Meu amigo Ricardo Frota D’Alburqueque Maranhão
Texto: Gilberto Felisberto Vasconcellos
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Projeto Córdoba: o reconhecimento do outro
Por elaine tavares – jornalista
Neste mundo capitalista, neoliberal, que atua dentro de conceitos tão redutores como a competição, o individualismo, o egoísmo e o preconceito, poucas coisas são capazes de atuar diretamente no processo de reconhecimento do outro e na derrubada deste modelo de organização da vida que separa e divide. Uma destas coisas é o encontro fraterno e comprometido com outra cultura que permite o viver junto, a cooperação e a solidariedade. Pois estes são os princípios que regem o Projeto Córdoba, coordenado por professores do Colégio de Aplicação da UFSC, e que existe desde 1992.
O trabalho de Rodolfo Panthel, Danusa Meneghello e César Medeiros Régis se propôs a uma mirada mais fortemente latino-americana, porque entendiam eles a absoluta necessidade de os estudantes do segundo grau da UFSC compreenderem sua exata posição no mundo. Nascer e viver no Brasil pressupõe um entendimento do espaço geográfico periférico, latino-americano, dependente e super-explorado. Foi aí que surgiu a idéia de trabalhar com o intercâmbio de estudantes e professores. A escola escolhida para ser parceira nesta proposta foi a Escola Superior de Comércio Manuel Belgrano, da histórica cidade de Córdoba, na Argentina. Lá, também foi possível encontrar professores dispostos a atuar dentro de um processo de visão crítica, de quebra de preconceitos e de construção de uma unidade latino-americana. Casamento perfeito.
Hoje, passados 16 anos de intercâmbios, mais de 300 estudantes e dezenas de professores viveram a experiência de morar – por dois meses – num país diferente, de língua e cultura diferentes, mas muito parecido nos seus processos de organização do trabalho e da vida, igualmente mergulhados na periferia do capitalismo. “A gente nota que há uma mudança significativa nos estudantes que passam pelo intercâmbio. Eles estabelecem fortes laços que vão se estendendo e toda a experiência que eles vivenciam vai tendo um efeito multiplicador no cotidiano”, diz Danusa.
Mas as conquistas do projeto Córdoba não aparecem apenas no plano pessoal, da vida de cada estudante que aprende a conviver com a diferença e a perceber a necessidade da união da Pátria Grande. Elas surgem ainda no próprio processo do ensino. Foi fruto deste projeto o fato de o Colégio de Aplicação ter incluído no currículo duas cadeiras muito significativas: o ensino do espanhol e os estudos latino-americanos. “Além disso, nós estamos integrados no IELA e assim vamos envolvendo os alunos em discussões mais amplas como as que acontecem durante as Jornadas Bolivarianas. Já na escola argentina, as conquistas se deram na também inclusão do Português como cadeira optativa no currículo e a criação de um curso superior de Geografia, tudo fruto dos encontros do Projeto Córdoba, que acabam dando mais ênfase à História e Geografia. “Para os nossos estudantes este intercâmbio é um dos únicos aportes concretos da proposta de uma América Latina unida. E para nós, professores, apesar de não termos carga horária para este trabalho, a atuação no projeto é uma das coisas mais importantes que fazemos”, diz Dante Bertane, professor na Escola Manuel Belgrano.
Junto com o mais recente grupo de alunos que esteve fazendo o intercâmbio vieram os professores Dante Bertane e Ana Maria Della Shiava. Dante já está neste trabalho há 14 anos e ainda assim sempre se emociona com as possibilidades que se abrem durante os dois meses que os estudantes vivem em comunhão. Ana, que é psicóloga, entrou há um ano, e ficou encantada ao observar como as famílias se preparam para a vivência de seus filhos neste projeto. “Nós visitamos as casas dos alunos que vão para Córdoba, conversamos com as famílias e percebemos como tudo isso é valioso para todo mundo, a América Latina se concretiza”.
O intercâmbio dos estudantes não é o único propósito do projeto. Durante os meses em que ficam no país os alunos participam da vida cotidiana das respectivas escolas, mas também vivenciam experiências educativas como oficinas e seminários especialmente preparados para eles. Em Córdoba, por exemplo, é impossível não conhecer um pouco da história das grandes lutas do povo daquele lugar como o Cordobazo (greve dos trabalhadores que detonou a resistência à ditadura militar) ou a movimentação estudantil que culminou com a Reforma de Córdoba, um processo de revitalização das universidades latino-americanas. Em Florianópolis é a vez dos estudantes argentinos saberem da Revolta da Catraca e das demais lutas levadas pela gente daqui. Trocas de saberes e de vivências que criam um espaço interno de amor e respeito. “ Até as rivalidades no futebol ficam diminuídas”, brinca o professor Dante.
Para os professores envolvidos no Projeto Córdoba, tanto os de lá como os de cá, o que define as conquistas cotidianas é a constância do trabalho. Nestes 16 anos de existência do intercâmbio as atividades foram contínuas. Lá em Córdoba os quatro professores envolvidos fazem o trabalho no amor, não recebem horas para isso e tudo é muito batalhado. Já aqui no Aplicação os professores recebem horas para fazer pesquisa e extensão. De qualquer forma, quem está envolvido, nem pensa em sair. É por isso que o projeto é vitorioso. Porque o motor que o move é a paixão, pela América latina, pelo conhecimento, pela beleza da diferença.
Professores do Projeto Córdoba com a jornalista Elaine Tavares
Dante e Ana – Escola Manuel Belgrano
Danusa (Aplicação) e Dante.
Rodolfo – Aplicação
Texto: Gilberto Felisberto Vasconcellos
Texto: Michel Goulart da Silva
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares