A maldição do Terceiro Mundo de ser rico em recursos naturais
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica
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Quando o cubano Ramiro Guerra escreveu o livro que conta como se deu a expansão territorial dos Estados Unidos ele comprovou, com documentos, algo que já experienciávamos no cotidiano: os governantes estadunidenses são como aves de rapina, sempre à espreita para roubar terras e riquezas. Não há qualquer preocupação com o humano, só com a coisa/mercadoria. Povos inteiros podem ser eliminados se isso for necessário para que o país deles abocanhe mais riquezas. Foi assim que forjaram os Estados Unidos e assim ainda se comportam, sempre dispostos a conquistar mais e mais. Nada pode sair de seu controle.
A chegada de Donald Trump ao poder, nesse segundo mandato, é só a continuação da rapinagem que começou em 1776, quando os Estados Unidos tornou-se independente da Inglaterra. Não satisfeitos com o território tomado dos ingleses – que por sua vez tinham tomado dos povos originários – passaram a cobiçar o entorno, buscando aumentar ainda mais o controle sobre as terras. Quant o mais terra, melhor.
E a história dos Estados Unidos passou a ser então, a história de sua expansão. Para garantir mais território todas as armas eram boas. E quando não conseguiam ocupar as terras, ocupavam os corações e mentes dos governantes que, como marionetes, passavam a servir aos interesses do país do norte. Assim foram construindo um império. Uma via de mão dupla: o poder dos EUA e a vassalagem dos governantes.
Hoje, com Trump, os Estados Unidos apenas apertam mais a força do braço que desce o porrete. Quando, em 1998, Hugo Chávez chega ao governo da Venezuela e recupera a consigna da Pátria Grande de Simón Bolívar, outro sinal de alerta se acende na mesa dos dirigentes estadunidenses. Já não era mais o comunismo, que acreditavam incrustrado em Cuba, o perigo. Era o bolivarianismo que, por ter uma pegada mais localista, parecia mais fadado a ser aceito. Começa aí mais ataque contra a América Latina. Nos anos 1960 e 1970 tinham controlado a ameaça comunista representada por Cuba com golpes de estado, marcando um tempo em que o controle era feito pelos tanques e pelos exércitos. Abriram enormes feridas no continente ainda hoje sangrando. Mas, acreditavam que tudo estava sob a ordem.
Por isso, quando Chávez assoma com suas bandeiras bolivarianas e socialistas, os Estados Unidos voltam a fincar as garras sobre a América Latina, na disputa de projeto outra vez. Tentaram um golpe na Venezuela em 2002. Perderam. Não conseguiram extirpar o câncer que representava Chávez. Então, começaram a comer pelas beiradas. Ocuparam o Haiti em 2004, sob o disfarce das tropas de paz da ONU. E, depois, foram usando outras formas de controle, sem exército, com o foi o golpe parlamentar em Honduras, em 2009, no Paraguai, em 2012, no Brasil, em 2016, na Bolívia, em 2019. Também começaram a fortalecer os partidos de direita e de extrema-direita nos países onde o progressismo ainda vingava como na Argentina e no Uruguai. As novas tecnologias com seus algoritmos teleguiados foram moldando as cabeças e o sonho bolivariano foi minguando.
Agora, Donald Trump busca vencer as resistências que ainda se expressam. Foi cirúrgico na Venezuela, finalmente eliminando Nicolas Maduro do cenário, promovendo seu sequestro e colocando o país sob o controle dos EUA outra vez. Pouco a pouco vai desconstruindo a generosa proposta bolivariana, com Delcy Rodrigues atuando na linha de “melhorar a vida” aproveitando as maravilhas do capitalismo.
O mesmo plano parece estar se desenhando para Cuba. Esta ilha tem sido uma imensa pedra no sapato e vem resistindo há mais de 60 anos. Sem conseguir vencê-la militarmente ou ideologicamente, agora Trump usa o recurso criminoso do bloqueio total. A ilha já vinha sofrendo as mais duras sansões, sem poder negociar com os países, mas atualmente, com o bloqueio marítimo, tudo ficou pior. Nem mesmo o petróleo está chegando, fazendo com que a vida da população fique em risco. Falta energia para o andamento da vida normal, o lixo se acumula causando doenças, remédios não chegam, hospitais ficam sem condições de atender a população. Um drama humano chocante. Não fosse a ajuda da Rússia e da China tudo estaria pior. Esta semana mais um golpe. O governo decidiu demandar judicialmente Raul Castro, um dos líderes da revolução de 1954. Acusações tão esdrúxulas e falsas como as contra Maduro. Tudo para justificar um possível sequestro à moda de Maduro. E o mundo quieto.
A maneira de agir do governo dos Estados Unidos tem sido a mesma desde quando começou a roubar as terras do México. Mentiras, mentiras e mentiras, que servem para preparar no campo da comunicação, as ações de ataque. Assim que o que assistimos neste momento do tempo, é uma espécie de eterno retorno do modus operandi. Incutir o ódio de sua gente ao que escolhe como inimigo, fomentar e financiar protestos e rebeliões nos países que quer tomar, criar fatos que apareçam como provas de suas desconfianças, e gerar mentiras pela mídia de massa. Feito esse plantio, eles vem e colhem. Seja com exército ou com a parceria de seus aliados internos.
Assim, ao longo dos tempos, os Estados Unidos têm derrubado governos e destruído populações, unicamente para garantir o engordamento das contas de sua elite dirigente. Para o povo americano passam a ilusão de que estão defendendo o interesse de todos, mas não é verdade. Apenas uma pequena fatia enche os bolsos. Ainda assim, conseguem passar a ideia de que vale a pena mandar seus jovens à guerra contra seus iguais – porque também trabalhadores. E lá vão os garotos estadunidenses morrer em terras estranhas para que o pequeno grupo da Wall Street siga dominando o mundo.
Nessa quadra histórica nos tocou Donald Trump. Mas, já conhecemos seus métodos. Sabemos de toda a história pregressa desta nação que comanda. Por isso seguimos de pé, lutando, como já fizeram as gerações passadas. Temos tido alguns intervalos de vitórias, o que significa que o poder dos EUA não é total nem é para sempre. Assim que não podemos confiar “nem um tantinho assim” nas mentiras que a mídia e as redes sociais nos contam. Hoje, Trump pede a cabeça de Raul, acusando-o de crimes contra cidadão estadunidenses. Jamais! Nunca mesmo! Criminoso aqui é Donald Trump, co-responsável pelo genocídio na Palestina e pela dor causada ao povo cubano, impedido de viver em paz.
Vivemos um tempo em que não há mais nem a sombra de um suposto “direito internacional”. É simplesmente o vale-tudo que os próprios EUA nos ensinaram na sua indústria do cinema, através dos filmes de “mocinho”, que, na verdade, eram filmes de “bandidos”. Tal e qual agora. Não há leis e ninguém poderá nos salvar. Resta agirmos como Chapolin Colorado, o herói mexicano. “Temos medo, mas lutamos”. Eles têm a águia. Nós temos o condor.
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica
Texto: IELA
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Texto: Ana Esther Ceceña Observatório Latino-Americano de Geopolítica
Texto: Bruno Lima Rocha - jornalista