O papel da mídia hegemônica no processo de verticalização em Santa Catarina
Texto: Miriam Santini de Abreu - jornalista, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
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Milo J – cantor e compositor argentino
Por todo o globo, a cultura como espaços de tensionamentos e negociações vem se ampliando, ganhando novos usos, meios e plataformas nas últimas décadas, focalizando nesta reflexão os caminhos e descaminhos da cultura latino-americana em uma perspectiva continental – e por essas latitudes, sabemos bem, as coisas não estão muito diferentes.
Neste processo de mundialização da cultura, a diversidade de expressões evidencia uma pluralidade de vozes e representações que, para grande parte da massa, ou do “público” apartado das afetações artísticas por tanto tempo, garantiu maior democratização dos espaços/plataformas culturais como nunca antes; mas o seu anverso é, no mínimo, preocupante.
Ao mesmo tempo que há maior pluralidade, cresce o esvaziamento de significados e se ampliam as superficialidades de conteúdos (hipoteticamente) transformadores da arte – a mensagem que carrega o artefato cultural em si – produzindo uma realidade onde o excesso do que se cria parece não trazer os lampejos críticos para se compreender a realidade cotidiana, mas ideias estanques e alienantes, descontextualizadas e socialmente desconectadas das questões prementes de nosso tempo. Um tempo sombrio e carregado de emergências, tempo este em que os artistas deveriam encarnar a ponta de lança de uma possível reordenação social.
O continente latino-americano está em uma encruzilhada de difícil definição no âmbito das tratativas e conflitos políticos nos dias que correm. O que poderia desembocar em um universo de expressões culturais engajadas em uma perspectiva transformadora e radical parece não acontecer da forma que almejávamos. A realidade é mais complexa do que parece.
A cultura na incerta América Latina
A segunda onda progressista de lideranças e movimentos de esquerda e centro-esquerda não vingou como muitos intelectuais apostaram lá atrás. As ondas de extrema-direita neofascistas crescem a cada dia e, com elas, a dessensibilização perante a barbárie, o anti-intelectualismo, a miséria nos planos material e simbólico e a potência desagregadora e destrutiva que carrega. Da invasão criminosa dos Estados Unidos em território venezuelano à apatia generalizada das forças de esquerda e de países como México, Brasil e Colômbia, dúbios e enfraquecidos em suas colocações, a evidência é clara.
Se há uma centelha de esperança, portanto, acredito que ela surja mais nos palcos, películas e obras literárias que dos estratagemas de nossos representantes e suas agremiações. Como veremos, setores culturais preocupados com a mensagem veiculada em seus artefatos ainda resistem imbuídos daquilo que foi muitas vezes reiterado pela intérprete tucumana Mercedes Sosa, de que a “arte não pode ser neutra perante a dor dos povos”. Nesta toada, três casos no âmbito da canção popular latino-americana recente mostram que o compromisso com os valores e ideais humanistas, de dignidade, justiça social e solidariedade, aparecem em vozes que não se deixaram abalar pelas forças de mercado e mesmo sob a virulência dos setores neofascistas. Elas são politizadas, sim. Não panfletárias ou eleitoreiras. Almejam nos dizer algo.
Elas frequenciam como ecos de um passado não muito distante, quando compositores, músicos e intérpretes usaram de seu vocal e performances para denunciar a brutalidade e a violência de nosso passado autoritário e, por que não, de seu presente em chamas. Projetam as suas rimas e performances ao futuro incerto da América Latina, enraizados no terreno fértil do passado, naquilo que foi composto e entoado ao largo do século XX.
Quando o fogo e a força das bombas são mais estridentes, é chegado o momento dessas múltiplas vozes, por meio da cultura, entoarem o óbvio: ou alteramos e apreendemos a realidade de outra maneira, ou não haverá futuro possível.
