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Onde tudo ia morrendo

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Por Ildenilson Meirelles - Unimontes em 01 de julho de 2026

Onde tudo ia morrendo

Onde Tudo ia morrendo é um livro de André Queiroz e Bento Vilela, argumento e roteiro para longa-metragem ficcional.

Nele está a experiência limite de quatro personagens (GUIOMAR, IVONE, JOSÉ VIEIRA, MUSGO) em histórias cruzadas, em Niterói, junho de 2021, quando a Pandemia de COVID 19 começava a arrefecer. Guiomar, feirante, super comunicativa, é mãe solo de 4 filhas. Desde cedo, ensinou as meninas mais velhas a cuidar das irmãs mais novas. Até que um dia o botijão de gás explodiu e Zelda não resistiu. Guiomar correu e correu, mas não deu tempo.

José Vieira é zelador de um prédio no centro de Niterói. Fez de tudo um pouco desde que chegara com Rosa, amor de sua vida, de Campina Grande. Austero, disciplinado, conseguiu comprar apartamento de sala e quarto sem dever nada a ninguém. Não acreditava que uma gripezinha pudesse afetar seu lar. Até que Rosa. Ela agonizou no seu colo, não deu tempo para que a ambulância chegasse.

Ivone estava grávida de três meses. Esperava o fim de semana para contar a Severino e a Valdisney a novidade. Eles desceram dos nortes das Minas Gerais às pressas, sob os riscos da perseguição de sicários. Eram agricultores até que a mineradora se instalou na região, soprando lama e gente para todos os cantos. Ela ia contar a novidade, mas Valdisney, 11 anos, não estava esperando por eles, como todos os dias, em frente ao Restaurante Popular Cidadão Jorge Amado. Onde estaria ele? Não deu tempo para Ivone.

Tampouco para Musgo, ele agora tem 18 anos, desde sempre convive com o fantasma da avó que lhe criava. Mas houve um dia em que a casa caiu, em que inúmeras casas caíram no deslizamento de terra no Morro do Bumba. A avó de Musgo havia dito para ele não ir brincar longe, ele não foi, ele queria dizer a ela isso, dizer a ela que ele jamais iria desobedecer a seu mandato, não deu tempo. Musgo se fez órfão de tudo, girou pelas ruas, cometeu pequenos furtos, frequentou o DEGASE, e entre idas e vindas, aprendeu as cartas do amor e da loucura.

E agora, em ONDE TUDO IA MORRENDO, os personagens dispõem de quatro dias para romper as amarras de um passado que não passa, tocar a frente e desfazer de vez o círculo de fogo de suas vidas. O livro foi editado pela Editora Insular, de Florianópolis.

Leia o Posfácio de Ildenilson Meirelles

Onde tudo ia morrendo é chute no estômago. O que se tem aos olhos para leitura não se trata de um simples roteiro a divertir plateias e leitores aqui e acolá em manifesto cinema ubuesco, senão a expressão mais dura da dura vida real levada a cabo pelas personagens que atravessam o texto/imagem a partir da engenhosidade crítica e da letra viva de André Queiroz e Bento Vilela. Ao lado das cenas cruas mobilizadas pelas personagens, a exemplo da vida-experiência de Musgo – um exemplar inequívoco da condição miserável que atravessa e constitui o modo de ser de milhares de jovens Brasil afora -, há também uma sensibilidade impactante que se revela aos poucos, em cada personagem, de modo a embaraçar a trama pensada pelos autores e a confundir a percepção do leitor até que alcance o fio de Ariadne que coordena o enredo. Vale dizer que a força do argumento que motiva as várias trajetórias apresentadas, pelo menos um dos pontos fortes e mais sensíveis, não é outra coisa senão a “comoção”. E não estamos aí às voltas com a comoção superficial, passiva, comoção cômoda daqueles que se compadecem por desencargo de consciência sem mobilizar o afeto político da partilha, a ação concreta de transformar a escassez em abundância.

