Bolívia vai às urnas no domingo

18 de Outubro de 2020, por Elaine Tavares


A fábrica de mentiras atuou forte na Bolívia quando no ano passado abriu-se uma campanha midiática dizendo que as eleições que deram vitória a Evo Morales haviam sido fraudadas. A campanha mentirosa, é claro, partiu dos Estados Unidos visando apoiar a desestabilização do país para que voltassem as forças reacionárias de sempre. Evo sucumbiu aos ataques e renunciou. Logo em seguida precisou fugir do país, bem como seu vice, García Linera, pois os militares assumiram o comando fazendo a tradicional “caça às bruxas”. Cenas lamentáveis de sequestro, agressão, violência e morte se seguiram, visando calar todas as forças ligadas ao presidente exilado. Foi escolhida uma mulher do baixo-clero político para assumir a presidência, que seria temporária, com as eleições sendo chamadas em seguida. Mas, só que não.  

A presidente golpista, Jeanine Áñez, adiou as eleições várias vezes até que a população foi obrigada a romper com os esquemas de segurança necessários por conta da pandemia e sair às ruas para exigir que as promessas se cumprissem. E foi a luta dos trabalhadores da cidade, dos camponeses e dos indígenas, fechando estradas e realizando massivos protestos, que fez com que as eleições finalmente fossem marcadas. A intenção dos golpistas era ir arrastando o golpe até quando viesse o esquecimento. Mas, alto lá. Era a Bolívia e ali, rebelião é pão comido.  

Todas as artimanhas foram usadas para evitar que o grupo articulado junto ao partido de Evo Morales mantivesse as candidaturas. Mas, a luta garantiu a dobradinha Luis Arce e David Choquehuanca. Ao longo do processo, a mentira primeira, aquela de que as eleições haviam sido fraudadas, foi desmentida até mesmo pelos olheiros da ONU. Mas a mentira é coisa dura. Uma vez dita, permanece mal/dita. Os desmentidos não tem a mesma força.  

Ainda assim a dupla do Movimento ao Socialismo é a que lidera as pesquisas. A direita se mexe. A própria presidente golpista retirou a candidatura para garantir mais força aos candidatos do golpe. Carlos Mesa, ex vice e ex presidente, aliado da oligarquia e ao que há de mais atrasado no país está em segundo lugar na corrida. E o fundamentalista religioso e racista (não é um paradoxo, é a regra), Luis Camacho, o segue de perto.  

As pesquisas estão dando 42% para o MAS, o que pode levar Luis Arce à presidência já no primeiro turno, mas muitas cartas ainda podem ser colocadas na mesa até domingo. O golpismo não vai entregar fácil o país depois de todo o trabalho que teve. Os Estados Unidos estão atuando fortemente e será preciso muita vigilância popular para impedir as fraudes que certamente se apresentarão.  

A Bolívia segue seu caminho na batalha contra a dependência e o subdesenvolvimento. Teve um hiato no governo de Evo Morales que pelo menos nacionalizou setores importantes da economia, embora não conseguisse avançar no sentido de garantir mais soberania. É uma difícil e recorrente queda de braço contra o atraso, a miséria e o saque. Espera-se que a população em luta, a mesma que garantiu as eleições, possa escolher bem e levar a Bolívia para um caminho de libertação. Não é algo que se consiga apenas com a eleição de Arce, mas, com ela, pode avançar.  

Que domingo seja um dia de alegria para os povos da América Latina.