México: desafios de López Obrador na luta contra a violência

17 de Setembro de 2018, por Elaine Tavares


Quando dezembro chegar o México começará um novo ciclo, com a posse do presidente eleito Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO). Muitas são as expectativas e outros tantos são os desafios do novo governo, afinal, o México que irá governar é um país dilacerado pela dor da violência e da pobreza.  

Na semana passada López Obrador esteve na atividade chamada de “Segundo Diálogo pela Paz, Verdade e Justiça” e pode ouvir diretamente das pessoas atingidas pela violência os relatos dramáticos sobre mortes, desaparições e torturas. Cada familiar, com as fotos de seus filhos, maridos, pais, gritou por justiça, lembrando ao presidente que muita confiança foi depositada nesse governo e que as respostas precisam surgir.  

A principal reivindicação é de que o governo dê condições aos órgãos responsáveis pela busca de pessoas desaparecidas para fazer seu trabalho. São milhares de pessoas escondidas em alguma fossa, assassinadas de modo vil, tanto pelo narcotráfico como pelos paramilitares e forças do estado. E são milhares também os familiares que buscam os corpos para uma despedida digna e para fazer com que a justiça aconteça, com a punição dos responsáveis. 

Presente com vários de seus possíveis colaboradores diretos no novo governo, López Obrador ouviu cada fala com ar assombrado, pois afinal não é fácil começar um governo com toda essa carga de desespero e, ao mesmo tempo, esperança. Algumas mães de desaparecidos afirmaram de maneira assertiva: O México é uma fossa, um maldito cemitério! Disseram ainda que a esperança de encontrar a verdade precisa ser vivida novamente. “Que essa guerra termine”. 

O encontro contou com a participação de representantes de pelo menos 50 coletivos de familiares de desaparecidos, defensores de direitos humanos, lutadores sociais, jornalistas e de movimentos sociais. Nas falas de todos, a reivindicação unificadora: Nem perdão, nem esquecimento.

Nos sucessivos governos neoliberais a violência no México tem sido gigantesca. Pessoas são assassinadas com requintes de crueldade, queimadas vivas, esquartejadas, torturadas. Muitos dos assassinos são conhecidos das gentes e “estão nos congressos”, como disse uma mãe que teve a filha sequestrada em Guerrero. O desejo das famílias é que o novo governo ponha freio a tudo isso, investigando, encontrando os desaparecidos e punindo assassinos e mandantes.  

A máquina pública está toda contaminada e mexer em tudo isso é como meter a mão num vespeiro. Segundo os familiares presentes no encontro, a polícia se recusa a tomar depoimentos, não leva adiante as investigações e, em vez de lutar contra a impunidade faz é manter, protegendo os culpados e mantendo-se cúmplice. Não há respostas por parte dos governadores e não há garantias de segurança para ninguém.

Depois de ouvir todos os relatos López Obrador falou. Assegurou que já no primeiro dia de seu governo pedirá perdão ás vítimas em nome do estado e garantiu que sua administração irá combater as causas da violência, oferecendo aos jovens a possibilidade real de estudo e trabalho. Ele sabe que não será fácil desmontar toda a maquinaria da violência construída ao longo de décadas. Mas, pediu aos familiares confiança. 

O México, além de estar tomado pelo narcotráfico, em função da vizinhança com o maior estado consumidor - os Estados Unidos - também sofre com a pobreza endêmica que acaba empurrando a juventude para atividades ilegais. Não bastasse isso, sua fronteira com os Estados Unidos é espaço de intensa movimentação de quadrilhas, coiotes, e delinquentes de toda a ordem. O Estado também dá sua cota de violência, reprimindo de maneira brutal os movimentos sociais e as atividades de luta. No ano passado o país atingiu seu recorde de assassinatos, chegando a cota de 80 mortes por dia, totalizando quase 30 mil homicídios. E isso com dados do Sistema Nacional de Segurança Pública, que são os oficiais. O que significa que pode ser muito mais, visto que os desaparecidos não são contabilizados. 

López Obrador terá um longo e pedregoso caminho pela frente.