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Extrema-direita avança na América Latina

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Por Elaine Tavares em 25 de junho de 2026

Extrema-direita avança na América Latina

Desde as independências das colônias espanholas e portuguesa que a América Latina tem sido alvo das ações imperialistas dos Estados Unidos. Tão logo o governo dos EUA percebeu que as potências europeias perdiam poder na região foram afiando as garras para tomar para si todo o espaço geográfico recém-liberto. Simón Bolívar talvez tenha sido o único a não se enganar com as intenções estadunidenses, tanto que não quis a presença de seus governantes no Congresso Anfictiônico do Panamá. Já suspeitava que ali houvesse um inimigo a combater. Mas, morto Bolívar e com a balcanização da América espanhola, o que se viu foi os Estados Unidos estendendo seus tentáculos. Alguns espaços foram literalmente roubados, como foi o caso de quase metade do México, outros foram sendo incorporados à sua órbita através de vários mecanismos.

Assim, desde o início do século XIX o que hoje conhecemos como América Latina foi palco de um sem número de intervenções. Bastava surgir qualquer movimento mais à esquerda, com propostas de autonomia e soberania e lá vinha os Estados Unidos com suas artimanhas. As táticas quase sempre as mesmas, como se pode aclarar pelo luminoso livro de Ramiro Guerra, “A expansão territorial dos Estados Unidos”: incitação popular através de falsos movimentos, ação de agentes estadunidenses dentro dos países fomentando rebeliões em nome de uma suposta democracia, investimento em grupos “amigos” dos EUA, ajuda financeira leonina através de organismos bancários gerando dívidas impagáveis, etc… Quando tudo isso falhava também era possível a intervenção militar direta. Tudo isso para manter a região sob completo controle.

Ao longo dos tempos os Estados Unidos foram cultivando também as elites locais, garantindo que elas sempre estivessem em cooperação. Assim, os povos tinham de enfrentar os ataques imperialistas desde fora, com a completa cumplicidade dos dirigentes locais.

Já no século XX a estratégia dos EUA foi a de fortalecer estas elites locais impedindo qualquer rugosidade e, pelo menos até quase a metade do século os países seguiam a cartilha estadunidense com poucas saídas para os trabalhadores e povos originários. As revoluções guatemalteca em 1944 e a boliviana de 1952 acenderam novo alerta para os imperialistas que começaram a perceber uma américa profunda em movimento. Em 1959 a revolução cubana, já com clara opção socialista, foi a gota d´água para que ações mais contundentes fossem implementadas. Impedir que o restante do continente seguisse o exemplo de Cuba era palavra de ordem.

E foi assim que nas décadas de 1960, 70 e 80 as ditaduras imperaram por todo o território. Não sem luta. A Nicarágua e El Salvador, na América Central, chegaram a constituir importantes espaços de resistência, até que foram sendo vencidas por novas táticas. A era das ditaduras foi se esgotando, mas os Estados Unidos não largaram o osso. Passaram a dominar os países recém-saídos dos regimes militares a partir da economia e da cultura. As propostas liberais ganhavam novos contornos e surgiam com novos nomes, como foi o caso do neoliberalismo, apontado como saída para o subdesenvolvimento e dependência da América Latina. Um novo conto da carochinha, sob as sempre cúmplices elites locais foi se consolidando e os novos governos que surgiam pós-ditaduras apareciam alinhados a essas invencionices, prometendo mundos e fundos. Mais uma vez a esquerda perdia espaço no imaginário popular.

O Brasil é um bom exemplo. O primeiro governo eleito em voto direto pós-ditadura foi o de Fernando Collor, um político novato, atlético, que se apresentava como seguidor de uma nova política, recusava qualquer proposta “antiga” e prometia vida boa para todos. Pouco tempo depois o país percebia que não havia novidade alguma, só as mesmas velhas raposas destroçando o galinheiro. E assim foi sucedendo em toda américa baixa. Os Estados Unidos seguiam influindo e financiando essa nova onda neoliberal prometendo liberdade e democracia sem fim.

Foi só no final dos anos 1990 que outra onde surgiu: a do bolivarianismo, comandada por Hugo Chávez, da Venezuela. Ele trazia de volta o sonho de Bolívar, de uma América Latina unida e soberana. A proposta ganhou força e foi se espalhando pelo continente. Os Estados Unidos atacaram com a ideia de um “livre comércio”, a ALCA, que foi vencida pela “aliança bolivariana”, a ALBA. Parecia que finalmente a América Latina entenderia a proposta de Bolívar. Mas, tudo não passou de uma pequena rugosidade no tempo-espaço dominado pelos EUA. Os governos que foram vencendo eleições nos países, todos marcadamente progressistas, não conseguiram sair deste trilho estreito. O período progressista por fim não conseguiu atender a demanda dos povos. Posturas neoliberais misturadas com socialdemocracia, sem transformações estruturais, só serviram para confundir e fraudar as esperanças.

