Em seguida, Angela Garofali Patrón discute a Dialética da dependência e transferência de valor: o caso uruguaio, no qual utiliza o referencial teórico produzido por Ruy Mauro Marini para interpretar a realidade uruguaia, principalmente no que se refere a alguns mecanismos de transferência de valor para o exterior. Cecilia Allami também discute a teoria de Ruy Mauro Marini, no texto Atualidade do pensamento de Ruy Mauro Marini centrando sua análise no debate sobre as potencialidades e limites do desenvolvimento econômico da América Latina e buscando compreender o fenômeno da dependência. Bernardo Salgado Rodrigues, no texto O resgate da teoria marxista da dependência no século XXI, igualmente usa esse referencial teórico genuinamente brasileiro que tem servido de base para construir uma interpretação crítica do papel da América Latina no sistema capitalista mundial.

Thiago Rafael Burckhart, partindo das inovações trazidas pelo novo constitucionalismo latino-americano, discute no texto O novo constitucionalismo latino-americano: direitos humanos, pluralismo e direito indígena, as questões que envolvem a garantia de direitos historicamente negados e/ou negligenciados a grandes parcelas da população, como, por exemplo, o povo indígena.

João Gabriel de Almeida introduz o pensamento místico de Glauber Rocha num diálogo com Walter Benjamin para propor a constituição de um novo sujeito social capaz de construir a revolução brasileira. No texto Um messias nos Trópicos: Um encontro entre Walter Benjamin e Glauber Rocha, ele apresenta a Estética da Fome e do Sonho, de Glauber, como importante referencial teórico capaz de refletir o Brasil atual.

Indira Andrea Quiroga Dallos, no texto Indo para mesa com os Camentsá, produz uma narrativa sobre o mundo alimentar dos indígenas camentsá, comunidade moradora no Vale do Sibundoy, na Colômbia. Toda a articulação das mulheres camentsá na cozinha, misturando plantas medicinais e comestíveis com os animais domésticos, mostram, para além do resultado comestível, a realidade de um povo que resiste nas suas tradições. 

Cristiano de França Lima, Carolina Valéria de Moura Leão, Júlio Cesar Andrade de Abreu traçam caminhos que passam pelo Brasil e Portugal, para entender a nova realidade que se apresenta na Venezuela. No texto As Comunas Socialistas na Venezuela: notas teóricas sobre o movimento social na América Latina, fazem uma análise sobre o que já foi escrito sobre o tema, buscando formular novos paradigmas de transição que superem as críticas modernas sobre as comunas.

Na sessão de resenha, Waldir José Rampinelli comenta o livro do venezuelano Fernando Baez, A história da destruição cultural da América Latina: da conquista à globalização, no qual o autor expõe o genocídio, o etnocídio e o memoricídio praticados contra os povos latino-americanos ao longo dos anos.

A revista apresenta ainda dois ensaios fotográficos que refletem a vida das cidades no contexto do desenvolvimento e da globalização. O primeiro deles, de Edgard Matiello Junior, Reflexos da UFSC: Vestígios do Esporte, discute o abandono dos espaços reservados à prática desportiva, singularizado na Universidade Federal de Santa Catarina, mostrando que apesar dos megaeventos, o esporte não encontra espaço nas políticas públicas.

O segundo ensaio, de Diego Echevenguá Borges, Do rudimentar à lógica de mercado: um registro da transformação da Feira Hippie de Belo Horizonte, mostra a origem e o desenvolvimento da Feira Hippie de Belo Horizonte, observando como a proposta original, de venda de artesanato, vai evoluindo para a invasão dos produtos “made in China” e o comércio popular, deixando aberta a chaga do desenvolvimento desigual.

Boa leitura

Coletivo Editorial

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