A Estátua de Pushkin nas Ruas de Moscou nos Anos 1930

30 de Setembro de 2020, por Carlos Walter Porto-Gonçalves


Por um desses acasos da vida tive a fortuna de ser vizinho de Otavio Brandão (1896-1980), alagoano de Viçosa, que se dizia Caeté por sua inquietude intelectual e política. Quando o conheci, em 1976, ele já se encontrava fora da militância política a que dedicara toda sua vida. Em 1916, Otávio Brandão fundara, junto com outros companheiros, a Confederação pela Libertação da Terra e do Homem, em Viçosa e, em 1922, o Partido Comunista, em Niterói, quando já morava no Rio de Janeiro. Sobre a fundação do PC, Otavio Brandão me confidenciara uma curiosidade: o 25 de março de 1922, data oficial da fundação do PC, é a data que ele chamava data de fundação histórica que ele diferenciava da data de fundação cronológica (qual?) em que, junto com outros companheiros, fundaram o Partido Comunista como “única maneira de implantar o anarquismo no Brasil”. Só depois é que soubera que anarquismo e comunismo não seriam a mesma coisa e, por isso, refundaram o PC em 25 de março, agora sim, data histórica e não cronológica. Otávio é uma figura ímpar que o Brasil bem merecia conhecer melhor. Ele, formado em História Natural no Recife, foi o primeiro brasileiro a descobrir que havia petróleo no Brasil. E fora desqualificado pelas elites de Alagoas com um argumento típico do que Nelson Rodrigues, mais tarde, chamaria de espírito de cachorro vira-lata: “se no Brasil não tem petróleo, logo em Alagoas é que vai ter?”. Assim, me contara o alagoano com espírito caeté, Otavio Brandão.

As histórias de Brandão são importantes para o conhecimento das esquerdas brasileiras. Já em 1926 publicara o que é a primeira interpretação da nossa história que se reivindica marxista-leninista, com seu livro Agrarismo e Industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil. Em 1928, como membro do BOC – Bloco Operário Camponês – se elegera vereador no Rio de Janeiro, junto com Minervino de Oliveira, marmorista de Magé que, em 1930, haveria de ser o primeiro candidato operário à presidência da República. E a proposta do BOC era de uma aliança de classe operário-camponesa que visava uma reforma agrária através de uma revolução burguesa que acabaria com “o latifúndio e o feudalismo no Brasil”. Em respeito à memória histórica da luta dos trabalhadores brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva, não é o primeiro candidato operário a Presidente da República, mas sim Minervino de Oliveira.

Otávio se encontrava preso por sua militância política quando da revolução de 1930 que levaria Getúlio Vargas ao poder. Contou-me ele que a anistia aos presos políticos do governo Washington Luiz não o alcançara e que “foi o único preso político que permaneceu preso após a revolução de 1930” e que seria extraditado. Contou-me Brandão que bem que tentou negociar que sua extradição fosse para algum país da América Latina. Não foi bem-sucedido. Tentou, ainda, negociar que fosse para a Alemanha, segundo ele, “para que pudesse estudar Marx e Engels diretamente em alemão”. Também não foi bem-sucedido. Acabou indo parar na União Soviética não sei por quais caminhos. Lá viveu entre 1930 e 1945, no auge do estalinismo. Aliás, O. Brandão nutria simpatias pelo grande líder Josef Stalin e nas conversas que tínhamos onde eu questionava várias facetas do estalinismo, ao final de sua vida, em nossas conversas, me concedera: “Stalin fora grande nos erros e nas virtudes”, dissera.

E dessas conversas é que pude desfrutar de uma revelação de Otavio que, talvez, nos dê uma pista de como o povo de Moscou vivera essa quadra histórica sob o comando de Stalin. Contou-me Brandão que, por volta de 1935, corria nas ruas da capital soviética uma piada sobre uma grande festa popular para homenagear Alexander Pushkin (1799-1837), considerado o maior poeta romântico russo. Segundo Brandão contando o que ouvira, a Praça Vermelha se apinhava de gente em torno de uma grande estátua coberta. Chegada a hora da cerimônia de homenagem, A Internacional foi cantada por todos os presentes e a estátua começou a ser descerrada. Logo no início, pode-se ver uma cabeleira com entradas agudas; logo em seguida, à medida que baixava o pano, as grossas sobrancelhas; logo abaixo o nariz e o bigode característicos de Josef Stalin. Feito o suspense, eis que aparece logo em seguida, entre os braços de Stalin, um livro de Pushkin. Justa homenagem!

O que me chama a atenção nessa anedota é, justamente, o fato de ser uma anedota que, como soe acontecer, costuma ser um bom indicativo do imaginário popular. O povo russo, quase sempre de fora dos debates entre estalinistas e anti-estalinistas, talvez aqui se apresente com toda a sutileza do inconsciente coletivo.

Todas as histórias aqui reunidas não são resultado de nenhuma pesquisa historiográfica, mas simplesmente fruto de um diálogo de dois amigos de gerações diferentes. Devo muito de minhas convicções a esse amigo, sobretudo por seu espírito Caeté que, pela inteligência de uma outra alagoana, a Professora Luitgarde Cavalcanti, me fez refinar minhas simpatias por esse Brasil com mais de 305 etnias/povos/nacionalidades indígenas, com suas mais de 274 línguas. E, mais, essa ideia se reforçava ainda com as lembranças do que Brandão não se cansava de dizer que, quando de suas responsabilidades diante do jornal A Classe Operária, se impunha a presença de correspondentes regionais do jornal “nos canaviais do NE, nos cacauais da Bahia, nos seringais da Amazônia” para que o partido tivesse uma visão da diversidade do desenvolvimento desigual e combinado da formação social do capitalismo no Brasil. Para quem, como eu, tinha uma formação em Geografia não deixava de ser um presente.

Numa época, como a nossa, em que os nacionalismos, à direita e à esquerda, voltam à balia talvez seja um bom momento de recuperarmos esse espírito Caeté e estarmos atentos ao colonialismo interno que costuma se esconder diante dos inimigos de fora para, reproduzir internamente, a colonialidade do saber e do poder. Afinal, até quando o chamado estado-nação poderá continuar a ignorar a diversidade de povos/etnias/nacionalidades que o habitam? Enfim, como o estado-nação volta à baila diante de um globalitarismo (Milton Santos) que não só aumentou a concentração de riqueza a níveis jamais vistos na história como, ainda, coloca em risco própria humanidade com o colapso ambiental que o acompanha, está na hora de reinventarmos o estado como plurinacional, como sugerem os ventos que vêm do mundo andino.