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O mundo de cabeça para baixo: o reino dos suwakuna (vigaristas) e llullakuna (mentirosos)

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Por Muruchi Poma (Rumi) - Bolívia em 07 de abril de 2026

O mundo de cabeça para baixo: o reino dos suwakuna (vigaristas) e llullakuna (mentirosos)

Foto: Muruchi Poma. Pintura exposta nas águas quentes de Cajamarka.

Revilla, candidato a governador do Departamento de La Paz, na Bolívia, não venceu a eleição, mas mesmo assim foi declarado governador pelos membros do Supremo Tribunal Eleitoral (TSE). A Bolívia está repleta de políticos corruptos e mentirosos que a governam. Isso me lembra uma história que meu pai me contava. Era uma vez uma cidade habitada apenas por corruptos e mentirosos, ele me contou numa dessas noites em meu ayllu, quando eu era criança. Meu pai me perguntou: “O que você faria nessa situação?” “Simples”, eu disse, “não iria para aquela cidade.” “Isso não seria possível”, disse ele. “Porque os viajantes tinham que passar por aquela cidade. Não havia outra opção.” Essa parece ser a situação do povo boliviano. Continuo a história no final deste texto.

Segundo relatos da Bolívia, o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) admitiu o candidato Revilla apesar de ele ter residido fora da Bolívia nos últimos dois anos. De acordo com as regras, ele não deveria ter sido admitido. Um candidato de outro departamento boliviano foi rejeitado pelo mesmo motivo. Portanto, existe um precedente legal. Outro requisito para a candidatura é falar o idioma nativo da região, neste caso, o aymara. Nem o TSE nem ninguém pareceu se importar com isso. O fato é que Revilla não fala aymara. Com a apuração dos votos, o político em questão obteve 20,02%. Em segundo lugar ficou René Yahuasi, um aymara. Todos sabem que a maioria dos habitantes do Departamento de La Paz é aymara.

De acordo com a lei, deveria ter havido um segundo turno, já que ninguém obteve 40% mais um dos votos. Revilla começou dizendo que “somos todos iguais” e que toda essa questão de identidade étnica é absurda. Os esquerdistas falam a mesma língua. A verdade é que tanto os membros do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) quanto os funcionários do governo estavam muito preocupados com o potencial de Yahuasi e com os eleitores aymaras. Em 1º de abril, as autoridades eleitorais emitiram um comunicado: o tribunal pleno aceitou a desistência da candidatura de Yahuasi do segundo turno. O comunicado prosseguia, indicando que, nessas circunstâncias, “o segundo turno não se justifica e o outro candidato será proclamado”. A surpresa foi total; o próprio candidato desconhecia a decisão de “seu” partido, o NGP (Nova Geração Patriótica).

As ações de vigaristas e mentirosos não conhecem limites. O “dono” do partido NGP declarou posteriormente, de sua residência nos EUA, que seu partido estava de fato retirando sua participação. Ele chamou Yahuasi de “cavalo de Troia”, alegando que “por trás das ações de Yahuasi estão interesses ligados ao ex-presidente Evo Morales”. Segundo um relato contundente no Facebook, o dono e líder desse partido teria indicado que lhe ofereceram milhões de dólares, mas que não estava aceitando por esse motivo, e sim para impedir que seu candidato chegasse novamente ao poder por meio do socialismo. É a lógica macabra dos mentirosos: se você não é amigo deles, é inimigo; ou você é socialista ou apoiador de Evo. Tanto a direita quanto a esquerda operam sob essa lógica.

O leitor pode pensar que este é um caso isolado. Não. Algo semelhante aconteceu há cinco anos. Após a morte de nosso estimado irmão Felipe Quispe (Mallku), seus colaboradores promoveram a candidatura de seu filho, Santos Quispe. Ele ainda é o governador de La Paz. Ao contrário de Yahuasi, Santos venceu de forma decisiva. Para surpresa de todos, o dono do partido pelo qual o filho de Mallku concorreu não só se recusou a aceitar a vitória, como também queria ser governador. Ficamos furiosos. Realizar pesquisas ou consultar os membros do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) era inútil, já que os que lá estavam eram os mesmos velhos apoiadores do MAS que queriam impedir a vitória do nosso candidato a todo custo. Os mesmos bajuladores e comparsas de sempre. Diante dessa situação um tanto desoladora e desconcertante, os assessores de Santos decidiram adotar uma abordagem radical. Cercaram a casa do dono do partido e ameaçaram incendiá-la. A intimidação foi séria, real e visível. Testemunhas da cena relatam que o dono do partido saiu correndo de casa e assinou a carta de aceitação do candidato vencedor.

Continuarei com a história que meu falecido pai, Manuel Muruchi Quispe, me contou. Havia três viajantes com suas lhamas. Eles precisavam atravessar um desfiladeiro estreito e extremamente perigoso. Todos sabiam que aquele era o lugar preferido dos bandidos. Eles assaltavam os viajantes, levando todos os seus pertences. Chegavam até a matar suas vítimas. Os viajantes sabiam disso. Meu pai me disse que era extremamente importante estar bem informado, preparado e planejar. E era preciso conhecer cada detalhe do lugar, mas também os equipamentos e o possível comportamento dos ladrões. Dois dos viajantes, os mais fortes, armaram-se com paus, estilingues e pedras. Eles tinham que executar o plano. Acamparam antes de entrar no cânion. Exploraram a área para ver onde os bandidos poderiam estar. O terceiro viajante deveria continuar com as lhamas pela rota do cânion. O disfarce tinha que ser real e perfeito. O plano foi executado com sucesso. Os bandidos foram surpreendidos por trás e mortos. Os três viajantes continuaram sua jornada e chegaram, ao anoitecer, à aldeia dos bandidos e mentirosos. Eles ainda estavam na zona de perigo. Hospedaram-se em uma casa onde morava a dona. Ela estava sozinha, e eles perguntaram onde estava o marido dela. Ela respondeu que ele e o irmão tinham ido trabalhar. Já era noite e eles deveriam ir dormir. Enquanto dormiam, suas lhamas se agitaram e os acordaram. Os viajantes ouviram murmúrios. Perceberam que estavam na casa dos bandidos que haviam sido mortos. Fizeram o que tinham que fazer: fugir, tomando todas as precauções.

Quando assisto ao filme “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, ou leio “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson), penso não apenas na história do meu pai, mas também no que está acontecendo hoje na Bolívia e no mundo.

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