A guerra contra Cuba
Texto: IELA
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Reservas de lítio no chile – Criador: Diego Delso /Direitos autorais: CC-BY-SA 4.0
Em meio às eleições latino-americanas, volto meu olhar para nossas matérias-primas, as chamadas “commodities”. Formada pela leitura de Galeano e vivendo no mundo da divisão internacional do trabalho, onde alguns se especializam em ganhar e outros em perder, sei que é preciso compreender o que temos a perder. Por isso, tendo a olhar para aquilo que é considerado riqueza. No caso da América Latina, poderíamos falar de tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas em recursos minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. Mas aqui falarei apenas do lítio e do Chile, país que acaba de eleger José Antonio Kast, com 58,2% dos votos, prometendo endurecer a luta contra o crime.
Porém, neste momento global de disputa por acesso às matérias-primas estratégicas essenciais às tecnologias contemporâneas, o Chile, pilar central do chamado “Triângulo do Lítio”, junto com Argentina e Bolívia, tem sua política mineral e decisões, incluindo esta eleição, observadas tanto pela China quanto pelos Estados Unidos. Portanto, há muito mais gente de olho em nossas riquezas minerais além de mim. O país concentra 190 milhões de toneladas métricas de reservas de cobre, cerca de 19% do total mundial, e 9,3 milhões de toneladas métricas de reservas de lítio, aproximadamente 31% do suprimento global. Atualmente, responde por 12% da produção mundial de lítio e cerca de 13% do refino, ficando atrás apenas da China, segundo dados da Agência Internacional de Energia (2025). Além disso, desde 2022, o setor de mineração tem sido o maior receptor de investimento estrangeiro direto na economia chilena.
Esse peso do Chile na construção do que conhecemos como “mundo material” contrasta com a fragilidade política da América Latina, presa a um pêndulo que oscila entre uma esquerda domesticada e uma extrema-direita com traços fascistas cada vez mais normalizados, como em outros períodos de crise do capitalismo. O chamado progressismo parece ter esgotado sua capacidade de resposta estrutural, operando mais na gestão da crise e da pobreza, o famoso melhorismo, do que na sua superação. Como observou Fábio Barbosa dos Santos em Uma história da onda progressista sul-americana, a tentativa de aplacar a voragem capitalista buscou sempre o mínimo denominador comum entre globalização e soberania, entre liberalismo e integração da população no plano doméstico. Já no início de 2018, o progressismo se via como “poeira na estrada, decantando lentamente sobre o trilho pelo qual avançava o trem da história”, sendo que, no caso brasileiro, esse esgotamento já se fazia sentir desde 2013. Para onde quer que se olhasse, o chamado “neoliberalismo inclusivo” ia cedendo lugar à espoliação social, e (quase) todos perceberam que o progressismo não traria mudanças profundas, exigindo mais do que boa vontade para que elas pudessem ser construídas.
Esse esgotamento político que se evidencia a cada eleição, me fez lembrar um texto que li recentemente, escrito por Maximiliano Véjares, que traz uma perspectiva interessante sobre as mudanças na política mineral chilena, embora um tanto otimista demais. Por outro lado, viver e ser latino-americana nos coloca, quase como destino, entre a esperança, uma certa dose de otimismo e a poesia, como lembrava o lirismo do também chileno Pablo Neruda.
Véjares observa que, desde a redemocratização nos anos 1990, os governos chilenos passaram a romper gradualmente com a ortodoxia do livre mercado, buscando ampliar o processamento de cobre e lítio com maior valor agregado. Esse movimento incluiu a renegociação dos termos de investimento com empresas estrangeiras, numa tentativa de reposicionar o Chile frente às grandes potências e disputar um lugar mais favorável na ordem mundial multipolar emergente.
O lítio chileno, por sua relevância estratégica, sempre esteve sob forte controle estatal. Pelo Decreto-Lei nº 2.886, de 1979, o Chile reservou o lítio exclusivamente ao Estado, proibindo sua exploração por concessões privadas. Esse marco foi reforçado pela Lei nº 18.097 de 1982 e pelo Código de Mineração de 1983, consolidando o status especial do lítio. A razão original dessa decisão estava ligada ao uso do mineral na geração de energia nuclear, tal como ocorreu no Brasil, onde o lítio também foi tratado como mineral de interesse nuclear até 2022, sob monopólio da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para pesquisa, extração e exportação.
