O diabólico enxofre é ignorado

5 de Novembro de 2021, por José Ferrer

O vulcão La Palma libera de 6 a 9 mil t/da de SO2
O vulcão La Palma libera de 6 a 9 mil t/da de SO2

Gabriel García Márquez[1], ao descrever a barraca do amor errante da desditosa Cândida Eréndira – a par com referências a quem pede uma cobra verdadeira para demonstrar em carne própria um antídoto da sua invenção – faz a seguinte observação:

Estava um enviado da vida eterna que anunciava a chegada iminente do pavoroso morcego sideral, cujo ardente ofego de enxofre havia de transtornar a ordem da natureza e faria vir à superfície os mistérios do mar.[2]

Esta referência é uma surpresa. Apesar de datada de 1972, ela evoca o presente:   a conversa dos catastrofistas climáticos. Trata-se das insopitáveis “alterações” que, segundo os seus pregoeiros, seriam provocadas pelo malfadado aquecimento global. Os seus anunciadores, agora reunidos em Glascow , atribuem-nas ao dióxido de carbono (CO2) – em especial aquele que resulta das actividades humanas. Eles destacam, em particular, o CO2 lançado na atmosfera através do consumo dos combustíveis ditos fósseis (carvão, petróleo, metano)[3].

Noutros textos [4] já me debrucei sobre esta teoria do aquecimento global. Considero-a como não provada, tal como muitos outros que se têm debruçado sobre a mesma. Mas isso não obsta a que tal teoria não mereça honras de verdade oficial sacrossanta. Ela é a adoptada pela ONU e pelo establishment. Procura assim legitimar novas e drásticas transformações económicas e sociais a serem impostas rapidamente e em força. Alguns chamam-nas de Grande Reinicialização (Great Reset). Contudo, sob muitos aspectos, tais transformações não auguram nada de bom – ao contrário do que nos querem fazer crer.

Hoje quero apenas realçar que a desgraça anunciada pelo enviado da vida eterna do García Márquez me parece mais convincente do que esta teoria oficial do aquecimento global. Não pelo morcego sideral, mas pela referência ao enxofre. Na realidade, o enxofre pode ser tido como um elemento químico perigoso porque se queima facilmente. Produz assim o assaz irritante gás dióxido de enxofre (SO2), cuja ingestão pode obrigar a cuidado médico intensivo. Factos que, empiricamente, muitos povos sabiam desde há muito, embora não soubessem explicar aquilo que a ciência química só logrou fazer a partir do século XIX.

Em contrapartida, o dióxido de carbono, como sabemos, não é poluente – a começar porque o expelimos continuamente, enquanto respiramos. Trata-se do gás da vida, aproveitado na fotossíntese. Contudo, a todo o momento os catastrofistas fazem por esquecer tal propriedade. É verdade que em contrapartida o dióxido de enxofre é produzido industrialmente, mas é para fabricar um reagente fundamental em muitos sectores da indústria química: o ácido sulfúrico.

Assim, os apoiantes da teoria do aquecimento global (seria melhor chamá-la de “hipótese”, não de teoria) que tantos malefícios atribuem ao pecaminoso dióxido de carbono de origem antropogénica, deveriam rever de alto a baixo as suas teorizações. Se estivessem realmente preocupados com o ambiente precisariam condenar o dióxido de enxofre, não o dióxido de carbono.

Notas

[1] Prémio Nobel da Literatura em 1982.
[2] A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada, Diário de Notícias, 2003, p. 112.
[3] A teoria abiótica dos hidrocarbonetos nega a origem fóssil do petróleo e do metano. Há planetas que têm oceanos de metano mas nunca dispuseram de matéria-prima para fossilizar.
[4] Sacrifício não global