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Quem usa, defende o SUS

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Por IELA em 24 de fevereiro de 2011

Quem usa, defende o SUS
Por Raquel Moysés – jornalista
24.02.2011 – Uma pesquisa, realizada pelo  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) desmente várias informações  apressadas e afirmações superficiais de que o Sistema Único de Saúde, o SUS,  é muito ruim, e de que a população brasileira  tem sobre ele uma opinião totalmente negativa.  Através do estudo realizado –   Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), com o tema “Saúde”,  apresentado no mês de fevereiro pelo Ipea,  é possível  constatar   que há  uma  percepção favorável da população sobre vários serviços oferecidos  pelo Sistema Único de Saúde. O que chama a atenção é a predominância de opiniões a favor do SUS  por parte das pessoas  que o utilizam com frequência,  enquanto as piores avaliações vieram de pessoas que não se valem do sistema público para cuidar da saúde.
O SIPS Saúde revela como os entrevistados percebem cinco serviços do SUS: atendimento em centros ou postos de saúde, atendimento  pela Saúde da Família, distribuição gratuita de medicamentos, atendimento por médicos especialistas e serviços de urgência e emergência. O  Ipea esclarece que os resultados da pesquisa se referem à percepção dos entrevistados sobre alguns serviços do SUS, não representando uma avaliação técnica para analisar  a qualidade dos serviços ou para apontar se o sistema é capaz de resolver os problemas de saúde da população.   O que é relevante, de acordo com o instituto, é que os dados sobre a percepção das pessoas apresentam  uma indicação clara de que a população espera ter  acesso “mais fácil, rápido e oportuno” à rede pública de saúde.
A coleta de dados do SIPS – Saúde aconteceu  no período de 3 a 19 de novembro de 2010, nas casas  dos entrevistados, tendo o questionário sido  aplicado a uma amostra de 2.773 pessoas residentes  em domicílios particulares permanentes, em todos os estados brasileiros. O estudo aponta que, para 28,9% dos entrevistados,  os serviços públicos de saúde prestados pelo SUS são muito bons ou bons. Percentual semelhante  (28,5%) opinou que esses serviços são ruins ou muito ruins, enquanto que 42,6% os consideram regulares.
Os resultados revelam  que os  serviços do SUS são avaliados de forma mais favorável por aqueles que costumam utilizá-los sistematicamente, em comparação  com aqueles que não usam o serviço público para tratar da saúde. Entre os que buscaram os serviços do SUS nos últimos 12 meses a proporção de opiniões de que esses serviços são muito bons ou bons foi maior (30,4%) do que a do grupo que não utilizou os mesmos (19,2%).
A proporção de opiniões desfavoráveis foi maior entre os entrevistados que não tiveram experiência com nenhum dos serviços pesquisados (34,3%), em comparação com aqueles que tiveram (27,6%). Mesmo assim, nos dois grupos prevalecem avaliações regulares sobre os serviços prestados.
Saúde da família em alta
O SIPS indica um elevado índice de satisfação da comunidade relativamente ao atendimento pela equipe de Saúde da Família (80,7% das respostas) e sobre a distribuição gratuita de medicamentos (69,6%). Os usuários também avaliam de modo favorável o SUS  no que concerne ao acesso gratuito aos serviços de saúde prestados pelo sistema (52,7) e ao  atendimento universal (48,0%).
O atendimento por médicos especialistas é o terceiro serviço em que prevalecem opiniões positivas: 60,6% dos entrevistados dizem  o serviço é muito bom ou bom, enquanto 18,8% o julgam ruim ou muito ruim. Já o atendimento prestado em centros e postos de saúde recebeu a menor proporção de qualificações como muito bom ou bom (44,9%) e a maior proporção de opiniões  como ruim ou muito ruim (31,1%).  No que se refere aos serviços de urgência ou emergência, 48,1% dos entrevistados consideraram que o atendimento é muito bom ou bom e 31,4% os qualificaram como ruins ou muito ruins.
As críticas que mais aparecem na pesquisa são relacionadas à falta de médicos (58,1%), à demora no atendimento nos postos e centros de saúde ou nos hospitais (35,4%) e à grande espera  para obter uma  consulta com médicos  especialistas (33,8%). Exatamente nesses aspectos – necessidade de mais médicos e de redução do tempo de espera – é que os usuários pedem respostas rápidas da administração pública.