Ora, em tempos de absurda escassez de condições objetivas de existência forjada deliberadamente por uma classe mesquinha e miserável que explora continuamente a força de trabalho alheia e devolve ao trabalhador e à trabalhadora – Guiomar certamente tem consciência do que sobrou a ela em seu ganha-pão como manicure – as sobras de um banquete requintado à crueldade, o restaurante popular Jorge Amado é um alento a suprir tal escassez e diminuir temporariamente a desesperança. O restaurante popular de Niterói, como tantos outros pelas periferias e regiões centrais das cidades brasileiras, é cenário dos mais importantes para o encontro afetivo dos desgraçados. Partilham, eles e elas, das mesmas misérias sociais induzidas pelas instituições sociais e podem aí, enfim, dividir tudo que tem: a escassez, as ausências, a dignidade confiscada pela política, o desamparo, as tragédias pessoais, as vulnerabilidades. É nesse cenário público que André Queiroz e Bento Vilela fazem aparecer em abundância o que é escasso na vida pública em regime de capitalismo predatório, a comoção.

Lá Onde tudo ia morrendo a comoção abre novas possibilidades. Esse afeto potente da comoção parece ser, ao mesmo tempo, a ponta de lança que leva o leitor de uma história de vida a outra, portanto o fio condutor que permite aguçar os afetos políticos em preparação ao enfrentamento inevitável com as forças sistêmicas e organizadas de Estado, do mesmo que nos desloca o olhar-percepção às singularidades que se comunicam pelo comum e nos leva a reconhecer que se tratam aí de histórias comuns às gentes maltratadas pelo sistema organizado a bem dos donos do poder, os donos de tudo. A Ivone é vítima desse sistema. Dela foram confiscadas não somente a pouca terra que o pai lhe dera, de onde tirava o seu sustento com seu companheiro Severino, também a esperança e a dignidade. Estrangeiros e estranhos à vida urbana, que aposta fazer à vida dos que levantam acampamento e se lançam à aventura-desespero da sobrevivência em território hostil? Trocam eles, quase sem saber, uma violência por outra. Migrações contínuas forçadas por grandes empreendimentos imobiliários – mesmo se somente a título de especulação –; por mineradoras a extrair até a última gota de recurso natural sem devolver o que quer que seja ao meio ambiente; por carvoarias e seus fornos imensos a queimar ininterruptamente toda a madeira ilegal retirada da terra às correntes puxadas por tratores. No entanto, é preciso apostar… Onde tudo ia morrendo já é o começo.

O fim trágico de Waldisney é atravessado pelo começo e ele começa morrendo. Na trama? Na vida real? Waldisney nasce póstumo e sua sina de morto-vivo, até seu encontro com Musgo, será objeto da profunda comoção aos gritos de Guiomar a implorar por socorro aos pedestres, implorar por uma ambulância e acompanhar seu cadáver de morto-quase-vivo até o hospital. A comoção de Guiomar pelo desconhecido Waldisney é a voz inaudita em meio à aglomeração passiva que se formou no entorno do morto-vivo, certamente todos buscando o melhor ângulo para algumas selfies ou fotos a desfilarem em tempo real nas redes sociais. Em tempos de vigilância digital, o gozo perverso pelo sacrifício público das vidas sem luto – pois há muito as instituições sociais já as abandonaram à sorte – é a garantia do torpor coletivo que assola nossa condição de meros expectadores do real. E abandonado à sorte permanece o destino de Musgo, algoz de Waldisney, ao mesmo tempo vítima do Estado de guerra contra vidas indesejáveis. Musgo é essa espécie de sujeito social flutuante. Musgo é sujeito coletivo. Perambula pelas instituições de chancela governamental como aquele que carece de correção de todos os lados para ganhar jeito na vida, ou, no mínimo, não causar grandes problemas ao ordenamento posto. Um jovem já cansado da vida que leva – escassez de tudo –, dos pequenos delitos que comete e dos abusos sofridos em reformatórios, mas capaz de se inquietar com o que teria acontecido com Waldisney, a quem ele teria sacado o celular e provocado o ferimento na cabeça que levou à morte definitiva do filho da Ivone e do Severino.

