Jorge Amado e o futebol

27 de Fevereiro de 2019, por Nilso Ouriques


A literatura de Jorge Leal Amado de Faria, nascido em 10 de agosto de 1912, deve a sua grandiosidade a este senhor de voz calma e intensa, de chapeú de palha e olhar charmoso. Jorge Amado publicou trabalhos em quase todo mundo, é um dos autores brasileiros mais traduzidos de todos os tempos e fez parte da intelectualidade brasileira comunista. Seu apego aos pobres e despossuídos está presente em cada página de seus livros. Viveu intensamente seus sonhos com o partido comunista, mas em 1995 retirou-se de seus quadros, fazendo criticas amargas a história do partido.
 
Jorge escreveu 49 livros, sendo seus textos ligados ao cinema, teatro e a televisão, e também já foi tema de escolas de samba por todo país. Seus livros foram traduzidos  em mais de 80 países e 49 idiomas. Seu estilo, ou seja, o romance ficcional, foi reconhecido em 1994 com o prêmio Camões. As obras como “Dona flor e seus dois maridos”, “Tenda dos milagres”, “Tieta do  Agreste”, “Gabriela Cravo e Canela” e “Tereza Batista cansada de guerra”, dão por si só uma visão do tamanho de sua sensibilidade e inteligência. 
 
Filho de coronel, João Amado de Faria, e Elália Leal, ele nunca passou por dificuldades financeiras. Aos 14 anos começou sua vida literária como um dos fundadores da “Academia dos Rebeldes”, responsável pela renovação da literatura baiana. Foi para o Rio de Janeiro estudar Direito quando a capital do país era o centro dos debates intelectuais e das artes. Foi lá que teve contato com o PCB, pelo qual foi eleito deputado federal em 1946. Sua obra é imensa e marcada pelo folclore, política e pelas crenças, assim como pela sensibilidade e sensualidade do povo brasileiro. Viveu muitos anos no exílio, na Argentina e no Uruguai (1941-1942), Paris (1948-1950), Praga(1951-1952) e depois na URSS.                                         
 
Em 1958 publicou “Gabriela Cravo e Canela”, que em seu próprio título justifica a temática dos costumes e dos tipos populares na vida dos coronéis e das mulheres sensuais. Já em 1966 ataca com “Dona flor e seus dois maridos” crônica dos costumes da vida baiana, recheada de humor e de verdades históricas. Dona Flor foi um sucesso exuberante. E Amado, mesmo sendo marxista e materialista, une-se de corpo e alma à umbanda e ao candomblé. 
 
Em 1984 Jorge Amado foi brincar com as idéias e com uma de suas paixões que pouca gente conhece, o futebol, escrevendo um livro belíssimo do ponto de vista emocional: “A bola e o goleiro”, uma obra de literatura infantil. As ideias do texto são subjetivas e afiadas, falam sobre as nossas emoções: alegria, tristeza, medo, raiva, desgosto e surpresa. Os seis combustíveis humanos que estão presentes, todos eles, num jogo de futebol e que mudam o nosso humor de maneira rápida e nada racional. Do gol à tragédia, como na Copa do Mundo de 1950, no Brasil.
 
