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Meio século de militarização do combate às drogas: como a estratégia dos EUA alimenta a violência no México

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Por Jorge Luis Sierra - jornalista e editor mexicano-estadunidense em 03 de agosto de 2026

Meio século de militarização do combate às drogas: como a estratégia dos EUA alimenta a violência no México

Foto: La Jornada

Uma estratégia militarizada é reativa, punitiva e ineficaz a longo prazo.

Da presidência de Richard Nixon — que declarou a guerra às drogas em 1971 — à de Donald Trump — que classificou os cartéis de drogas como organizações terroristas —, passou-se mais de meio século de militarização contínua. Essa abordagem está longe de ser bem-sucedida e assemelha-se muito ao que os próprios especialistas militares dos EUA consideram uma contra-insurgência fracassada.

Essa guerra, travada por mais de cinco décadas, mobilizou forças militares e recursos significativos na esperança de acabar com o tráfico de drogas por meio da violência. Sob o pretexto da guerra às drogas e utilizando uma retórica da era da Guerra Fria, os Estados Unidos invadiram Granada em 1983 e o Panamá em 1989. Estabeleceram bases operacionais avançadas no Equador, em El Salvador, em Honduras, no Peru, em Porto Rico e na Colômbia, bem como em Aruba e Curaçao, no Caribe. Mais tarde, lançaram o Plano Colômbia. O resultado não foi uma redução no consumo de drogas nos EUA, mas sim um aumento drástico da violência em toda a América Latina.

Trump não parece ter assimilado as lições da história. Citando mais uma vez um pretexto antidrogas, a atual administração dos EUA está concentrando forças navais perto da Venezuela e da Colômbia — países cujos governos não estão alinhados com Donald Trump. Já sabemos que parte da estratégia envolve bombardear pequenas embarcações que, segundo o Pentágono, transportavam drogas para os Estados Unidos. Agora, uma frota especializada em combate costeiro chegou ao Golfo do México para apoiar as operações antinarcóticos do Comando Norte ao longo da fronteira sul com o México. Além disso, a administração continua falando em lançar ataques com mísseis contra bases do tráfico de drogas em território mexicano.

Tudo isso acontece enquanto o consumo de drogas nos Estados Unidos permanece historicamente inalterado, migrando, porém, para substâncias como o fentanil — que são muito mais nocivas do que drogas tradicionais como maconha, ópio e cocaína. Estudos militares têm apontado consistentemente que essa estratégia é falha. Um documento recente da Universidade de Defesa Nacional — *A Framework for Countering Organized Crime: Strategy, Planning, and the Lessons of Irregular Warfare* (Uma Estrutura para Combater o Crime Organizado: Estratégia, Planejamento e as Lições da Guerra Irregular), de autoria de David H. Ucko e Thomas A. Marks — oferece *insights* fundamentais sobre por que a política antidrogas dos EUA permanece presa a um ciclo de reação, militarização e falta de resultados.

Segundo os autores, a estratégia militarizada concentra-se nos sintomas, deixando intactas as causas profundas; ela cria um “efeito hidra”, no qual a decapitação de um cartel leva à proliferação de grupos criminosos cada vez mais agressivos. A militarização provoca um deslocamento geográfico do crime, em vez de sua redução, fomentando uma ilusão de sucesso baseada em métricas como apreensões, prisões e mortes de criminosos, tudo isso sem alterar a dinâmica estratégica das organizações criminosas.

Convencidos de sua abordagem, os Estados Unidos pressionam o México — assim como o fazem há 50 anos — para replicar esse modelo militarizado. O estudo de Ucko e Marks conclui que a estratégia que sustenta esse modelo é reativa, punitiva e ineficaz a longo prazo. O legado da administração de Felipe Calderón e de sua versão mexicana da guerra às drogas demonstrou que, quando o México segue esse modelo, a pressão militar e as respostas violentas dos cartéis provocam o deslocamento forçado da população; os homicídios e desaparecimentos disparam; e as instituições — incluindo as forças armadas — são enfraquecidas pela corrupção interna, pela erosão do moral, pelo uso excessivo da força e pela propensão a violações dos direitos humanos.

A estratégia defendida pelos Estados Unidos — e que o país pressiona o México a adotar — obteve sucesso ao garantir a extradição de grandes traficantes de drogas. No entanto, também deixou um rastro de violência, rápida rotatividade de lideranças nas organizações criminosas, constante adaptação do crime e o desenvolvimento de capacidades cada vez mais sofisticadas para enfrentar as forças armadas e a Guarda Nacional. Embora a classificação dos cartéis como grupos terroristas pelos EUA seja amplamente retórica e política, as organizações criminosas mexicanas têm utilizado o terror contra comunidades altamente vulneráveis. Vimos isso em Pantelhó, Chiapas, onde grupos criminosos explodem pontes para cortar o acesso a comunidades que resistem, e na Sierra Tarahumara, onde um cartel local utilizou drones para destruir casas de moradores com explosivos, forçando-os a fugir e assumindo o controle de suas áreas de garimpo de ouro.
Ucko e Marks alertam que, enquanto os Estados Unidos considerarem o narcotráfico um problema técnico-militar em vez de um conflito irregular profundamente político, continuarão a implementar políticas que exacerbam a violência, fortalecem os cartéis e corroem a legitimidade do governo.

A cegueira e a ignorância histórica de Trump e de seus assessores civis e militares sugerem que esta administração insistirá na militarização, independentemente do risco de que os cartéis de drogas — atualmente em evolução — possam migrar do terrorismo tático para o estratégico, levando o México a níveis de violência sem precedentes e imprevisíveis.

Os autores insistem na necessidade urgente de substituir a militarização por uma política diferente — uma que permita aos países envolvidos no conflito romper com a dependência da força militar, abordar as causas profundas, sociais, econômicas e políticas da violência, manter uma estrutura de governança civil e legitimidade e adotar uma estratégia capaz de enfrentar o narcotráfico como um fenômeno transnacional que exige todo o espectro do poder nacional, e não apenas a força militar.

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Publicado originalmente em Other News

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