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Martín Almada e sua luta contra o terror

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Por IELA em 15 de janeiro de 2015

Martín Almada e sua luta contra o terror

Martín Almada e sua luta contra o terror
Por Elaine Tavares  – jornalista
 
01/12/2008 – No Paraguai – que viveu uma longa ditadura nas mãos do general Alfredo Stroessner e depois passou por uma transição igualmente demorada – apenas agora a vida começa a desvendar os segredos das catacumbas da dor. Um dos filhos desta terra que tem sido incansável nesta luta de desvelamento dos crimes da ditadura e dos governos que se seguiram é o advogado Martín Almada, ele mesmo uma das vítimas deste processo. Nascido no ano de 1937, em Puerto Sastre, região do Chaco, ele é referência mundial na luta pelos Direitos Humanos, tendo recebido, em 2002, o prêmio Nobel da Paz Alternativo, oferecido pelo parlamento sueco. Foi Martin Almada quem encontrou os documentos da malfadada Operação Condor, ditada pelos Estados Unidos e responsável pela morte de milhares de pessoas em toda a América Latina durante as ditaduras.
 
O trabalho infatigável de Martin já rendeu alguns frutos muito concretos. O primeiro deles é a criação do Museu da Memória: Ditadura e Direitos Humanos, que funciona numa casa chamada pelas vítimas da tortura de “A Técnica”, e que era considerado o lugar mais sinistro da América Latina. Na verdade, o local, que tinha o nome de Direção Nacional de Assuntos Técnicos escondia a sede da Liga Anticomunista do Paraguai e era ali que os presos eram barbaramente torturados.
 
Hoje a casa da calle Chile 1072 guarda a memória daqueles dias, fotos, recortes de jornal e principalmente os arquivos secretos da polícia política de Stroessner, descobertos em 1992 por Martin Almada. Este achado levou o advogado paraguaio a iniciar sua cruzada contra o ditador e todos os seus cúmplices que, infelizmente, naqueles dias encontravam abrigo seguro no Brasil. Todos os passos desta longa caminhada que ainda não terminou, pois, como diz Almada, “o condor segue voando”, estão documentados no Museu, porque as gentes do Paraguai e do mundo precisam saber, para nunca mais esquecer. Os arquivos do terror descobertos no Paraguai foram apenas a ponta do monumental operativo montado em toda a América Latina e mostraram que tudo aquilo que era negado se fazia verdade, comprovada.
 
O museu também mostra os passos dados pelas organizações de luta dos direitos humanos no Paraguai que deram origem a criação da Comissão de Verdade e Justiça, em 2003, no Congresso da Nação, que exigia a punição de todos os envolvidos no processo de tortura, desaparecimento e morte dos militantes sociais do país.
 
Os documentos encontrados no Paraguai deixam bem clara a ligação das polícias de todos os países da América Latina com o centro nevrálgico da operação que ficava nos Estados Unidos. Mostram ainda a participação do Brasil neste operativo e é por isso que o movimento dos direitos humanos, tanto do Paraguai como do mundo inteiro, quer ver os arquivos abertos por aqui também. Fernando Henrique não quis assumir este compromisso e, agora, tampouco o presidente Lula. Não bastasse isso, no Brasil, antigos torturadores ocupam altos cargos, protegidos pela lei da anistia que eximiu de culpa todos os que participaram do processo, com o objetivo de colocar um fim no debate sobre a ditadura. Só que quem foi torturado ou perdeu pessoas queridas durante os anos de chumbo não pode e nem quer esquecer. “Ocultar a memória é crime maior”, insiste Martin Almada que promete ir até o fim na busca dos arquivos em cada país de Nuestra América.
 
Uma parte do material que está no museu do Paraguai pode ser visto no trabalho realizado pela Fundação Celestina Pérez de Almada “Operativo Cóndor: pacto criminal en el Cono Sur”.
 
A retomada dos imóveis mal havidos
 
Para além da recuperação da memória dos crimes da ditadura de Alfredo Stroessner, Martin Almada agora está numa nova cruzada. Recuperar todos os imóveis do ex-ditador para que sejam transformados em lugares públicos, com atividades que vão desde a educação até centros de arte. Antes disso, junto a Associação Latino-Americana de Juristas, Almada já havia feito uma investigação sobre os bens mal havidos da ditadura que haviam sido enviados para o exterior e que somavam mais de cinco bilhões de dólares. Apesar de terem os nomes dos bancos e as quantias, nunca conseguiram fazer com que o estado recuperasse esse dinheiro.
 
Agora, com o governo de Fernando Lugo espera-se que algo seja feito e, por conta disso, Almada tem feito também um levantamento de cada imóvel, não só do ditador, mas de todos os que se aproveitaram do poder para amealhar bens. Depois, munido apenas de sua férrea vontade de desvelar a verdade, ele chega ao local e realiza o que chama de “ocupação das propriedades” quando então toma posse do imóvel. Foi assim que fez na mansão do ex-ditador que é conhecida como “o palacete” e fica próximo a Usina de Itaipu.
 
Quando Martin chegou ao local havia um guarda e, acompanhado de um fotógrafo, ele apresentou-se como advogado dizendo que tinha vindo tomar posse da casa. Sem compreender muito bem e acreditando no poder da carteira de advogado que Almada apresentou, o caseiro abriu a porta. Martin passeou pelo interior da casa e percebeu que por ali estavam carros da polícia, veículos de hoje, mostrando que o imóvel ainda servia para o abrigo do poder. Assim, singelamente, a mansão foi tombada e agora a proposta é fazer ali uma Universidade da Energia, que possa servir a todo Mercosul.
 
Uma outra ocupação, na cidade de Assunção, é a mansão construída por Stroessner como se fora uma mini Casa Branca. Esta será destinada a criação da Universidade Popular dos Direitos Humanos que levará o nome de Celestina Pérez Almada, a primeira esposa de Martín, morta pela ditadura. Resta ao Congresso realizar os trâmites de expropriação para que a universidade possa ser inaugurada ainda este ano. Almada quer que o Paraguai comece a formar gente verdadeiramente comprometida com a vida do povo do Paraguai. 
 
Veja o vídeo no qual Martín Almada fala sobre as ocupações e sobre o papel da universidade

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