Do negacionismo da Ciência e do negacionismo na Ciência

9 de Setembro de 2021, por Carlos Walter Porto-Gonçalves


Desde que a pandemia do Coronavírus tomou conta do mundo que um debate polarizado vem se dando entre os que negam a Ciência e aqueles que falam em nome dela. E não se trata de um debate em torno de uma questão qualquer, mas sim de um debate que se trava em nome de um fundamento da sociedade moderna, cujo regime de verdade (Foucault) se faz em torno da Ciência. Como nos ensina o filósofo Umberto Eco, fundamento é aquela ideia que funda, fundamental e, como tal, parece escapar à reflexão haja vista ser uma verdade em si mesma. Daí, para os fundamentalismos estamos a um passo.

Não se veja nesse argumento uma negação da Ciência, mas sim a afirmação do lugar que a Ciência passa a ocupar na chamada sociedade moderna. Sabemos, por exemplo, como esse estatuto de um regime de verdade superior atribuído à Ciência serviu para que se praticasse um verdadeiro epistemicídio contra outros modos de conhecimento, outras matrizes de racionalidade, com que a humanidade, na sua diversidade, havia elaborado ao longo de toda a aventura humana pelo planeta. Afinal, não há vida sem conhecimento já nos havia alertado Humberto Maturana e Francisco Varela, biólogos-filósofos chilenos de reconhecimentomundial.

E, mais, que o conhecimento não está apartado da vida em sua plenitude, bastando considerar que ninguém vive sem se alimentar e, para fazê-lo, há que se saber pescar, há que se saber coletar, há que se saber caçar, há que se saber plantar, há que se saber cuidar dos animais (pastorear). Ninguém come sem sabores, sem saberes. Nenhum grupo social vive sem desenvolver modos de curar-se: saberes médicos. Nenhum grupo social vive sem elaboraralguma forma de se proteger das intempéries com saberes materializados em suas habitações, enfim, saberes em arquiteturas várias. Por todo lado, falamos de saberes: saber se alimentar,saber curar-se, saber habitar além das múltiplas formas de convivência consideradas por cada qual formas de bem-viver e, mais, de bem com-viver, me permitam o neologismo.

O colonialismo promoveu a devastação tanto da vida biológica – ecocídio – como cultural –
genocídio cultural – e, pouco se diz, epistêmico – epistemicídio. Tudo isso seria passado não
tivesse a colonialidade sobrevivido ao fim do colonialismo e, deste modo, continuou-se a 
praticar mais do mesmo desde então até os nossos dias.

Coube a Francis Bacon (1561-1626) a primazia no uso desse fundamento da modernidade ao cunhar a expressão “dominação da natureza” que se daria através da tecnociência, conceito que também elaborou e que distinguia da ciência que, para ele, estaria preocupada com a verdade, enquanto a tecnociência estaria preocupada com a eficiência (na dominação da natureza). Francis Bacon foi mais adiante ainda dizendo que seria necessária uma “filosofia masculina” para que se desse a “dominação da natureza” e, desse modo, deu ensejo a uma ciência da dominação (masculina?) e não uma ciência de cuidado com a natureza.

Observe-se que a linguagem do poder comanda a narrativa – dominação - que, contemporaneamente, aparece como combate às pragas, combate aos insetos com seus 
praguicidas e inseticidas (necrociência?), os agrotóxicos, eufemisticamente chamados de 
agroquímicos. Como se vê, a guerra se estende ao discurso. Pouca atenção se dá ao fato de a 
tecnociência ao se referir à eficácia, e seu conceito-irmão eficiência, numa sociedade em que a 
riqueza é assimilada a um equivalente geral abstrato matemático, o dinheiro, como motivo 
condutor (leit motif) das práticas sociais, acaba por ensejar uma tensão no metabolismo da vida 
ao submeter a natureza a ditames sem limites do equivalente geral abstrato matemático ($$$) [1].
 