Jorge Amado amava o futebol e, por isso, sentia um prazer imenso em estar dentro de um campo, diante da disputa e dos gritos do povo. Jorge era tão apegado a sua raiz social, ou seja, aos pobres de todas as ordens e desordens, que só torceu por clubes pobres, operários. Jamais torceria pelo Fluminense, de raiz oligárquica, Assim, de maneira reta e distinta, torcia para o Ypiranga, primeiro clube a romper com o perfil elitista do esporte baiano, no início do século 20, e depois foi apaixonado pelo Bangu, clube operário, nascido dentro de uma fábrica de tecidos no Rio de Janeiro. Em 1930, surgiu o Bahia, mas o Ypiranga  era o recordista de conquistas estaduais, era o time das massas dos feirantes, dos estivadores, da classe operária. E o maior ídolo do time era Popó. Na verdade, seu nome era Apolinário Santana, e ele dominou o espaço histórico do futebol entre 1920 e 1930 na Bahia. Popó, que era negro, caiu nas graças de Jorge Amado por romper com o racismo no futebol brasileiro. E a paixão pelo Ypiranga e por Popó era igualmente compartilhada por outros ilustres, como o médico pernambucano, Roberto Vieira, autor dos livros : “Os clássicos dos clássicos - 100 anos de história” e “Pernambuco na Copa do Mundo” (1930- 1950).
“Outros clubes do futebol baiano podem ser mais ricos, mais  prósperos, mais badalados na imprensa, donos até da maior torcida e de maior número de títulos recentes. Nunhum de gloriosa tradição quanto o E. C. Ypiranga, o time de Popó, antigamente poderoso, milionário, invencível, supercampeão.... o Ypiranga pode perder a vontade porque já ganhou demais, já deu muita alegria aos seus fiéis torcedores. Se o visitante tiver que escolher um clube de futebol, escolha o Ypiranga...
Jorge Amado ficou fascinado pela história da formação do Ypiranga, uma sintese da união dos pobres da cidade, da classe trabalhadora e excluídos de toda sorte. Esse escritor fantástico era torcedor de arquibancada, misturava-se no meio do povo, de sandálias e chapéu de palha, gritava, berrava, chutava junto com os jogadores, sentia tristeza com as derrotas e extrema alegria nas vitórias, ou seja, tinha impregnado em si o cheiro e a vida do povo baiano.  Nada havia escrito sobre futebol, pois dizia que: “só escrevo sobre aquilo que conheço, por ter vivido". Por isso insistia que jamais escreveria um livro sobre futebol. Mas, apesar dessa promessa em 1984 nasceu o livro “A bola e o goleiro.”.
 
“A bola e o goleiro”
                
Jorge Amado não resistiu, foi brincar com as palavras, conceitos e com o futebol. E assim, inventou e criou um cenário de risos e expectativas entre o goleiro e a bola. O goleiro sempre foi amaldiçoado no futebol. Quando pega a bola, tudo é obrigação, quando leva o gol, é frangueiro, mão-furada, mão-podre, rei do galinheiro. Por isso o autor criou a figura do “Cerca Frango”. A bola para Jorge Amado era o oposto psicanalítico, representado por outro personagem, a “fura redes”. O goleiro era triste e a bola era a alegria dos artilheiros. O gol era a felicidade, pois saiam gols olímpicos, de efeito, de letra, de placa, de bicicleta e até mesmo de folha seca, todos eles apelidos grandiosos. A bola é infernal, chama atenção de crianças e adultos e agora até mesmo das mulheres. A bola nasceu para o sucesso, sempre esteve no auge. Já o goleiro sempre sob as mais variadas dúvidas, assim como uma mulher sob suspeita de traição.
 
No texto Jorge Amado conta que um belo dia a bola “Fura Redes”, se apaixona pelo frangueiro Bilô Bilô e passa a fazer de tudo para cair nos braços do seu amado. Assim, sem mais nem menos, o frangueiro conhece a glória dos estádios e se torna o ovacionado “pega tudo”. A traição e a alegria, a explosão do coração, dos berros e vibrações e canções do povo simples.
 
A história avança para o dia em que o Rei do Futebol poderia marcar seu milésimo gol, e  a Fura Redes encontra-se em um imenso dilema, algo terrível acontecia em sua consciência. Como remarcar seu destino, negar-se, dizer não a si própria, não submeter-se a sua vocação? Mas, como não apegar-se ao seu amor, já que na hora da decisão o agora “pega tudo” estava justamente na meta adversária? Teria ela a ousadia, de impedir o milésimo gol do Rei do Futebol para, de maneira carinhosa, aninhar-se nos braços do seu amado? Jorge Amado vira essa cena do Maracanã. Ele torcia pelo milésimo gol, mas também desejava a glória do goleiro. Com bom humor e romantismo, dedicado ao povo amante do futebol, o livro “A Bola e o Goleiro”, mostra como a contradição entre dois seres com vocações opostas pode ser superada e fazer com que se reconheçam e compreendam a beleza de, em sendo diferentes, poderem até se apaixonar. 
 
