A Colômbia, os EUA e a guerra às drogas

23 de Setembro de 2021, por Elaine Tavares

Colômbia recebe dois aviões dos EUA
Colômbia recebe dois aviões dos EUA

Nesta semana o Comando Aéreo de Transporte Militar (CATAM), o embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, Philip S. Goldberg, e o comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, Almirante Faller Craig, participaram de mais uma pantomima na América Latina dentro do que denominam “guerra às drogas”, entregando duas aeronaves Hércules C-130 ao governo colombiano.

Conforme o ministro da Defesa da Colômbia, Diego Molano, os aviões têm uma capacidade de carga de 16 toneladas e podem transportar até 110 homens. “Servirão para fortalecer transporte de tropa, a segurança nacional, o controle do narcotráfico e poderão ainda ser usados no controle de incêndios”, afirmou, sublinhando a importância da amizade entre Colômbia e Estados Unidos.

Ora, qualquer pessoa com um mínimo de inteligência deveria questionar a eficácia dos Estados Unidos nesse tal combate às drogas, visto que estão com mais de sete bases militares dentro do país. Isto porque além das bases físicas, os EUA controlam também uma infinidade de radares por todo o país e principalmente nas fronteiras com Venezuela, Equador e Panamá, todos manejados diretamente do território estadunidense. Essa informação foi levantada pelo professor Renán Vega, da Universidade Pedagógica Nacional de Bogotá. Sendo assim, um território tão densamente vigiado e militarizado, como é possível que a Colômbia seja ainda o maior produtor e exportador de cocaína, sendo o responsável por 75% da produção? Não seria isso a prova da completa ineficácia dos Estados Unidos na tal “guerra às drogas”? O que fazem na Colômbia centenas de militares estadunidenses, de pelotões especiais realizando operações sigilosas? Como é possível ter tanta gente capacitada e tecnologia de ponta e ainda assim ser fragorosamente derrotado no combate aos traficantes? 

Isso nos leva a outro questionamento. Se tudo isso não tem qualquer consequência na diminuição do narcotráfico, provavelmente toda essa gente “especializada” e todo esse aparato bélico colocado em ação para o combate às drogas não estão sendo usados para isso. É cristalino como água.

Então, porque o governo da Colômbia e o dos Estados Unidos insistem nessa mentira deslavada? O presidente Ivan Duque declarou há pouco tempo que, desde que chegou ao governo em 2018, já extraditou cerca de 300 narcotraficantes aos Estados Unidos. Pois se é assim, por que o narcotráfico não cessa? Ao que parece, o número dos traficantes que são presos é bem menor dos que chegam nessa rotatividade exacerbada de “soldados” estadunidenses que vão e vêm, sem ter inclusive que se submeter às leis do país. Também vale lembrar que mesmo estando na lista do governo estadunidense como narcotraficante, Álvaro Uribe foi presidente da Colômbia, é atualmente senador da república e um dos homens mais influentes do país. Jamais foi tocado pelos “combatentes” do tráfico.

Enquanto isso, o país segue sendo o que mais mata militantes populares e sociais em toda a América Latina, sendo que, agora, depois do acordo de paz que levou parte da guerrilha a depor as armas, quase 300 ex-guerrilheiros já foram assassinados cirurgicamente, além dos frequentes assassinatos de lideranças sindicais, populares e indígenas e dezenas de massacres em comunidades de todo o país. Não bastasse toda essa lógica da morte por encomenda, os focos de violência contra a população fazem com que milhares de famílias tenham de se deslocar frequentemente pelo território, numa migração sem fim. Só no primeiro trimestre de 2021 foram quase 30 mil pessoas saindo de suas aldeias, povoados e cidades, fugindo dos narcotraficantes e dos paramilitares. 

Como pode então, um pequeno país, totalmente coberto por bases militares, cercado por radares e com um exército de 500 mil homens (somando todas as forças), não erradicar o narcotráfico e não garantir a proteção de sua gente? 

A resposta é clara. As bases estadunidenses e o exército colombiano não estão ali para combater o narcotráfico. Elas servem unicamente para garantir aos Estados Unidos o controle sobre os territórios e os espaços onde estão as riquezas minerais e vegetais, além de vigiar os países “inimigos”, como a Venezuela. Também estão ali para combater os grupos que lutam pela libertação nacional e os militantes sociais que batalham por um país seguro para viver. A guerra não é contra o narcotráfico, mas contra os colombianos que lutam contra esse estado terrorista e militarizado até os dentes.

Sendo assim, os Estados Unidos, apesar de aparecerem ao mundo como uma águia destemida e selvagem, têm sido sistematicamente derrotados na Colômbia: não conseguem acabar com o narcotráfico e tampouco com a fome de liberdade da população. Ainda que, claro, vençam naquilo que é seu objetivo: abocanhar as riquezas. Pois se a Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo, os Estados Unidos, segundo estudos do CEPAD (Centro de Estudos e Pesquisa sobre Álcool e outras Drogas/UFES)  é o maior consumidor, com mais de quatro milhões de usuários, sendo o Brasil o segundo, com dois milhões. 

Ou seja, tudo é business, ainda que seja preciso matar milhões e desalojar outros tantos.