Desde finais do século XVIII, a princípio na Inglaterra, uma revolução tecnológica haverá de 
proporcionar as condições para uma verdadeira revolução metabólica com a máquina a vapor
movida a fóssil que permitirá que o capital deixe de ganhar seus lucros somente na 
circulação/comercialização e se inscreva no “circuito metabólico da produção” com a fábrica. 
Agora o predicado por Francis Bacon pode ser amplamente praticado a partir de James Watt.
Considere-se que desde que Francis Bacon formulou suas teses no bojo do que se 
convencionou chamar Renascimento é o momento em que o Ocidente está se inventando como 
tal e, para isso, foi buscar na Grécia e Roma antigas seus fundamentos, entre eles o Direito 
Romano que se tornará a base do direito liberal com seu conceito-chave de propriedade privada 
que, instaurada, contribui para configurar sociedades de classes entre proprietários privados e 
privados de propriedade.

É esse sujeito proprietário, quase sempre varão, que efetuará a “dominação da natureza” e exigirá eficácia/eficiência da tecnociência que se arrogará a prerrogativa de colonizar o mundo privando os povos não-brancos na América, na África e na Ásia do acesso às suas próprias condições de reprodução da vida com as quais desenvolveram saberes e culturas. Afinal, seriam povos sem história, da natureza, dizia-se. Enfim, colonialidade do saber e do poder!

Nada disso implica negar a Ciência. A Ciência aí está e não é só uma forma de produção 
de conhecimento, que é, mas é a Ciência da “dominação da natureza” com tudo que essa 
expressão e as práticas sociais que a acompanham, trazem. Uma Ciência que separou o Homem 
e a Natureza, as Ciências Humanas das Ciências Naturais, no mesmo processo que fez Homens 
proprietários privados e homens privados de propriedade que, como tais, não podem “dominar
a natureza” e são tratados como força de trabalho e mão (e não mente) de obra.

Em nome de criar sociedade destruiu-se por todo lado comunidades e outras formas societárias não fundadas no indivíduo-cidadão. O princípio da “lógica identitário conjuntista” (Castoriadis) reduz a complexidade do mundo à unidade indivisível da matéria, seja na biologia (molécula), na física (átomo) e nas ciências sociais (indivíduo) o que acaba por se tornar um verdadeiro “obstáculo cognitivo” [2] (Raquel Gutierrez): nada fora da redução de tudo à unidade indivisível da matéria.

Todas essas reflexões são necessárias justo quando essa geocultura (I. Wallerstein)
moderna se impôs colonizando/civilizando/desenvolvendo/subdesenvolvendo o mundo,
promovendo uma intervenção metabólica de tal magnitude que, hoje, se impõe a ideia de que 
estaremos num novo período geológico chamado de Antropoceno e/ou Capitaloceno [3]
indicando que o ser humano, na sua fase histórica capitalista, teria se tornado um agente geológico e que estaríamos diante de um colapso ecológico (Luiz Marques) de que as mudanças climáticas e seus efeitos catastróficos, cada vez mais frequentes e extremados, assim como as pandemias 
sucessivas e, também, cada vez mais frequentessão a expressão, paradoxalmente, da afirmação 
desse modo civilizatório que se construiu com o capitalismo e a modernidade colonial.

O epidemiologista Jaime Breith é taxativo: “Pensar a pandemia a partir de uma lógica de uma 
causalidade nos mantém numa cilada. Se me aproximo a esta problemática de forma reducionista, a pandemia vai ser um vírus, vacinas, medicamentos, prevenção etiológica individual, contágio. E isso é apenas a ponta do iceberg, apenas uma parte dos efeitos observáveis de um processo muito mais complexo. O primeiro grande vínculo que temos que estabelecer é entre a pandemia e o sistemaagroalimentar do capitalismo em sua versão 4.0. por seus impactos ecológicos, sanitários e sociais. No coração da pandemia está o sistema agroalimentar do capitalismo. E há que dizer, então, que não há agricultura a secas, nem sistema agroalimentar a secas, senão que sobre essas categorias há uma disputa profunda de sentidos, de implicações e de práticas que devemos discutir e por em diálogo urgente com a saúde” (En el corazon de la pandemia esta el sistema agroalimentario. Agenciatierraviva.com.ar).

