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A Venezuela e a guerra cognitiva

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Por Elaine Tavares em 05 de fevereiro de 2026

A Venezuela e a guerra cognitiva

Delcy recebe a representante estadunidense Laura Dogu

Passados mais de 30 dias do sequestro do presidente Nicolas Maduro e da vice, Cília Flores, sem que se tenha qualquer informação sobre a situação do juízo que lhe foi imposto, a Venezuela volta a receber representantes diplomáticos estadunidenses, o que faz acender uma luzinha vermelha sobre os planos de Trump para o país.

A presidente Delcy Rodríguez recebeu na segunda-feira a encarregada de negócios dos Estados Unidos, Laura Dogu, que saiu da reunião bastante à vontade, comentando os resultados num vídeo divulgado pela Embaixada dos EUA, reaberta, sendo que estava fechada desde 2019, quando as relações ente os países foram rompidas. Segundo ela, Washington pretende a implementação de um plano em três fases na Venezuela: A primeira seria estabilizar e restaurar a segurança (?), depois, um processo de recuperação econômica do país e, por fim, uma transição para uma Venezuela “amigável, estável e democrática”.

O vídeo de Dogu, tão desrespeitoso, é mais um tiro na guerra cognitiva e psicológica que os Estados Unidos travam contra a Venezuela, buscando atiçar o medo na população e também a desconfiança sobre o governo bolivariano. Laura Dogu, também ressaltou que para que o plano imaginado pelos EUA comece a andar deverá ser reaberto o espaço aéreo da Venezuela bem como restabelecida uma licença geral para comerciar com o petróleo venezuelano.

A alegria da estadunidense, falando como se fosse a chefe do governo da Venezuela, quer fazer a população acreditar que o governo venezuelano já cedeu aos Estados Unidos o controle do petróleo – tal como ordenou Trump – assim como também atendeu ao pedido de libertação de presos políticos. A intenção primeira é gerar a desconfiança, buscando fragilizar o comando da Venezuela.

Por seu lado, a presidente interina Delcy Rodríguez falou à nação sobre o encontro com Dogu dizendo que foi um encontro para alinhar planos de trabalho, e que não custa nada ser educado. Mas, não deixou claro qual é verdadeiramente a posição da Venezuela diante do “plano de três fases” divulgado pela representante estadunidense. Segundo lideranças das fileiras chavistas Delcy procura ganhar tempo. Afinal, está com o Comando Sul na porta de entrada e com o presidente sequestrado. Vive uma guerra e precisa caminhar com cuidado no campo minado.

É bom lembrar que Delcy Rodríguez não é qualquer quadro. Tem uma sólida formação marxista e atuou com maestria, desde dentro dos Estados Unidos, quando ocupou o cargo de Chanceler durante o governo de Chávez. Também foi ministra da Economia e dirigiu a PDVESA. Faz parte do chamado núcleo duro do chavismo e não tem qualquer vocação para ser manipulada. Neste momento de crise, no qual, inclusive, já foi até ameaçada de morte por Trump, ela tem atuado menos com bravatas e mais com trabalho. Tanto que desde que assumiu como presidente, depois do sequestro de Maduro, não tem parado um instante. Segue visitando as comunidades e regiões da Venezuela, entregando obras, discutindo propostas, apresentando projetos e, principalmente, buscando manter a população em alerta e organizada, chamando manifestações massivas recorrentes. Enquanto aparenta inação diante das “diretrizes” traçadas por Trump vai educando e armando politicamente o povo. Diante da guerra cognitiva, entende que o povo organizado e em luta é única opção. Enquanto isso,  estrategicamente “sorri e acena” para os Estados Unidos. Busca ganhar tempo esperando que a conjuntura vire.

Maduro segue preso e será ouvido pela corte estadunidense apenas no dia 17 de março. A suprema corte do país gringo já declarou que não existe o Cartel de Soles, o qual Maduro é acusado de dirigir. Que sobraria então de acusação? O fato de ele ser um ditador? Mas, concretamente, Maduro não é ditador, já que foi eleito em eleições livres, com observadores internacionais e tudo. E ser ditador não parece ser algo que incomode muito aos Estados Unidos visto que seus dirigentes têm criado várias ditaduras pelo mundo afora, bem como se relacionam excelentemente com outras, como a da Arábia Saudita, por exemplo, assim como, neste momento, tem atuado como uma. Vide o que o governo Trump anda fazendo com os migrantes e com sua própria gente.

A verdade nua e crua que a imprensa não diz é que os Estados Unidos estão fazendo o que sempre fizeram com relação à América Latina: proteger os seus interesses diante de ameaças de outras nações que estão no mesmo nível deles no tabuleiro geopolítico. A presença cada vez maior da China nas terras latino-americanas coloca na mesa outra vez a necessidade de ação por parte dos EUA. Mais ou menos como aconteceu quando os Estados Unidos iniciou seu processo de dominação do continente logo depois das independências, visando tirar da Espanha, Inglaterra. França e Portugal qualquer possibilidade de disputa neste território.

O que definitivamente se configura dramático é saber que os povos dos países dependentes, como somos todos aqui abaixo do Rio Bravo, são apenas mariscos diante do jogo dos grandes. E nessa batalha de gigantes muitas vezes ainda temos de enfrentar nossa própria gente, configurada nas elites, traindo e entregando qualquer possibilidade de soberania. Vide o caso de Maria Corina que até Prêmio Nobel ganhou, pedindo a intervenção estrangeira em seu país.

Mas, de uma coisa os venezuelanos estão seguros. Delcy Rodríguez não é Maria Corina. Tem mostrado sua convicção, seu valor, desde os primeiros dias do governo Chávez, lá em 1998. E tanto que abandonou a confortável posição de Chanceler para estar na Venezuela, construindo a democracia participativa e a república bolivariana. Assim, as falas cínicas de Trump e seus asseclas, de que ela estaria traindo Maduro ou a revolução, não encontram eco no coração e nas mentes da população bolivariana. Negociações com os Estados Unidos sempre existiram, desde os tempos de Chávez, bem como a venda de petróleo. Mas, isso nunca significou capitulação. Pelo contrário. É afirmação de soberania.

É certo que agora a faca está sob a cabeça da presidente e ela se move com cuidado. Enquanto isso, vai mantendo o povo alerta para enfrentar o que pode vir. Nada está perdido ainda.

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