Entre o desespero e a desesperança, resta quase nada a sobreviver e tudo parece ir morrendo devagar. A visada política desse roteiro/livro escrito por André Queiroz e Bento Vilela é entrelinha fina, malgrado estar escancarada do início ao fim, do argumento à montagem das cenas; do interior do apartamento do José Vieira – onde dança solitário a saudade e o remorso causado por sua inconsequência em tomar como uma “gripezinha” o que estava na ordem do dia da Covid 19, que ceifou a vida de sua amada esposa Rosa e de milhares de brasileiros que sequer floresceram – aos corredores do Hospital onde agoniza Waldisney; do muquifo onde Musgo e seu companheiro Bira tomam coca cola aos gargalos e comem um “podrão” para aguentar o tranco e o trampo pesado a descarregar peixes às 04:00h da matina, de onde ganham um troco do Portuga para o mínimo do dia a dia, às ruas de Niterói onde se esbarram os flutuantes miseráveis à caça de uma sorte qualquer; do Norte das Minas Gerais no entroncamento com o estado da Bahia onde a disputa pela terra se resolve à bala e à foice – às vezes à cooptação e à coerção dos homens da lei engravatados e suas pastas luxuosas cheia de papéis falsos –, à Campina Grande, na Paraíba, terra natal de José Vieira cujo desencanto pela vida começara a ser resgatado pela comoção dos amigos à sua autodeclaração diária de homicídio qualificado.

Não há uma narrativa individual sequer nesse roteiro-livro que não escancara, em camadas finas de crítica social, a dinâmica perversa das redes institucionais por onde transitam as personagens em regime de escassez a reclamarem por reconhecimento e direito de cidadania. Ao mesmo tempo, não falta aos escritores desse roteiro-livro o bisturi afiado da crítica social com o qual Musgo é capaz de explodir a Guiomar, pressionado a confessar sua delinquência, toda a sorte de maus tratos desde sua frequentação por abrigos vários até ganhar as ruas e se especializar na malandragem, que era o que lhe restava. De imediato, a partir dos encontros das personagens, de um quadro a outro, o leitor é remetido ao mundo real com certa vertigem. É que André Queiroz e Bento Vilela, como que em bola dividida, escorregam o pé intencionalmente – nesse caso, a mão, pois a escrita requer a arte da nuance! – e nos chutam o estômago de modo a embaralhar nossa visão e nos faltar o ar aos pulmões. Escritura impiedosa ao comodismo e à indiferença que arranca do leitor a ansiedade pelo desfecho do boletim médico do Waldisney e de todos aqueles sujeitos sociais cujos rostos se apagam diariamente nas ruas de nossas cidades e cujo luto não é capaz de comover a ordem posta, pois se trata de um “sem nome”, sem identidade, sem reconhecimento. O que temos nesse roteiro-livro, ao fim e ao cabo? O espanto aterrador da penúria.

A indignação explosiva. A vulnerabilidade manifesta. A escassez compartilhada. As perdas irreparáveis. O choro incontido. A morte anunciada. A culpa sem rodeios. O riso que alivia. O companheirismo das dificuldades. O lamento por ter se lançado. A saudade insuperável. O remorso a roer a memória. O abraço a confortar. A tristeza melancólica. A alegria que faz esquecer. O incêndio que queima a esperança. A comoção que devolve a ação. O reencontro da Ivone com o motorista que lhe trouxera a Niterói, a ela, Severino e Waldisney, lhe devolve a esperança do retorno. O choro emocionado e a amargura pela perda do filho lhe renderam um abraço confortante e o acolhimento comovido e esperançoso do motorista de caminhão que generosamente a devolveria às suas origens. À Ivone seria devolvida a vida! E a vida que renasce em Ivone a lhe restituir a alegria perdida em Waldisney anuncia nova aurora, novo começo onde tudo ia nascendo. Onde tudo ia morrendo é um roteiro-livro da vida real em que o leitor se depara com sua condição e com as urgências cotidianas a assoprarem em seus ouvidos repetidamente a cantiga do inquietante assombro ao comodismo e à passividade dos expectadores da miséria social: com o que te comoves?

 

 

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