Citycancer

9 de Junho de 2022, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

marcelo Guimarães - Foto extraída do filme Capitalismo Sujeira Socialismo Limpo
marcelo Guimarães - Foto extraída do filme Capitalismo Sujeira Socialismo Limpo

Em A Cultura das Cidades, o livro de Lewis Mumford publicado em 1938, surgem as mesmas observações feitas por Marcelo Guimarães acerca do significado social e econômico da mina de carvão e de seu complemento tecnológico: a máquina a vapor.

À altura mais ou menos de 1800, a máquina a vapor inaugurou uma nova fase do desenvolvimento histórico, denominada por Mumford  de “paleotécnico”, ou seja, a economia do carvão e do ferro, complexo esse (ferrovia, navegação a vapor, aparelhos de fiação e tecelagem) que vai até 1890. O Manifesto Comunista de Marx e Engels foi publicado em 1848.

Até 1800 vingou o período eotécnico, com o emprego disperso do vento, a fabricação de vidros e as indústrias têxteis, indo do século X ao XVIII, movido pela fonte energética da biomassa. Depois veio a aglomeração da cidade paleotécnica com o carvão mineral, o binômio fábrica-cortiço, o advento da ferrovia em 1830. Mumford observou que por aí que desaparecem os quintais das residências.

À dispersão “eotécnica” da Idade Média seguiu a energia concentrada das minas carboníferas nas aglomerações urbanas. É o início do gigantismo das metrópoles com as fábricas de tecidos, os grandes portos, enfim, o processo da mineração universalizado pela ferrovia. É o início da cidade industrial com a mecanização carbonífera regida por um ritmo descontinuo: “as minas, via de regra, passam rapidamente da riqueza à exaustão, da exaustão ao abandono, dentro de, no máximo, umas poucas gerações”.

A pequena oficina desaparecia porque a máquina a vapor de Watt funciona melhor em grandes unidades fabris concentradas e próximas ao centro produtor de energia, conforme se verifica com as fábricas inglesas em Manchester a partir de 1820. Foi esse tipo de fábrica movida pelo carvão mineral que engendrou o mercado mundial, concomitantemente ao congestionamento urbano e ao aumento populacional, junto com a transformação dos rios em esgoto aberto.

O capitalismo carbonífero da manufatura industrial iniciou a depredação ecológica: “envenenamento da vida aquática, destruição de alimentos, emporcamento da água, que passava assim a ser imprópria para banhos”. Aglomeração de indústrias situadas perto dos rios seguiram as linhas ferroviárias, as casas dos trabalhadores foram construídas junto às fábricas, eis o retrato da cidade industrial criada pelo consórcio da energia do carvão mineral e da tecnologia da máquina a vapor, cuja conseqüência foi a centralização burocrática e administrativa. Marcelo Guimarães usava a seguinte metáfora: da mina de carvão mineral nasceu a luta de classes entre capitalistas e operários.

O cotejo com o Brasil do século XIV ao XX se impõe porque aqui a vivência eotécnica perdurou durante muito tempo. Esse foi o substrato da cultura popular no meio rural. A industrialização foi tardia, advinda durante o surto cafeeiro no início do século XX. A formação da cultura popular brasileira foi feita com biomassa: água, lenha e mula como tração animal. Essa base eotécnica foi identificada com atraso rural, mas a industrialização limitou o progresso para pouca gente.

As megalópoles brasileiras são povoadas de imensos exércitos industriais de reserva e populações marginalizadas. É isso a anomalia da concentração urbana sem reforma agrária, ou seja, o câncer econômico e cultural.

O colonialismo inglês obstaculizou entre nós a produção de manufatura, convencendo-nos de que nosso destino era a produção de gêneros agrícolas tropicais por causa de uma fatalidade geográfica: a pobreza do nosso subsolo em carvão mineral.