Camponeses são julgados pelo massacre de Curuguaty

28 de Julho de 2015, por Elaine Tavares


O Paraguai está acompanhando essa semana o julgamento dos camponeses acusados do chamado massacre de Curuguaty, acontecido no dia 15 de junho de 2012, e que acabou sendo o estopim do golpe legislativo que destituiu o presidente constitucional Fernando Lugo. 

O episódio aconteceu durante um despejo de famílias que viviam na ocupação Marina Kue, na região de Curuguaty, zona rural, em luta pela reforma agrária. Naquele dia, os camponeses enfrentaram um aparato policial de exageradas proporções – 300 homens, helicóptero, armas pesadas - e com tamanha violência  que a desocupação acabou com 17 mortos: 11 agricultores e seis policiais. 

Paradoxalmente, a gritaria que se seguiu ao massacre na mídia paraguaia e nos espaços políticos, não se deveu ao absurdo de uma força policial enfrentar com suprema violência uma pequena comunidade rural. O ódio voltou-se contra o presidente, o qual acusavam de promover a resistência camponesa, visto que estava em curso uma grande discussão sobre a reforma agrária no país. É bom que se diga que o Paraguai detém a maior concentração de terra do mundo. Apenas 2,6%  dos proprietários detém 85% de toda a terra cultivável. E Fernando Lugo estava disposto a discutir o tema da concentração, construindo um processo de reforma agrária. Pois foi por conta disso, que 21 dias depois, o presidente Lugo era destituído, sem direito á defesa, num golpe de novo perfil, aplicado pelo parlamento.

Dado o golpe, era necessário também aplicar mão de ferro no campo das lutas pela terra. Sendo assim, em vez de responsabilizar a polícia pelo massacre provocado em Curuguaty, a justiça decidiu punir os agricultores que fizeram a resistência. Treze deles foram presos sem que houvesse qualquer prova de participação nas mortes. Segundo a Coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguai (Codehupy), as armas encontradas com os camponeses eram de caça e, conforme atestam os laudos técnicos, elas não foram disparadas durante o conflito. Também é preciso considerar que os policiais mortos levavam tiros certeiros na cabeça ou foram atingidos por balas que puderam furar os coletes de proteção. Tanto a pontaria como as balas com essa característica não estavam no lado dos agricultores. 

A história sobre o golpe no Paraguai ainda está sendo escrita e muitas são as brechas que apontam para uma articulação entre os interesses estadunidenses na região e a oligarquia local que não estava satisfeita com os rumos dados pelo presidente Lugo ao debate sobre a terra. 
O fato é que se os agricultores acusados do massacre forem condenados, essa será mais uma página vergonhosa da história latino-americana, na qual as vítimas são responsabilizadas pela ação do estado. O massacre de Curuguaty  teve como responsável o comandante da Polícia Nacional Paraguaia, Paulino Rojas, que autorizou a desocupação naquelas condições, mas esse senhor segue sua vida, sendo inclusive homenageado pela “boa ação” que implementou.

Matar camponeses em luta pela terra é uma realidade ancestral na América Latina. Ainda assim, a batalha por Reforma Agrária segue, porque os trabalhadores sem-terra sabem que as conquistas só chegam com luta. 

No Paraguai, ainda que a ocupação Marina Kue tenha sido dizimada e mergulhada em sangue, a resistência camponesa segue em vários focos de ocupação. Amargando a vida nas estradas ou em terra alheia, os trabalhadores sabem que não tem nada a perder.