Volume 3, Número 1 (2013)

Editorial

Cresce a consciência brasileira sobre a realidade latino-americana. Contudo, é preciso registrar que ainda lutamos contra enorme ignorância sobre nosso continente e nossa história comum. O sistema universitário é o principal instrumento de reprodução da alienação eurocêntrica que domina amplamente o cenário nacional e, ao mesmo tempo, representa a derrota acadêmica de um projeto intelectual vigoroso que estamos construindo contra vento e maré. O resultado pode ser visto sem lupa: os estudos de natureza acadêmica são notoriamente incapazes de explicar os processos políticos e sociais em curso na América Latina. No entanto, se reproduzem porque esta é a norma que conduz a servidão voluntária de nossos estudantes – na graduação e especialmente na pós-graduação – do país. Mais importante ainda, o academicismo dominante é estéril, cronicamente incapaz de produzir teoria social desde os trópicos, razão pela qual se limita tão somente a reproduzir os autores de moda consagrados em outras paragens. Neste contexto, compreende-se que os intelectuais críticos que existem na Europa, nos Estados Unidos, na China ou na Índia, pouco se interessam pela “produção acadêmica” de nossas universidades.

Nossa revista eletrônica nasceu para abrir novo meio de expressão para novos pensadores e para todos aqueles que analisam a dramática realidade latino-americana desde uma perspectiva crítica e radical. É natural que ainda tenhamos a marca do meio em que atuamos, afinal, ninguém pode sair do buraco puxando pelos próprios cabelos. Temos plena consciência que precisamente sobre os estudantes brasileiros – especialmente na pós-graduação – pesa um sistema de controle sutil e eficaz, destinado a manter a tradicional indiferença nacional em relação aos temas latino-americanos, tão nossos quanto o ar que respiramos. Ainda assim, observamos que a rebeldia se mantém e a curiosidade intelectual, inimiga da repetição canônica – também. Estamos felizes com o espaço conquistado por REBELA, mas não nos iludimos: uma mudança radical e permanente somente será possível quando os ventos da revolução social soprarem novamente no Brasil. Por enquanto, é inegável que a rebeldia das ruas já se apresenta com vitalidade, ainda que anárquica. Mas as contradições do desenvolvimento capitalista no Brasil são enormes, impossível de acomodação nas “teorias” de uma “nova classe média” ou de um país “potencial”. Estas não passam de ideologia que sucumbiram tão rapidamente quanto o primeiro grito de protesto ecoou nas principais capitais brasileiras nas jornadas de junho. Voltarão, sem dúvida. Mais fortes e conscientes, esperamos. 

Na América Latina, a despeito das contradições e retrocessos dos processos revolucionários em curso, a história esta efetivamente aberta. No México, na Venezuela, na Colômbia, no Chile ou no Brasil, o desenvolvimento capitalista periférico é incapaz de responder as demandas históricas de justiça social, igualdade e soberania. A promessa burguesa permanece, na periferia capitalista, cativa de uma ordem social que não pode senão renovar a ideologia de um futuro promissor em breve, sempre adiado pelas exigências da acumulação de capital que reproduz a barbárie em nome da civilização. Esta é a razão profunda pela qual os autores aqui publicados seguem buscando as raízes profundas de temas atuais e motivo suficiente para alentar a curiosidade brasileira sobre temas de outros países latino-americanos.

Também pelo exposto, neste número se poderá observar a miséria do neodesenvolvimentismo cujo ápice pode ser observado na ideologia segundo a qual nossos países estão se “desendividando” quando, na verdade, o endividamento cresce; da mesma forma, nosso leitor poderá observar o conteúdo ideológico das “teorias democráticas” que pretendem legitimar a democracia ocultando a necessária dose de violência estatal para manter a rebeldia sob estrito controle. O liberalismo nas ciências sociais evita o desconfortável tema do terrorismo de estado, tão evidente na Colômbia. Da mesma forma, enquanto os desenvolvimentistas observam a taxa de crescimento do produto como indicador confiável de que estamos no rumo certo, os países latino-americanos expandem a produção de produtos agrícolas e minerais, confirmando uma posição na divisão internacional do trabalho que conspira contra a promessa de progresso burguês. De resto, a atenção de nossos autores recupera as sempre decisivas lições da Reforma de Córdoba, jornada ainda tão desconhecida entre nós e decisiva para um processo intelectual que ainda temos que construir.

Nossa Revista ganhou o reconhecimento oficial da CAPES. É fruto de um árduo trabalho que ganhará novo horizonte agora e que exigirá mais rigor para, nos marcos de uma universidade cativa, impedir que o academicismo tenha longa vida também nesta trincheira do pensamento crítico que originou nossa Rede. Agradecemos a colaboração dos revisores que avaliaram textos submetidos para esse segundo volume de REBELA: Joysi Moraes, Deise Luisa da Silva Ferraz, Rafael Kruter Flores, Paulo Abdala, Adriano Saraiva Amaral e Pâmela Marconatto.

Saudações, 

Nildo Ouriques

Resenhas

Ensaios Fotográficos

Autores desta edição