“The ball and Goalie” foi pensado e escrito em janeiro de 1984, assim, com vários termos em inglês. O filho do autor, João Jorge, lembra que o pai, quando falava em futebol utilizava-se de termos tradicionais da língua inglesa. O texto foi publicado primeiro em Portugal e depois ganhou traduções para o alemão, francês e italiano assim como para o espanhol.
 
A psicanálise e o futebol em Jorge Amado
 
Jorge Amado, culto, inteligente e cheio de ideologia no plano das esquerdas, foi brincar com a paixão, que é seu chão, e escolheu o futebol, mas só teve certeza do que escreveria porque vivia o futebol na arquibancada, como torcedor aficionado, devoto. O futebol para ele era uma religião e assim as distâncias eram pequenas. Estava de pleno acordo com o que dizia Nelson Rodrigues: “o primeiro esporte do Brasil é o vôlei, pois o futebol, não é esporte, é religião”.
 
Mas, como poderíamos juntar o goleiro, a bola e a psicanálise? Projeto absurdo? Não. De fácil solução.  A bola é como o planeta terra, pura energia, que rola e não enrola, empolga a todos pela alegria. Enche toda a gente que dela vive com a alegria que chega através dos pés, cabeça, mãos, olhos. A bola é magia pura, empolgação, delírio, a bola é perfume de mulher em um mundo masculino. Jorge Amado afirma que o destino da bola é a rede. Na quantidade de gols e na qualidade, seja de que forma for: bicicleta, de Didi, folha seca, olímpico, de falta, bico, gol contra, de barriga, cabeça, calcanhar, não interessa, pois o destino é sempre a rede, para alegria de alguns e tristeza de outros. A esfera mágica, redonda, infernal, é gol e seja ele transmitido pelo rádio ou pela tv, ou visto de pertinho ao lado do campo, na arquibancada, os olhos estão grudados nela. Passe em passe, drible em drible, tudo à espera de um gol sensacional. Ela é alegria, apreensão, desolação e depois explosão ou tristeza. Amada pela torcida, transforma-se em grito de guerra, grito da galera, que se transforma novamente em alegria ou dor.           
 
Nenhuma criança sofre de solidão diante de uma bola. O problema é que ela também faz travessuras e pode surgir algo inesperado, a surpresa, que deixa todos boquiabertos. O que é então alegria transforma-se em tristeza em menos de um segundo. Quando o goleiro vai buscar a bola no fundo das redes, ele é pura desolação, como se fosse tocado para fora da casa da amada. Não adianta socar o chão, gritar, reclamar dos zagueiros, pois a bola procura a rede, seu destino. 
 
No livro de Jorge Amado a bola, ou a fura redes, era imparcial para os dois lados, inimiga número um do zero a zero. Não interessava se o jogador era craque ou perna de pau, ela tinha que beijar a rede.  A bola nunca havia se apaixonado por um centroavante ou goleiro. Até que chegou Bilô Bilô, um goleiro com todos os adjetivos negativos. Já fora chamado de tudo: mão podre, cerca frango, rei do galinheiro, mão furada. Quando a bola beijava a rede, o caminho de sua busca pelo goleiro era a tristeza suprema. Mas um belo dia a bola resolveu trair a rede e apaixonou-se pelo goleiro, era traição pura!  E foi a procura do colo quente e gentil do amado.
 
E naquele dia tudo mudou na vida do goleiro, que passou a pegar tudo. Começou a ser chamado de aranha, pega tudo, saía nos braços da torcida, era ovacionado, havia conseguido uma namorada exclusiva, defendia tudo, feliz da vida, dominava os estádios e a mídia ajoelhava-se aos seus pés, a vida de Bilô Bilô mudara por um milagre de amor.
 
No dia em que o rei do futebol iria fazer o gol número mil, Bilô Bilô estava no gol com uma camisa cor de caramelo. Aquilo era honra e glória contra o pega tudo. Havia mais de 170 mil pessoas no estádio. Bilô Bilô ficou encostado na trave, pois sabia que sua amada viria para os seus braços. O estádio fremia. A torcida balançava a arquibancada. Tudo estava pronto para a festa do rei.
 
E então, que terá acontecido? A “fura redes” traiu o amado? Ou não? Quem arrisca o final de Jorge Amado? Eu sei, mas não vou contar. Leia o livro, é delicioso. 
 
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