Volume 2, Número 1 (2012)

Editorial

A Revista Brasileira de Estudos Latino-Americanos, REBELA, apresenta sua terceira edição na perspectiva de trazer para o público brasileiro as reflexões críticas sobre temas importantes da América Latina. É um esforço gigantesco na medida em que a colonização do pensamento acaba por priorizar a reprodução de autores consagrados na Europa ou nos Estados Unidos. Encontrar estudos que estejam caminhando na senda da construção de um pensamento próprio, crítico e original passa a ser um desafio. 

Mas, com a consolidação da Rede Brasileira de Estudos Latino-Americanos, nascida a partir do esforço do Instituto de Estudos Latino-Americanos, IELA, da UFSC, vamos vencendo esses obstáculos, encontrando cada dia mais gente disposta a refletir sobre a América Latina, longe dos modismos, e sempre com acento crítico. 

Nessa edição, a REBELA discute, a partir do trabalho de Jorge Notaro Roumas, A Distribuição Social da Renda: Marcos teóricos e indicadores, como é necessário que haja um marco teórico e indicadores capazes de dar conta das especificidades da América Latina, marcada pelo capitalismo dependente. Waldir José Rampinelli traz, no texto O Terrorismo de Estado na Argentina, a reflexão crítica dos tempos da ditadura militar naquele país, destacando as estratégias da máquina de tortura e morte que se configurou naqueles dias e que desapareceu com mais de 30 mil pessoas.

A revista apresenta ainda o texto de Carlos Schmidt, Venezuela: o difícil caminho da busca de uma alternativa de superação do capitalismo e do socialismo burocrático, no qual o autor mostra as diversas tentativas do governo venezuelano em promover o protagonismo popular, destacando as dificuldades e os entraves da construção de uma sociedade livre. Luis Felipe Aires Magalhães traz o texto El Salvador: análise das principais transformações demográficas dos últimos 30 anos. Nele, o autor discute o processo de guerra civil aberto pela busca de libertação, o terrorismo de Estado e a grande migração de salvadorenhos para os Estados Unidos. 

Catarina Gewehr apresenta uma importante contribuição crítica com o trabalho O Processo de Incorporação de Conhecimentos na Psicologia Social da América Latina, no qual a autora discute a incapacidade da Psicologia Latino-Americana em trabalhar com os problemas apontados pela realidade deste grande continente, apontando, assim, para a necessidade de uma ciência própria. Rafael Litvin Villas Bôas debate o Novo Ciclo de Modernização Conservadora: Indústria cultural e reconfiguração da hegemonia. Nesse texto o autor mostra aspectos da estrutura de poder que sustenta a desigualdade brasileira por meio da análise da configuração da hegemonia a partir do pós-golpe de 1964, e do papel que a indústria cultural exerce nessa dinâmica. 

Dentro da seção Artigos apresentamos ainda o texto de Camila Rodrigues, A Indústria de Jornais Diários no Brasil e o Oligopólio de Comunicações, no qual a autora mostra, a partir de uma análise histórico-metodológica, como as transformações do capitalismo mundial do pós-Segunda Guerra influenciaram a indústria de jornais brasileiros. Miriam Santini de Abreu aborda o tema Código Florestal Brasileiro e Código Ambiental de Santa Catarina: legislação a favor do lucro. No artigo ela busca desvendar parte das consequências da legislação que se faz em favor do lucro, e revela como a alteração do Código Florestal Brasileiro iniciou-se a partir de uma ação articulada por diferentes grupos políticos e econômicos e que teve, no Estado de Santa Catarina, um processo fundamental no qual se ancorar.

Além desses instigantes artigos que abordam temas importantes da conjuntura latino-americana a revista apresenta uma resenha sobre Um Jornal Mapuche, produzido no Chile por esse povo e que garante informação a toda a gente, uma vez que também está disponível na internet, e outra sobre o livro Crítica à Razão Acadêmica, organizado pelos professores Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli. 

Para fechar, a revista traz ainda dois ensaios fotográficos. Um é de Newton Tomazzoni Tavares, sobre O Povo do Egito – irmão da América Latina. Nele, o autor mostra a vida cotidiana dos trabalhadores egípcios, às voltas com uma revolução, comparando com a luta permanente dos trabalhadores latino-americanos, irmanados na busca de libertação. O outro é de Rafael Kruter Flores, que mostra a Marcha Contra a Mineração em Mendoza, Argentina, sob a consigna “El Agua No Se Negocia”. É a organização das gentes em defesa da água, contra a privatização e a destruição desse bem público.

Assim, entregamos ao público mais um número da REBELA, esperando que possa instigar, incomodar, surpreender e revelar a vida que pulsa nesses espaço geográfico tão rico de lutas e de conhecimento: a América Latina, ou ainda, como dizem os indígenas, a Abya Yala (a terra dos esplendor). E, ao completar um ano nessa caminhada também agradecemosaos avaliadores dos textos (Adriano Saraiva Amaral, Francis Kanashiro Meneghetti, Glauco Ludwig Araújo, Joysi Moraes, Paulo Ricardo Zilio Abdala e Rafael Kruter Flores) que, generosamente, se dispuseram a usar do seu tempo para fortalecer a Revista e o pensamento crítico. 

Boa leitura!

Coletivo Editorial

Resenhas

Ensaios Fotográficos

Autores desta edição