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Organizar um Congresso Anfictiônico Latino-Americano

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Por Olmedo Beluche em 23 de janeiro de 2026

Organizar um Congresso Anfictiônico Latino-Americano

“Vamos organizar um Congresso Anfictiônico latino-americano, bolivariano, anti-imperialista e popular para confrontar o agressivo neomonroísmo de Trump e seus governos fantoches”.

Nesta hora de perigo, para confrontar a renovada Doutrina Monroe de Donald Trump, a América Latina precisa, mais uma vez, de um Congresso Anfictiônico para discutir como defenderemos nossa soberania ameaçada, nossa independência e nossos recursos naturais.

Duzentos anos atrás, em 1826, o Libertador Simón Bolívar convocou um Congresso “Anfictiônico” no Panamá, reunindo os recém-independentes Estados-nação latino-americanos para se defenderem de dois inimigos: a Santa Aliança Europeia, que ameaçava essa independência ao apoiar a monarquia absolutista espanhola, e o nascente colonialismo imperialista dos Estados Unidos, cujo presidente, James Monroe, havia promulgado sua Doutrina Monroe em 1823: “América para os americanos”, isto é, para eles.

Bolívar adotou o conceito de “anfictiônia” (“amphiktýonía”) dos antigos gregos, que usavam esse termo para se referir a uma assembleia de representantes das diversas cidades-estado daquela península, reunidos para resolver problemas comuns e defender-se de inimigos externos. Em sua famosa Carta da Jamaica de 1815, ele havia dito:

“Como seria maravilhoso se o Istmo do Panamá fosse para nós o que o Istmo de Corinto foi para os gregos! Que um dia tenhamos a boa fortuna de ali estabelecer um augusto Congresso de Representantes das Repúblicas, Reinos e Impérios para discutir e debater os nobres interesses da Paz e da Guerra com nações de outras partes do mundo.”

Com a independência do continente hispano-americano conquistada em 1825, com a libertação do Alto Peru, renomeado Bolívia em sua homenagem, e diante de ameaças iminentes, incluindo a invasão francesa que restaurara o absolutismo de Fernando VII na Espanha e a promulgação da Doutrina Monroe, Bolívar assumiu a tarefa de organizar o Congresso Anfictiônico do Panamá.

O Congresso Anfictiônico reuniu-se no Panamá entre 22 de junho e 15 de julho de 1826, com o objetivo primordial de criar uma confederação dos povos ibero-americanos, do México ao Chile e à Argentina. O Brasil também foi convidado. A proposta foi acolhida pelos patriotas comprometidos que lideravam as novas repúblicas da época, de Lucas Alamán no México a José Cecilio Del Valle na Guatemala, O’Higgins no Chile, Lorenzo Vidaurre e José M. Pando representando o Peru; e os anfitriões colombianos foram Pedro Gual e Pedro Briceño Méndez.

Mas as oligarquias “antinacionais” (como as chamaria Ricaurte Soler) conspiraram desde o início contra a ideia de unidade latino-americana, a começar pelo vice-presidente da Colômbia, Francisco de Paula Santander, que convidou os Estados Unidos apesar dos alertas de Bolívar; passando por Rivadavia, que em Buenos Aires representava os comerciantes subservientes à Inglaterra; bem como pelos setores conservadores do Chile e do Peru.

Duzentos anos depois, enfrentamos um perigo semelhante. Desta vez, a reacionária Santa Aliança é liderada por Donald Trump, que subjugou a direita conservadora latino-americana, atualizando a Doutrina Monroe para o século XXI com o que ele chamou de Corolário Trump: pelo qual afirma que todos os recursos naturais do continente, da Groenlândia à Patagônia, pertencem aos Estados Unidos.

O Panamá e seu canal foram as primeiras vítimas de suas ameaças, conseguindo a completa submissão do governo de José R. Mulino, que lhe concedeu a restauração de três bases militares em seu território. Agora, no início de 2026, a República Bolivariana da Venezuela tornou-se a próxima vítima, sofrendo primeiro um cerco militar, depois um bombardeio e, finalmente, o sequestro de seu presidente legítimo, Nicolás Maduro, e de sua esposa, a líder Cilia Flores. O Sr. Trump se autoproclamou o “dono” da riqueza petrolífera e mineral do povo venezuelano.

Mas a ganância imperialista nunca se sacia. Donald Trump, com a cumplicidade da burguesia ianque e seus partidos “Democrata” e Republicano, agora ameaça diretamente Cuba, México e Colômbia com novas agressões militares caso não se submetam aos seus planos. Hoje, como há duzentos anos, as oligarquias conservadoras de direita, subservientes ao imperialismo norte-americano, estão se rendendo e entregando de bom grado a soberania, os territórios e os recursos naturais. Como vem acontecendo há dois séculos, a burguesia latino-americana subserviente apela ao bolivarianismo apenas para traí-lo, submetendo-se ao imperialismo, uma prática conhecida como “pan-americanismo”.

A maior afronta à memória do Libertador, Simón Bolívar, e dos heróis que lutaram pela nossa independência, é que o governo panamenho de José R. Mulino, o mesmo que acaba de assinar um “memorando” devolvendo bases militares aos Estados Unidos, que afirmou que a fronteira daquele país chega “ao Darién”, e que rompeu o Acordo da Rota da Seda com a China porque o Secretário de Estado Marco Rubio ordenou, convocou uma caricatura de um “Congresso Anfictiônico” no Panamá em 2026.

Nesta hora crítica, para confrontar a renovada Doutrina Monroe de Donald Trump, a América Latina precisa, mais uma vez, de um Congresso Anfictiônico para discutir como defenderemos nossa soberania ameaçada, nossa independência e nossos recursos naturais. Mas precisamos de um Congresso Anfictiônico que realmente represente nossos povos e emerja de sua essência, um Congresso consistentemente democrático e anti-imperialista. Isso exige que uma coalizão de organizações de base o organize, assim como fizemos em 2015 com a Cúpula dos Povos.

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