Meu amigo Ricardo Frota D’Alburqueque Maranhão
Texto: Gilberto Felisberto Vasconcellos
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Foto: Bicanski
A imprensa foi dominante até meados do século XX, mas acabou sendo suplantada por outros meios de comunicação. Seu papel na vida latino-americana possui uma longa trajetória, moldada por diversos fatores condicionantes.
Embora os primeiros jornais tenham surgido em várias cidades durante o período colonial, os movimentos de independência e a fundação das repúblicas foram fundamentais para a ascensão da imprensa no século XIX. A rigor, não eram veículos de notícias objetivas, mas sim órgãos partidários que defendiam conservadores ou liberais, federalistas ou centralistas, e facções governistas ou de oposição. Caracterizavam-se pelo debate político e pelo posicionamento partidário. Eram jornais locais, de baixa circulação, voltados para as elites em países onde a vasta maioria da população era analfabeta, rural e marginalizada.
Foi ao longo do século XX que os jornais adquiriram crescente importância em toda a América Latina. Eles evoluíram para fontes de notícias e informações (as emissoras de rádio dependiam deles), adotaram tecnologias modernas (como a rotativa), estabeleceram linhas editoriais claras, expandiram-se paralelamente às mudanças sociais “populistas” e desenvolvimentistas e, gradualmente, alcançaram um público de massa. Surgiu também a figura do jornalista profissional — inicialmente por meio da experiência prática, e não de diplomas universitários.
Simultaneamente, o modelo de imprensa “livre e independente” adotado por eles inspirou-se em grandes veículos norte-americanos, como *The New York Times*, *The Wall Street Journal*, *The Washington Post* e *Los Angeles Times*. A grande maioria dos jornais da região tinha apenas alcance nacional, operando em meio às oscilações dos conflitos políticos internos — ora desafiando quem estava no poder, ora alinhando-se a eles. No entanto, alguns jornais alcançaram destaque internacional: *Clarín* e *La Nación* na Argentina, *O Globo* e *Folha de S. Paulo* no Brasil, *El Tiempo* e *El Espectador* na Colômbia, *El Universal* e *Reforma* no México, *El Mercurio* no Chile e *El Comercio* no Peru. Eles construíram verdadeiros impérios empresariais. A maioria dos jornais em diversos países concentrava-se principalmente em questões nacionais, uma vez que as notícias internacionais provinham de grandes agências de notícias: Associated Press (AP) e United Press International (UPI), nos Estados Unidos; Reuters, na Grã-Bretanha; e Agence France-Presse (AFP), na França. Consequentemente, as notícias internacionais moldavam a cultura e a visão de mundo do público leitor, embora o fizessem a partir de uma perspectiva ocidental — e predominantemente norte-americana. A sociologia denominou esse fenômeno de “colonialismo da informação”.
Essa situação era particularmente evidente durante a segunda metade do século XX, em meio à ascensão da Guerra Fria. Os principais veículos de comunicação corporativos da América Latina reforçavam a visão de mundo ocidental, alegando defender os valores de uma “imprensa livre”. Ao fazê-lo, alinhavam-se à luta contra o comunismo — um sistema que retratavam de maneira distorcida. O mesmo se aplicava à cobertura sobre Cuba, visto que os relatos da imprensa refletiam os interesses ideológicos dos Estados Unidos. No entanto, Cuba foi o único país a criar um veículo de comunicação alternativo que oferecia uma perspectiva do “Terceiro Mundo”: a Prensa Latina (fundada em 1959). Os principais meios de comunicação latino-americanos também eram influenciados por mudanças de poder e priorizavam interesses corporativos. Eles não se opunham às ditaduras militares que assolavam a região nas décadas de 1960 e 1970; em vez disso, as grandes organizações de mídia optavam pelo silêncio ou por evitar confrontos, devido aos riscos envolvidos. No Chile, a resistência atuava na clandestinidade, com boletins da Vicaria da Solidariedade desempenhando um papel importante, assim como a revista *Humor* fez na Argentina.