Já no século XXI, com o advento das novas tecnologias os Estados Unidos encontraram novas formas de garantir a dominação. As redes passaram a cumprir um papel decisivo na conformação das mentes. E, assim, os países da América Latina foram voltando, um a um ao velho domínio. O poder dos algoritmos – aliado à tibieza dos governos progressistas – começou a gestar um eleitorado sedento por mudanças. E mudar passou a ser palavra de ordem, mesmo que fosse para pior. Assim, o processo iniciado pelos Estados Unidos em 2002, com a tentativa de golpe na Venezuela, foi ganhando força. Em 2004 derrubaram o Haiti. Em 2009, foi a vez de Honduras. Em 2012 o Paraguai, em 2016 o Brasil. As pedras progressistas foram caindo e a extrema-direita passou a assumir o comando, com Donald Trump aparecendo como mais um “novo modelo”. Mais do mesmo, “by the way”.

A novidade nesse caminho extremista de direita é que as mudanças agora vêm, “democraticamente” pela mão do povo. Há uma “direita popular” como diz Gilberto Vasconcellos, em ascensão. Foi assim no Brasil, com Bolsonaro, em El Salvador, com Bukele, na Argentina, com Milei. Mesmo com os candidatos anunciando a destruição do público, a entrega do país e o abandono aos trabalhadores, as massas votaram neles alegremente. Ser “amigo” dos Estados Unidos e “amigos” de Trump virou caminho para a vitória. Pouco importa que Trump seja um criminoso sanguinário, capaz de ordenar um genocídio e incendiar países. A maldade passou a ser virtude.

Mas, como já alertava Rubem Alves, há que se ter cuidado com as decisões do “povo”. Afinal, hoje, como se sabe, as possibilidades de manipulação mental estão muito mais avançadas do que as que dominaram o século passado. Não é sem razão que a comunicação mundial esteja sob o domínio de três ou quatro grandes donos, todos eles aliados do terror estadunidense. É fato que as pessoas não são tábulas rasas, mas não se pode negar o poder absurdo das redes sociais e a capacidade que têm de manipular as pessoas. As novas tecnologias também são poderosas na capacidade de manipular dados. Como as plataformas eleitorais dos países se configuram a partir destas tecnologias, geralmente sob o domínio dos EUA, não é loucura pensar que os votos podem ser manejados ao seu comando.

As últimas eleições no Peru e na Colômbia, nas quais os candidatos de esquerda, que apareciam como favoritos, perderam por pequena margem de votos estão, por exemplo, sob suspeita. O candidato Roberto Sánchez não reconhece os resultados que deram vitória à filha do ditador Fujimori. “Não houve transparência”, denuncia. Já Ivan Cepeda, candidato de centro-esquerda na Colômbia, aceitou a estranha derrota, dizendo respeitar a democracia.

Mas, de que democracia se está falando aqui? De uma que realiza eleições sazonais sem transparência? E com a opinião pública manipulada pelas redes? E com a intromissão descarada do presidente do país imperialista que quer controlar o mundo? E com a ação decisiva do capital?

O fato é que a América do Sul está de novo totalmente ajoelhada diante dos Estados Unidos. Governos de caráter totalitário são eleitos pelo voto, sem milicos e sem intervenção direta. Uma distopia assustadora. Basta ver como a massa gritava, feliz e histérica, diante do discurso absurdo de Milei, na sua posse, dizendo que ia privatizar os hospitais. Cenas surreais. Por agora, apenas o Brasil navega por águas de um liberalismo socialdemocrata. Sabe-se lá o que vai passar nas eleições de outubro.

Na América Central resistem ao domínio estadunidense apenas Cuba (completamente acossada) e Nicarágua. Os demais estão rendidos. É o fundo do poço outra vez.
O que dá esperança é que o fundo do poço também pode significar um impulso de subida. O controle das mentes pelos conglomerados internéticos já começa a ser questionado. E a materialidade da vida das pessoas igualmente pode cobrar mudanças. A resistência, que nunca morre, acende suas fogueirinhas. E, como a história nos mostra, podem, de inopino, gerar um grande fogaréu.

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