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O tático e o estratégico nas eleições de 2026

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Por Michel Goulart da Silva em 23 de dezembro de 2025

O tático e o estratégico nas eleições de 2026

O debate em torno das próximas eleições avança. Enquanto a direita se debata entre construir uma candidatura própria ou dar mais uma chance aos delírios bolsonaristas, a esquerda constrói um aparente consenso em torno da reeleição de Lula. Contudo, esse apoio pode se tornar mais uma armadilha para a esquerda, em especial aquela que se reivindica comunista.

O debate em torno do apoio a determinada candidatura é algo totalmente tático, ou seja, uma ação que necessariamente está associada a um objetivo mais amplo. Portanto, a definição de uma candidatura deveria ser uma das últimas ou mesmo a última deliberação em relação às eleições de 2026. O central passa por, entre outras coisas, definir a estratégia que se tem e, segundo, como concretizar essa estratégia.

O debate estratégico passa pela definição do que se quer em relação ao Estado. Para a esquerda brasileira, o centro da estratégia há décadas passa pela conquista do governo e, a partir disso, da realização de reformas no capitalismo. Essa foi a estratégia democrático-nacional do PCB e a democrático-popular do PT, que, a despeito de suas diferenças e particularidades históricas e políticas, tinham em comum a ideia de acúmulo de forças na luta pelo socialismo em um futuro distante.

Essas perspectivas estratégicas foram enterradas pela realidade da luta de classes, por meio do golpe de 1964, no caso do PCB, e da chegado do PT ao governo central, em 2003. Essas experiências mostraram que não existe caminho de reformas no capitalismo que possam servir de acúmulo de forças para o socialismo. Pelo contrário, a tática de apoiar ou mesmo construir governos burgueses pretensamente progressistas não leva a outra coisa que não a completa adaptação da esquerda ao aparato de Estado e à reação da burguesia e do imperialismo.

Lula e o PT, que nunca foram socialistas, abandonaram há muito tempo até mesmo o democrático-popular. Não há reformas progressistas em seus governos, mas apenas ataques a direitos dos trabalhadores e distribuição de migalhas por meio de políticas compensatórias. O mandato atual de Lula sequer atacou o “teto de gastos” de Temer, optando por transmutá-lo em “arcabouço fiscal”, o que mantém os limites de investimento em áreas como saúde e educação, entre outras.

Nesse sentido, a esquerda deve se perguntar se vale a pena continuar apostando na ideia de fortalecer um governo que supostamente acumula forças para talvez um dia chegar ao socialismo. Essa é uma grande ilusão. Nas eleições anteriores o central passou pelo voto em Haddad e Lula não porque seus governos levariam ao socialismo, mas para que se pudesse barrar Bolsonaro.

O risco do bolsonarismo permanece vivo, mas sem o apoio de massas que teve em anos anteriores. Nesse processo, a própria dinâmica da luta de classes vem mostrando que a derrota do bolsonarismo não pode ocorrer por meio de ações no Estado. O caminho deve ser outro, que não passa por priorizar a atuação parlamentar ou apenas votar em uma candidatura presidencial do PT.

Portanto, de uma perspectiva estratégica, não cabe à esquerda o esforço de eleger Lula e garantir um novo mandato ao PT. Pelo contrário, o central passa por estabelecer uma estratégia que aponte no sentido da superação do capital, sem nutrir ilusões em atalhos como o acúmulo de forças por meio do Estado. Portanto, o debate passa tanto pela construção de um projeto de poder por parte dos trabalhadores como pela organização da classe no sentido de alcançar esse projeto.

Esse não é um projeto pronto e acabado, e sequer está esboçado. Contudo, experiências de controle operário, como a das fábricas recuperadas pelos trabalhadores, mostram o sentido da luta autônoma dos trabalhadores frente a patrões e ao Estado. Mostram, também, a perspectiva de organização da produção e de novas sociabilidades para a classe trabalhadora. Esse foi um importante embrião, entre outros, que precisa ser retomado na construção de uma perspectiva estratégica que possa ser capaz de superar o democrático-popular.

Essa tarefa faz com que o debate eleitoral seja mais uma entre tantas outras possíveis ação para as organizações trabalhadores. Diferente do que dizem as seitas alucinadas, votar em Lula não é necessariamente uma traição histórico para um marxista. Essa é uma questão tática, que pode ser correta ou não, a depender da dinâmica da luta de classes. Contudo, nutrir ilusões em Lula e apoiar seu governo, sim, é uma traição que deve ser ativamente denunciada. Este, sim, é o debate estratégico.

Por outro lado, lançar candidaturas que sequer angariam os votos dos apoiadores mais próximos dos pequenos grupos não garante a carteirinha de revolucionário. Pelo contrário, são candidaturas que não dialogam com ninguém além das demais seitas alucinadas e tem limitada inserção até mesmo na vanguarda dos trabalhadores. Servem única e exclusivamente para esses grupos marcarem posição e poderem dormir tranquilos ao dizer que seguiram sua cartilha de folhas amareladas. Não servem para organizar os trabalhadores e, portanto, não fortalecem a construção do projeto de superação do democrático-popular.

Concretamente, para os trabalhadores cabe a construção de uma nova alternativa à esquerda do PT que seja capaz de dialogar com os setores mais amplos da vanguarda ou mesmo dos trabalhadores. Essa eventual candidatura deve não fomentar as ilusões no Estado, mas de apostar na organização dos trabalhadores em torno de um projeto político estratégico. Portanto, essa candidatura é uma tática dentro de um cenário estratégico que deve apontar necessariamente para a superação do capitalismo.

Essa perspectiva pode ser cumprida pelo PSOL, mas também pelo PSTU ou qualquer outro partido que tenha legenda eleitoral. Contudo, precisariam, por um lado, superar os desvios oportunistas, que colocam os trabalhadores a reboque de Lula e do PT e, por outro, ser capaz de construir uma síntese político e programática que possa ser o embrião para a organização dos trabalhadores. Portanto, tanto na superação do oportunismo como do sectarismo, a questão de eleitoral só poder ser encarada como uma tática dentro de uma estratégia.

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