A institucionalização das democracias na América Latina teve início na década de 1980. Nesse contexto, e como alternativas às grandes corporações de mídia, surgiram veículos como o *La Jornada*, no México (1984), e o *Página/12*, na Argentina (1987), caracterizados pela objetividade, por uma perspectiva social e por uma postura crítica em relação às realidades da região. Esse posicionamento coincidiu com um período histórico de longo prazo — iniciado pela crise da dívida externa de 1982 — marcado por uma polarização de classes cada vez mais nítida, centrada em dois “modelos” econômicos: de um lado, o modelo empresarial neoliberal, que defende a “liberdade econômica” e é sustentado pelas elites de poder; e, de outro, a economia de bem-estar social — ou o conceito de *buen vivir* (viver bem) — defendida pelos governos da “Onda Rosa” latino-americana na virada do século XXI. Enquanto os veículos de mídia tradicionais alinharam-se ao modelo apoiado pelas elites, o apoio à economia social provém da mídia alternativa. Além disso, esse conflito de interesses e agendas é atualmente moldado pelo “Corolário Trump” e pela “Doutrina Monroe”, ambos exigindo que todos os governos latino-americanos se alinhem aos Estados Unidos. Essa tensão histórica é evidente nas trajetórias seguidas pela Argentina, pelo Chile e pelo Equador — com suas economias voltadas para o setor empresarial — em contraste com o México e o Brasil, com suas economias sociais. As eleições recentes na Colômbia e no Peru também são influenciadas por esses conflitos que envolvem interesses de classe e geopolíticos.
A transição do século XX para o XXI trouxe uma transformação radical nas tecnologias de comunicação, impulsionada pela ascensão da internet, de sites e de plataformas de redes sociais como Facebook, X, Instagram, YouTube, TikTok e WhatsApp. Embora a imprensa escrita tenha ocupado uma posição hegemônica no passado, ela foi impactada pelo advento da televisão na década de 1960 — que se tornou o meio de comunicação mais influente —, mas ambos acabaram sendo superados pelas tecnologias modernas do século XXI, às quais se juntou, mais recentemente, a inteligência artificial. Uma preocupação séria, no entanto, é que esses avanços também favoreceram a disseminação de *fake news* e alimentaram a era da “pós-verdade”. Consequentemente, a tarefa de fundamentar ideias em pesquisas rigorosas e no estudo da realidade cabe a centros acadêmicos, intelectuais críticos e setores sociais que lutam pelo avanço genuíno dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, tornou-se difícil alcançar as massas com ideias bem fundamentadas, pois elas precisam competir com as narrativas da grande mídia, o imediatismo das redes sociais e uma proliferação de opiniões e informações que tendem a sufocar o pensamento crítico e a atenção objetiva em relação aos conflitos sociais e políticos na América Latina. Felizmente, meios de comunicação alternativos com uma orientação social clara e enraizada nas bases populares — aproveitando-se de tecnologias modernas — também se disseminaram por vários países. Em nível internacional, a Telesur (lançada em 2005) mantém uma presença significativa.
Outro exemplo histórico é instrutivo: em *Por onde começar?* (1901) e *Que fazer?* (1902), V. I. Lênin via o jornal como um “organizador coletivo”, propagandista e agitador — um instrumento para fomentar a consciência de classe, construir o partido e garantir o triunfo da revolução. Essa visão, embora correta e bem-sucedida durante as fases iniciais do processo revolucionário russo, tornou-se obsoleta com as novas tecnologias; até mesmo a imprensa tradicional foi forçada a adotá-las. No entanto, as redes sociais dominam o cenário social — particularmente entre os jovens —, onde as posições ideológicas parecem importar menos do que as emoções e as imagens. Ainda mais preocupante é o fato de que as conquistas de governos progressistas não garantem sucesso eleitoral diante do ressurgimento de projetos oligárquicos que apelam ao sentimento popular. Esses são fenômenos que as forças políticas que buscam mudanças sociais precisam estudar e aproveitar, caso desejem assegurar ou manter uma presença relevante e eficaz e, finalmente, conquistar o poder político necessário para transformar a sociedade.
Texto: Gilberto Felisberto Vasconcellos
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