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A venezuela sob os óculos da imprensa

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Por IELA em 26 de fevereiro de 2010

“O súbito interesse pelo Haiti, provocado pelo catastrófico terremoto no país, confirma a tradição de que, no Brasil, só desastres e conflitos, em geral, despertam atenção para os países da América do Sul e do Caribe.”
Esta conclusão de Sergio Leo ao iniciar sua coluna no jornal Valor Econômico do dia 18 de janeiro, capta corretamente o fenômeno, mas falsifica suas causas.  De fato, já é uma tradição da imprensa brasileira noticiar apenas desastres e conflitos dos (e com) nossos vizinhos, mas tal tradição não se deve a uma patologia acometida no povo brasileiro em se interessar somente por notícias negativas. Tal tradição se deve, na verdade, ao interesse da grande mídia brasileira em estigmatizar e desgastar perante a opinião pública brasileira a imagem dos governos latino-americanos comprometidos com a transformação social de seus países. Basta notar a diferença de tratamento midiática entre o presidente venezuelano e o colombiano ou uruguaio. Afinal, uma vez concluída a operação midiática, qualquer proposta brasileira de aproximação a estes governos já está, a priori, condenada perante a população. Bastaria dizer que tal política é semelhante à de Hugo Chávez para que todos já a interpretem como ditatorial, fanfarrona, e desastrosa.
Para atingir este objetivo as grandes corporações se aproveitam do oligopólio da informação para desinformar, isto é, para criar ilusões que serão inexoravelmente destruídas pela realidade. Quando isso ocorre, à imprensa resta a altenativa: ou o assunto desaparece da pauta, ou admite-se a “surpresa”, com uma grande dose de hipocrisia, é claro. É da segunda maneira que procede o colunista Sergio Leo ao admitir que “Contra as expectativas (fabricadas pela própria imprensa em conjunto com as elites locais, VHT) Evo Morales conseguiu superar a crise política no país e garantir a reeleição, com forte apoio popular.” Durante todo o ano de 2009 fomos bombardeados por “notícias” mostrando a gigantesca “crise política” do governo Morales que tornava possível sua derrota eleitoral. Entretanto, qualquer pessoa realmente informada sobre a conjuntura boliviana sabia que a “crise política” do país se tratava, na verdade, da luta travada entre a maioria indígena e pobre da Bolívia contra as elites regionais, na qual o governo de Morales toma parte pela primeira provocando importantes transformações sociais. É por isso que diante de uma consulta popular Evo Morales deveria sair fortalecido. É por isso que os governos transformadores da América Latina buscam radicalizar a democracia.
Entretanto, como a função da grande mídia brasileira não é informar, mas doutrinar, vemos este ano repetir-se a mesma operação feita no ano passado com a Bolívia, agora com a Venezuela. Enquanto aquela, depois de contrariar tantas “expectatvas” sumiu da pauta, encontramos quase que diariamente, nem que seja uma rápida nota de fim de página, alguma notícia mostrando o tamanho da crise política que enfrenta Hugo Chávez. Crise que já iniciou grande e que não pára de crescer nunca. Não por coincidência, este ano também ocorrerão eleições na Venezuela. Em setembro o povo venezuelano irá as urnas para escolher uma nova Assembléia e, ao contrário da última eleição legislativa, esta a oposição decidiu disputar.