Para Véjares, o presidente Gabriel Boric (2022–2026) apresentou-se especialmente firme ao apostar em um projeto impulsionado pelo Estado, exigindo a participação direta do governo em toda a cadeia de valor do lítio e criando empresas conjuntas desenhadas para capturar maiores rendas associadas aos chamados minerais críticos. Essa inflexão ganhou forma mais concreta em 2023, quando Boric, à frente da coalizão de esquerda Frente Ampla, lançou a Estratégia Nacional do Lítio, sinalizando a intenção de expandir a participação do Estado no desenvolvimento econômico. O objetivo declarado era adensar a cadeia de valor das baterias, estabelecendo produção nacional de componentes de maior valor agregado, como materiais catódicos, ânodos e eletrólitos. A estratégia previa o envolvimento direto do Estado em todo o ciclo produtivo, da exploração e extração à fabricação, tendo como eixo a criação de uma Empresa Nacional do Lítio, responsável por coordenar parcerias estratégicas com empresas privadas. Um dos pilares desse arranjo foi o acordo entre a estatal Codelco (maior mineradora de cobre do mundo) e a SQM (maior produtora privada de lítio do país), garantindo que o Estado detenha 50% mais uma ação na nova entidade produtiva. Paralelamente, Boric promoveu ajustes no sistema de licenciamento para projetos minerais e energéticos, buscando simplificá-lo, medida que segue uma tendência global de tornar esses processos mais ágeis como forma de atrair investimentos.
Os limites desse projeto, no entanto, tornaram-se evidentes quando, em maio de 2025, empresas chinesas abandonaram seus projetos de processamento de lítio no Chile. Essas empresas haviam sido selecionadas pela CORFO (Corporación de Fomento de la Producción) em 2023 como estratégicas para o desenvolvimento de produtos de maior valor agregado, como cátodos e baterias. Entretanto, uma combinação de queda nos preços do lítio, instabilidade do mercado mundial e atrasos burocráticos fez descarrilar ambas as iniciativas antes mesmo da finalização dos contratos.
Com a nova presidência de José Antonio Kast, a retórica sobre o lítio deverá mudar, embora o vice-presidente da Corfo tenha afirmado confiar que o próximo governo dará continuidade à política do lítio iniciada por Boric. A CORFO, agência de desenvolvimento econômico do Chile, hoje novamente mobilizada como instrumento de política industrial, desempenha papel central na coordenação de projetos estratégicos de lítio e outras matérias-primas. Criada em 1939, durante o governo de Pedro Aguirre Cerda, do Partido Radical, no contexto da coalizão da Frente Popular, surgiu como resposta à reconstrução pós-terremoto de Chillán e como eixo da estratégia nacional de industrialização e substituição de importações.
Kast, que assumirá a presidência do Chile em março de 2026, não apresentou modelos explícitos para o lítio como os de Boric, porém, durante os debates, criticou duramente as propostas de nacionalização do cobre e do lítio como “fantasias” que geram incerteza e retrocesso econômico. Seus princípios indicam estímulo ao setor privado, redução de tensões regulatórias e maior atração de investimentos internacionais, diretrizes que, embora em parte já estivessem presentes no governo Boric, assumem aqui outro sentido a partir de 2026. A meu ver, a diferença central entre os dois nesta questão reside no grau de centralização estatal, um tema particularmente relevante em países exportadores e dependentes de matérias-primas estratégicas.
Essa tensão entre liberalismo e controle estratégico revela um dilema persistente: como sustentar um discurso liberal diante de recursos que, por sua natureza geopolítica, exigem algum grau de supervisão estatal. Não é por acaso que o Departamento de Energia dos Estados Unidos adquiriu recentemente participações na Lithium Américas, ou seja, mesmo nos centros do capitalismo, o Estado segue sendo ator central na disputa por minerais considerados críticos.
Entre promessas e recuos, o Chile continua sendo um laboratório político e econômico para pensar os limites da soberania em tempos de reindustrialização. No caso dos países latino-americanos, os minerais estratégicos continuam a funcionar como uma lente para compreender a história, o poder e as disputas globais que se desenrolam sobre nossos recursos estratégicos.
Texto: IELA
Texto: Elaine Tavares
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