Danilo encantou

3 de Janeiro de 2022, por Elaine Tavares


O ano de 2022 já disse a que veio. Nas primeiras horas já nos devastou. O Danilo se foi no raiar do dia. Nunca mais sua carinha de passarinho, seu riso de mofa, seus textos impressos e seus comentários ao estilo Fidel - nada menos do que duas horas. Para falar de qualquer coisa tinha que ir até os planctons. No Iela era professor. Chegava logo depois do almoço e ficava até umas 10 da noite, sempre rodeado de estudantes. Na cozinha, na biblioteca, no sofá, dando suas aulas magnas. Ajudava a organizar as Jornadas Bolivarianas, era o primeiro a chegar, ouvia todas as  conferências e era o primeiro a intervir. Um crítico contumaz. Um faro de águia. Um leitor voraz. Um mestre. 

Poderiamos dizer que o levou um câncer, um tumor que descobriu agorinha no final de 2021, que que lhe havia quebrado a costela, provocando uma dor tremenda. Mas, ele era um homem familiarizado com a dor. Desde quando, menino, foi para um internato, aprender a se virar sozinho. E depois, na luta armada, quando preso e torturado, exposto às mais duras violências. Ele sempre contava que quando saiu da cadeia, pesando 40 quilos e desmaiando na rua a toda hora, pensava que estava destinado a morrer cedo. Mas, teimoso, ele superou cada chaga, cada dor e se colocou  no caminho da revolução. Fora derrotado na ditadura, mas não se entregaria fácil. Voltou ao trabalho, entrou para o sindicato, nunca descansou de lutar. 

Apesar disso, ao longo da vida teve que conviver com todas as sequelas da tortura, enfrentando intermináveios consultas médicas, filas na farmácia, exames e tudo mais, tendo os rins esmigalhados e o pulmão em pedaços. Ainda assim viveu intensos 80 anos.  Batalhou pelo seu direito à anistia, mas foi sacaneado pelos seus próprios companheiros que assumiram a comissão da verdade no governo petista. Sua história era a história de um incansável homem em busca de justiça. O Danilo era um valente, mesmo derrotado e derrotado, voltava à carga. 

Durante a pandemia nos falávamos amiúde, ele sempre com uma afiada análise de conjuntura. Até que começou a dor. Exames pra cá e prá lá, descobriu o tumor. Então decidiu voltar ao Rio de Janeiro onde tinha parentes. Preparou-se para partir. Foi no cartório, transferiu sua vida ao sobrinho, deixou tudo arrumadinho. Um dia antes de sua viajem agora em dezembro, fui me despedir. Levei comigo um Saci Pererê. 

- Danilo, seu que tu és ateu, mas no Saci tu acredita, né? Ele vai contigo pra brincar e te proteger - 

 Ele riu aquele seu risinho doce, que era um misto de descrença e de gratidão. Mas agarrou o Saci de pano e o abraçou. O Rubens levou várias fotos dele nas Jornadas, para que ele sempre se lembrasse do quanto era importante pra nós. 

Sentado na poltrona, feito um buda, ainda arriscou uma análise da realidade latino-americana e nos apontou o Glauco: "esse é um cara honesto". O outro era sempre mais importante que ele mesmo. Não era possível uma conversa fiada com o Danilo. Sempre era necessário entender o mundo. Na despedida nos abraçamos. Ele chorou. Eu engoli as lágrimas.

- Jazinho tu volta, Danilo. 

Pois ele não voltou, o danado marrentinho. Esperou a aurora do primeiro dia de 2022 para fazer a viagem. Nos deixou órfãos. 

Lembro que quando inventamos de fazer o Dia do Saci, aqui em Florianópolis, ele dizia: isso não adianta, nega, é muito pontual. Mas, quando chegava o dia, lá estava ele, com o barretinho vermelho na cabeça, acompanhando nossas loucuras. Impossível esquecer as mobilizações pelo transporte quando a juventude se encontrava na frente do terminal gritando: "quem não pula, quer tarifa" e, lá no meio deles, assomava a cabecinha branca dele, pulando um pulinho pequeno, mas decidido. 

O Danilo era a história viva caminhando com a gente. Parceiro, amigo, presente, em todas as lutas. Deixa um legado extraordinário, pois toda a gurizada que foi tocada por ele jamais o esquecerá. Revolucionário raiz, brasileiro de honor.  Quando a nós, vamos honrá-lo mantendo viva a luta. E, lá no Iela, com certeza ele estará eternizado: nosso decano, nosso mestre maior. 

Seja bem-vindo na casa da beleza, Danilo. Obrigada por tudo... te lembrarei sempre assim, firme na luta, mas capaz das mais doces ternuras.