Assim como na Bolívia, o processo venezuelano se fundamenta na luta explícita entre a grande maioria da população e as classes dominantes. Diante da proximidade eleitoral estas aproveitam para fazer internamente a campanha contra o governo utilizando todo e qualquer problema surgido para culpar e desgastar a imagem de Chávez. Externamente, esta elite é acompanhada pelos veículos da grande mídia internacional que, em seu apoio, se encarregam de transmitir suas ilusões fabricadas. Aqui no Brasil, aqueles que acompanham a conjuntura venezuelana através dos grandes meios de comunicação, seja virtual, televisiva ou impressa, estão certos de que aquele país está vivendo um caos social gerado por um governo irresponsável, centralizador, manipulador e demagógico: “Mais um problema aprofunda a crise venezuelana” é o que nos traz todas as notícias veiculadas pela imprensa brasileira, ou “A campanha eleitoral está começando num ambiente adverso para o governo…” (FSP, 3/02/2010 – A14); ou ainda, “Com eleições legislativas em setembro, candidatos do governo tendem a ter seu desempenho nas urnas afetados por iniciativas impopulares do presidente.” (VE, 27/01/2010 – A9). De tal maneira que, nós, informados pelos grandes meios de comunicação do Brasil, acumulamos no subconsciente uma série de problemas – muitos dos quais nem nos lembramos mais, pois são tantos e aparecem com a mesma rapidez que desapareceu o último – que demarcariam uma crise na Venezuela expressa na queda de popularidade de Chávez que influirá decisivamente nas eleições parlamentares de setembro.
Portanto, para que não sejamos novamente surpreendidos pela realidade falsificada da nossa mídia, precisaremos, principalmente nesta ano eleitoral, de uma dose extra de esforço e buscar através de outros meios de informação depurar o bombardeio de lixo midiático que sofremos, para assim conseguir, senão compreender totalmente, nos aproximar um pouco mais das verdadeiras causas dos problemas venezuelanos.
Consegui coletar algumas informações sobre três problemas que segundo a imprensa brasileira justificam a crise venezuelana e o desgaste do governo podendo levá-lo a perder a maioria na Assembléia venezuelana
A inflação
A inflação é um problema na Venezuela desde o primeiro governo de Carlos Andrés Perez (1974-1978) quando alcançou pela primeira vez uma variação anual de dois dígitos (em 1974 foi de 11,8%). A partir de então se inicia uma tendência histórica de alta que atinge seu ápice durante o governo de Rafael Caldera ao apresentar em 1997 uma inflação de 103,2%. Portanto, ao contrário da ilusão que tentam criar, a inflação não é uma novidade causada pelo governo centralizador de Chávez. Este na verdade, conseguiu, pela primeira vez desde 1974 reverter de maneira prolongada a tendência de alta: no primeiro ano de governo (1999) a inflação se reduziu a 20% a.a,, e no segundo chegou a 13,7% a.a.. Desde então, não obstante ter passado por um golpe de Estado e um boicote petroleiro que paralisou a economia nacional, o governo Chávez conseguiu manter a inflação venezuelana abaixo dos 25% (2009), com exceção de 2003 e 2004 quando chegou ao seu pico (quase 32%). Em 2009, enquanto meios de comunicação e analistas de toda sorte projetavam um explosão inflacionária o índice ficou em 25,1%, embora muitas notícias insistam em arredondá-lo para 30%.
Isto significa que não existe problema com a inflação? Errado. Afirmar isto seria utilizar o mesmo procedimento que estamos criticando, mas com sentido inverso. O que queremos desmistificar é o terrorismo inflacionário que vem se divulgando sobre aquele país.
Embora tenha conseguido manter um relativo controle sobre a inflação, o governo venezuelano tem buscado reformas estruturais para enfrentá-la: de uma política de substituição de importações de produtos industriais impulsionada pela adoção de um câmbio duplo; e uma política de estimulo à expansão e à produtividade da agricultura nacional. Reconhece, portanto, que o problema existe para além de suas expressões monetárias. Percebe também o interesse especulativo de lojistas e empresários pela inflação e não tem hesitado em desapropriar lojas, supermercados e fábricas, que estejam se alavancando com a inflação venezuelana.