Não são poucos os cientistas que vêm chamando a atenção para essa relação que está 
nas duas pontas da pandemia do Coronavírus, a saber: a montante, desde a produção de 
zoonoses, doenças que passam de animais a humanos, que aumenta com destruição de 
ecossistemas com o avanço desse modo de produção de alimentos e suas monoculturas até, a 
jusante, a mortalidade dos que, nas cidades, são acometidos de comorbidades, enfim, doenças 
que os predispõem ao Coronavírus, entre as quais são predominantes a hipertensão, a diabete 
e a obesidade, três doenças que têm relação direta com o regime alimentar corporativo. De fato, 
“o Agro é tudo”, de jusante a montante, a pandemia o demonstra.

Enfim, estamos submetidos a um falso debate entre negacionistas da Ciência e 
negacionistas na Ciência. E, tudo, indica que não se trata de um debate desinteressado, haja 
vista os lucros extraordinários das corporações farmacêuticas e de equipamentos de saúde que 
se nutrem da situação extraordinária de uma pandemia. Afinal, invocar a ciência em nome de 
uma verdade é ignorar que a dúvida, já o disseram pensadores tão diferentes como Descartes 
(“dúvida metódica”) e Marx (“duvide de tudo”), é que conduz o conhecimento científico. E, pelo 
visto, a ciência não é um mundo separado do mundo mundano como se quer.

O cientista é um ser humano sociohistoricamente condicionado como qualquer ser humano cuja formação subjetiva é atravessada pelas relações de gênero, étnico-raciais e de classe, tenhamos disso consciência ou não (Freud). Enfim, há outras maneiras de entender a pandemia que a reduzir a “medicamentos, prevenção etiológica individual, contágio”, como nos alertou o epidemiologista 
Jaime Breith [4].

Não está em discussão, aqui, se devemos ou não tomar vacinas e nos protegermos com medidas não farmacológicas, mas sim se estamos condenados a voltar à normalidade que nos conduziu a essa necessidade sem que enfrentemos a questão de fundo.

Notas

1 - Afinal, ser eficaz é “a virtude ou poder de (uma causa) produzir determinado efeito ou a segurança de um bom resultado; a validez, atividade, infalibilidade e, ainda, poder de persuasão”. Já a eficiência seria “o poder, a capacidade de ser efetivo/efetividade; ou a virtude ou característica de (alguém ou algo) ser competente, produtivo, de conseguir o melhor rendimento com o mínimo de erros e/ou dispêndios” (Dicionário Online de Português - https://www.dicio.com.br). Numa sociedade capitalista que transforma tudo em mercadoria, na sua dupla dimensão material-simbólica (valor de uso/valor de troca), a dominação da natureza com a tecnociência (dimensão material) submete o metabolismo de reprodução da vida a um tempo de trabalho socialmente necessário (dimensão simbólica) que entra em contradição com o tempo naturalmente necessário de reprodução. James O’Connors (1930-2017) chamou essa contradição como a “segunda contradição do capitalismo”.

2-  A autora não pode ser responsabilizada pela apropriação que faço dessa expressão que, por ela, fora usada para se referir ao estado como um “obstáculo cognitivo” que nos impediria de ver a política a partir de outras perspectivas.

3- Chamo a atenção que esses dois conceitos de Antropoceno e de Capitaloceno não devam ser antagonizados, mas sim vistos complementarmente. Associados esses conceitos nos obrigam a ver os diferentes tempos implicados na atual fratura metabólica, a saber o tempo ancestral da aventura humana no planeta (Antropoceno) e o tempo histórico da Modernidade Colonial e sua revolução industrial (Capitaloceno). Afinal, foi a partir dali, com James Watt, que Francis Bacon se tornou uma realidade prática e a “dominação da natureza” potencializada nos conduziria à crise 
climática e às pandemias sucessivas.
 
4 - Breith, Jaime. 2021. Critical Epidemiology and The People´s Health, Oxford University, United Kingdom (UK)