Por outro lado, é exatamente a expectativa acelerar o atendimento que leva parte da população a procurar planos privados de saúde. As principais razões citadas para adesão a convênios particulares são: a maior rapidez para realizar  consultas ou exames (40%); o fato de  ser um benefício eventualmente garantido pelo empregador (29,2%);  maior liberdade para escolha do médico que fará o atendimento (16,9%).
Mas o estudo também mostra que quem contrata planos privados de saúde se sente prejudicado pelo alto custo  dos mesmos, fato que foi apontado por 39,8% dos usuários entrevistados  como sendo o principal problema da chamada  rede de saúde suplementar. Outro aspecto negativo evidenciado pelos usuários é o de que algumas doenças ou procedimentos não são cobertos pelo plano privado (35,7%).  O último estudo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), de dezembro de 2010, registra  que 44,8 milhões de brasileiros contrataram planos privados de assistência médica com ou sem odontologia e 13,9 milhões aderiram a  planos exclusivamente odontológicos.
Mais médicos no SUS
“Aumentar o número de médicos” foi a sugestão mais mencionada para  três tipos específicos de serviço – atendimento por especialistas, atendimento de urgência e emergência e atendimento em centros e/ou postos de saúde. “O aumento do número de médicos pode ser entendido pela população como uma solução para os problemas que vivencia, quando, na busca de serviços no SUS, ocorre demora   para  atendimento ou existe a necessidade de se chegar muito cedo ao local para conseguir marcar uma consulta ou utilizar outro tipo de serviço de saúde”, diz o estudo do Ipea.
No caso dos serviços prestados por médicos especialistas, 37,3% dos entrevistados sugerem aumentar o número de profissionais no SUS e 34,1% falam em reduzir o tempo de espera entre o agendamento e a consulta. Para serviços de urgência e emergência 33% propõem aumentar o número de médicos e 32% mencionam a necessidade de reduzir o tempo de espera para o atendimento.
O  Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou nota  sobre o resultado da pesquisa do Ipea. No texto, o CFM  alerta para “a importância da adoção de políticas públicas que sanem os problemas apontados e que comprometem a qualidade do trabalho médico e, principalmente, da assistência oferecida.”  Para o conselho,  as principais queixas – falta de médicos, demora no atendimento e demora para se obter uma consulta – “decorrem do crônico subfinanciamento que assola a saúde pública do país e da necessidade de modernização dos instrumentos de gestão, que, por sua vez, impedem a adoção de políticas efetivas de valorização dos profissionais da saúde e de investimentos em infraestrutura na rede de atendimento.”
A nota ressalta  que a reclamação dos entrevistados sobre a falta de médicos “não pode ser entendida como uma crítica à categoria, mas como o reflexo do descaso dos gestores do SUS (em todos os níveis de gestão) em apresentar soluções para a contratação de profissionais da saúde, especialmente da medicina, garantindo-lhes remuneração adequada, condições de trabalho dignas e perspectiva de progressão.”
Sem a adoção de tais  medidas, e de outras já apontadas pelas entidades médicas nacionais, diz a nota,  “o SUS continuará a sofrer as consequências do caos assistencial agravado pela falta de profissionais, especialmente nos municípios menores, mais pobres e de áreas distantes, assim como nas regiões de difícil provimento nas periferias dos grandes centros urbanos.”
O CFM defende ainda a criação de uma carreira de médico, dentro do SUS,  para  interiorizar a Medicina da forma como deve ser feita, “considerando o profissional como peça fundamental no processo do atendimento, oferecendo-lhe todo o suporte necessário para que alcance êxito em sua missão de acolher, cuidar e tratar.”
A repercussão da divulgação da pesquisa  mais uma vez evidencia que o SUS – reconhecido internacionalmente como um dos sistemas públicos mais avançados do mundo na sua forma de concepção –  representa ainda hoje no Brasil um ponto nevrálgico do debate político e do movimento sanitário do país. Sistema complexo, construído historicamente, o SUS representa um avanço concreto da sociedade  na luta pelo direito universal à saúde, inclusive bucal. No entanto, embora assegurado na Constituição de 1998 e regulamentado pelas Leis Orgânicas da Saúde (8080/90 e 8142/90) nada ainda  garante que o usufruto seja automático e imediato no cotidiano de milhões de brasileiros que só podem contar com o  Sistema Único de Saúde na hora de prevenir doenças e tratar da saúde. 
 

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