Sugestão de leitura:http://www.aporrea.org/actualidad/a10922.html
A liberdade de imprensaA interrupção, por parte das operadoras (e não do governo!), na transmissão de 6 canais de televisão por assinatura, entre as quais se encontra a RCTVI, se trata tão somente de tratar com seriedade, uma instituição republicana e liberal como é a concessão de direitos de transmissão. A atmosfera terrestre (o nosso ar) é pública e, portanto, as ondas que trafegam nela devem cumprir uma função útil para a sociedade. Para dizer o que é, ou, o que não é útil os representantes eleitos elaboram uma constituição e uma lei específica. O Estado concede a uma entidade privada o direito de utilizar o nosso ar e não cobra nada em troca. Somente obriga a entidade que respeite e siga a lei em vigor. Se não cumpre a lei perde a concessão, é simples. É liberal e republicano. Não tem nada de autoritário nisso e muito menos de socialista. Entretanto, talvez, nas bandas de cá, da periferia do capitalismo, levar a sério as promessas liberais e republicanas seja tão ineditamente radical que alguns confundem com socialismo.
Na Venezuela existe a “Ley de Responsabilidad en Radio e Televisión” (Resorte) cuja fiscalização é responsabilidade da Conatel (Comissión Nacional de Telecomunicaciones). Assim que, de acordo com a Resorte em janeiro de 2009 a Conatel editou um Projeto de “Normas Técnicas Sobre os Serviços de Produção Nacional Audiovisual.”
(http://www.conatel.gob.ve/consulta_publica.asp) que foi submetido a consulta pública desde julho de 2009.  Segundo a lei se a maior parte da programação for produzida na Venezuela, essa produção tem que seguir aquelas normas técnicas. Dos 105 canais por assinatura somente um afirmou que não cumpriria esta lei: exatamente a RCTVI. Prometeu e cumpriu. Ou melhor, descumpriu a lei venezuelana ao não transmitir os discursos oficiais, não difundiu o hino nacional venezuelano, não anunciou o tipo de produção, os elementos de linguagem, saúde, sexo e violência e transmitiu mais de duas horas de telenovela em horario nobre (http://www.vtv.gob.ve/noticias-nacionales/29073).
As operadoras de TV por assinatura ao perceberem as irregularidades retiraram do ar todos os canais que não cumpriam a lei, inclusive a RCTVI. Todos estes canais poderiam retornar à transmissão desde que se adequassem a lei. Foi o que fizeram os canais TV Chile, American Network e Ritmoson, em 26 de janeiro; o Canal Momentun no dia 27; e o canal America TV S.A. em 4 de fevereiro. Ou seja, cinco dos seis canais irregulares já estão aptos e subscritos pela Conatel para voltarem à transmissão. Ou seja, todos menos a RCTVI, que se nega a cumprir a lei do país em que opera e produz seus programas. Como se vê não se trata de nenhum ato abrupto ou autoritário, mas de um processo de democratização dos meios de comunicação iniciado em janeiro de 2009, do qual todos os canais estavam inteiramente cientes.
As mobilizações estudantis em “defesa da democracia” realizadas logo após o fim da transmissão dos canais por assinatura são, na verdade, movimentações da direita estudantil, opositora ao governo Chávez que buscava apenas um pretexto para se colocar em marcha e tentar desestabilizar o governo. Este setor do movimento estudantil está muito bem descrito no documentário “Novas caras, mesmo objetivo” do jornalista David Segarra Soler e se caracterizam pela infiltração estrangeira e pelo uso de violência extrema em suas manifestações.
Sugestões de leitura:http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/65839-NN/violentas-manifestaciones-en-venezuela-dejan-seis-policias-heridos-y-un-estudiante-asesinado/)http://www.psuv.org.ve/?q=node/7440
Crise energéticaA crise energética na Venezuela é resultado da escassez de chuvas que aquele país vem passando que, por sua vez, é um fenômeno climático conhecido como El niño: “O El Niño influencia as condições meteorológicas de todo o mundo, provocando secas na Indonésia, Austrália, Índia e no leste do Brasil, assim como chuvas torrenciais na costa sudeste americana e em partes da América do Sul.”(http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=48507) 
 No Brasil, o fenômeno aparece na forma de seca nos Estados do centro e do centro-oeste e de chuvas no sudeste. Assim vimos as fortes chuvas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro e secas recorde em Brasília e Goiânia(http://www.climatempo.com.br/destaques/tag/el-nino/).
