De papagaio, Plano Real e a ponte para o futuro do passado colonial

6 de Outubro de 2021, por Carlos Walter Porto-Gonçalves


O papagaio, segundo especialistas, é considerado uma ave inteligente, assim como os corvos, e são, até mesmo, capazes de imitar sons, mas não de falar, o que já implicaria estruturas mais complexas só possíveis a outros animais. Há um papagaio que anda por esse Brasil afora 
inaugurando suas lojas com estátuas da Liberdade com mais de 40 metros e,  pouco  se  diz,  estátuas  essas  erigidas  sobre  imitações  da  Casa  Branca, símbolo  do  poder  estadunidense,  a  quem  deve  obediência,  diga-se  de passagem, voluntária. E o faz de verde e amarelo talvez recuperando, sem o saber, o significado de brasileiro lá do período colonial, a saber, o nome 
que se dava em Portugal ao português que voltava rico por explorar o Brasil. 

Era  brasileiro  tal  e  como  o  mineiro  que  vive  de  explorar  as  minas  ou  o madeireiro que vive  de explorar a madeira. Aliás, não é comum adjetivos pátrios que derivam  em  eiro, sendo  brasileiro, como se vê, um caso raro. 

Há  de  se  perguntar  aos  bons  linguistas  porque  nossas  elites  optaram  por esse adjetivo pátrio e não por brasiliano ou brasilense que também  estão dicionarizados.  Será  que,  assim,  como  brasileiro,  não  se  esconde  sua verdadeira face de quem vive de explorar o Brasil? É, no mínimo, creio, uma boa hipótese de pesquisa. 

Recentemente  passou  a  circular  na  imprensa  a  informação  sobre  a festa  que  se  tornou  grandes  exportadores  brasileiros  terem  mais  tempo para especular com os dólares mantendo-os no exterior. Enfim, os exportadores de matérias primas elaboradas para exportação com 
tecnologias  de  ponta,  prática  que,  diga-se  de  passagem,  cada  vez  mais fazemos repetindo o que fazemos há 500 anos, usam os recursos naturais e humanos do nosso território, com toda a logística nele implantada, para obter dólares com que especulam no exterior em grande parte em paraísos fiscais.  Enfim,  o  Brasil  é  um  bom  negócio,  um  território  ocupado  sem 
intervenção externa face a colonialidade que continua a dominar a mentalidade e as práticas de nossas elites, apesar do fim do colonialismo.   

Como  informa  o  portal  do  Grupo  Havan,  o  grupo  foi  fundado  em 1993, um ano antes do Plano Real. Em 1994,  o setor industrial era responsável por 24% do nosso PIB. Graças aos governos que, desde então, se sucederam o PIB derivado do setor industrial caiu para 10%, ou seja, ficou reduzido  percentualmente  a  40%  do  que  era  em  1994  e,  desde  então,  o agro que é tech passou também a ser (o agro é) tudo. Em suma, caminhamos em direção à ponte para o futuro do passado, mais uma vez com latifúndios monocultores de exportação usando tecnologias de ponta 
como eram os engenhos de açúcar no século XVI. Já naquela época o agro era tech e os engenhos eram a tecnologia de ponta (up to date). 

Como não podia deixar de ser, com tantas medidas  para facilitar as exportações de matérias primas agrícolas e minerais, como a Lei Kandir (lei complementar  nº  87 de  13  de  setembro  de  1996),  o  Brasil  se  tornou  uma verdadeira plataforma de exportação-importação, o que muito contribuiu para  a  queda  do  setor  industrial  na  composição  de  nosso  PIB,  ensejando que  surgissem  grupos  como  o  Havan  que  vivem  de  importar  produtos industrializados num país onde “exportar é o que importa”.  

Como  papagaio  imita  sons,  mas  não  fala,  isso  implica  dizer  que reproduz a cabeça alheia e, por isso, sai por aí brandindo a liberdade contra a ditadura comunista chinesa de onde continua sendo grande importador para suas mais de 120 lojas em mais de 20 estados brasileiros. E tudo isso em verde amarelo em defesa da (sua) ordem e (de seu) progresso recobrindo a Cada Branca com a estátua da Liberdade. Ah, e com o dinheiro em contas bancárias no exterior, inclusive em paraíso fiscal. Afinal, o dólar é  que  importa,  aliás  não  se  importa,  pois,  cada  dia  mais  se  mantém  mais tempo fora do país pois se transformando em real, logo logo se desvalorizaria  e  sua  desvalorização  frente  ao  dólar  é  uma  das  chaves  do desenvolvimento  do  subdesenvolvimento,  conforme  a  preciosa  tese  de André  Gunder  Frank.  Quem  foi  que  disse  que  o  subdesenvolvimento  (a dependência)  não  se  desenvolve?  Enfim,  conforme o poeta “o Brazil  não merece o Brasil” (Aldir Blanc). Reinventemo-lo, pois.