Na Venezuela por sua vez, o fenômeno é responsável pela maior seca em 40 anos, ao menos. Isso significa que desde a década de 1960 não ocorria uma escassez de chuvas tão forte. Ao mesmo tempo, a matriz energética venezuelana desenhada nesta mesma década, se baseava em uma grande central hidrelétrica sustentada pelo reservatório de Guri. A herança deixada ao presidente Chávez era de uma matriz energética que dependia em 80% deste reservatório e 20% de plantas térmicas. Com a forte seca o reservatório cujo mínimo crítico estabelecido são 240 metros, se encontrava aos 257,17 metros em 11 de fevereiro e baixando a uma média de 14cm ao dia. Isto significa que o governo Chávez não tem responsabilidade sobre o problema? Porque nos seus dez anos de governo ele não fez investimentos que assegurassem a segurança energética do país? Esse questionamento é correto e legítimo portanto vamos a eles os investimentos realizados desde 1998 permitiram reduzir a dependência hidrelétrica da Venezuela em 12%. Segundo o presidente da Corporação Elétrica Nacional (Corpoelec), Javier Alvarado, hoje a matriz energética depende em 68% do reservatorio Guri e 32% de termelétricas e a meta é levar a dependência a 50% entre ambas até 2015.
Não obstante todos estes investimentos e a maior seca dos últimos 40 anos, o atual governo continua a ser co-responsável pela crise. Não à toa, o presidente Chávez exonerou o ministro de Minas e Energia, deslocou para a pasta o ministro da Economia, Alí Rodriguez Araque – um dos principais homens do governo, e anunciou um audacioso programa de racionamento energético baseado na modernização de aparelhos elétricos e da iluminação, no combate ao desperdício e na busca pela máxima eficiência da atual planta energética.
Sugestões de leitura:http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/67010-NN/venezuela-es-el-mayor-consumidor-de-energia-en-america-latina/http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/66817-NN/autoridades-venezolanas-aseguran-que-esta-controlada-situacion-energetica/#
E porque te cala?A intenção deste artigo não é defender o governo Chávez, até porque tal tarefa exigiria um esforço muito maior. A real intenção é explicitar os motivos de neste ano a imprensa brasileira estar dando mais atenção aos conflitos daquele país. A principal tática, claramente assumida pelo colunista do Valor Econômico, é lembrar do país vizinho somente quando ocorre algum “conflito”. Assim estes conflitos estariam deteriorando a imagem do governo e resultarão numa vitória oposicionista nas eleições ao fim do ano.
Acontece que nos dez anos de governo Chávez as tranformações em benefício da população foram gigantescas em vários aspectos como saúde, educação, distribuição de renda, consumo entre outros. Basta verificar os índices disponibilizados no sítio do Instituto Nacional de Estatística (www.ine.gov.ve) No entanto, estas conquistas não são divulgadas diuturnamente pela imprensa. Tampouco são divulgados os meios com que se obtiveram. Quando muito, para nossa imprensa isto é um mero detalhe. Aparece como “apesar de inegáveis melhorias sociais” e não como fatores determinantes da imensa popularidade de Chávez. Todavia, foi por causa destas mudanças que Chávez conseguiu sobreviver a um golpe de Estado e um boicote petroleiro, vencer 3 eleições presidenciais (1998, 2000 e 2006), um plebiscito revocatório que buscava retirá-lo da presidência (2004), uma constituinte (1999), uma Emenda constitucional (2008), além de outras consultas populares. Ou seja, nenhum presidente foi mais submetido ao julgamento popular do que Hugo Chávez.
É certo que os desgastes do governo, principalmente com o racionamento de energia, podem afetar sua popularidade, mas de nenhuma maneira encontramos uma conjuntura adversa ao presidente Chávez para as eleições de setembro.
Portanto, a imprensa brasileira deveria rever sua tática manipuladora sob o risco de, mais uma vez, se “surpreender” com a realidade latino-americana e se desgastar perante o público.
 

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