Da Nova Canção ao tempo presente

Residente – a voz que vem de Por Rico
Residente, Bad Bunny e Milo J., sujeitos com perspectivas e vozes distintas, parecem caminhar sob as mesmas trilhas de artistas como Mercedes Sosa, Víctor Jara, Pablo Milanés e Violeta Parra, nomes consagrados do profícuo movimento musical entre fronteiras transcorrido entre as décadas de 1960 e 1970, a Nova Canção Latino-Americana, fenômeno histórico no qual músicos de diferentes países irmanaram-se com o intuito de cantar e modificar os horizontes utópicos de Nossa América.
No entanto, não vive a tríade sob o arbítrio de juntas militares e ditaduras censoras, mas possui a liberdade conquistada mediante a luta de diferentes artistas latino-americanos que enfrentaram os terrores do último século. Sabendo disso, conscientes dos passos dados, abraçam e são afetados ideologicamente, pela entoação daqueles que os precederam de maneira dignificante, apreendendo a realidade movediça do presente sem renegar a combatividade que demonstraram os seus predecessores. Há em sua música, senão a explícita denúncia dos horrores atuais, os princípios e valores culturais de um continente plural, sensibilizando ouvidos e corações atentos à diversidade de nossos povos, de nossos símbolos nacional-populares e de nossa humanidade originária.
Enquanto o astro porto-riquenho Bad Bunny realiza a sua gira de shows na América Latina após o marcante álbum “Debí Tirar Más Fotos”, outro novo astro ascendente, o jovem Milo J., rapper argentino que explodiu com o lançamento de “La Vida Era Más Corta”, ganha notoriedade dentro e fora da Argentina. Ambos atraem os ouvintes familiarizados com as canções de outro astro de Porto Rico, o rapper Residente (banda Calle 13), conhecido pelas composições Latinoamérica e This Is Not America, esta última uma canção-de-barricada composta em meio à ressaca conservadora que nos atormentou após o fim da primeira onda progressista (1998–2016), rememorando as famosas canções de protesto de uma América sitiada pelas forças ditatoriais do passado.
Em entrevistas diversas, Residente foi categórico ao afirmar a influência que recebeu de compositores como o chileno Víctor Jara, torturado e fuzilado pelos militares de seu país após o golpe de 1973. Mercedes Sosa e os trovadores cubanos, como Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, figuras proeminentes da Nova Canção Latino-Americana, também são relembrados e assimilados pelo artista.
Em 2011, junto ao grupo multi-instrumental chileno Inti-Illimani, entoou Latinoamérica no Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, estabelecendo um elo entre o presente e o passado. O histórico grupo musical, juntamente com o Quilapayún, trabalhou ativamente pela vitória de Salvador Allende, em 1971, derrubado alguns anos depois, sendo El Pueblo Unido Jamás Será Vencido o hino eleitoral da Unidade Popular de Allende, uma composição plasmada às trajetórias artísticas de ambos os grupos.
Já Milo J., após o lançamento de seu álbum em setembro de 2025, inseriu Silvio Rodríguez e Sosa em belas composições. Algumas autorais, cantada com o cubano em Luciérnagas, outras nem tanto, como Jangadero – esta última composta por Jaime Dávalos, em 1973, entoada no campasso da gravação de Mercedes, recuperando a sua interpretação com o vocal do rapper no andamento de versos potentes, sendo igualmente potente o clipe em que crianças latino-americanas acompanham uma jangada em chamas río abajo, uma espécie de farol representado pela intérprete argentina aos povos do Sul.
Em janeiro deste ano, Bad Bunny também relembrou Jara em sua última passagem pelo Estádio Chile, ou melhor, “Estádio Víctor Jara”, renomeado em homenagem ao compositor brutalmente exterminado pelo regime de Augusto Pinochet. A canção El Derecho de Vivir en Paz, composta em 1971, foi tocada por seus talentosos instrumentistas, emocionando o público chileno. Como nada é por acaso, o Chile, em sua última eleição presidencial, escolheu o presidenciável que defende o legado sanguinário do pinochetismo e da ditadura chilena.
O Artista e a sua Época

Bad Bunny – também do território ocupado de Porto Rico
Residente e Bad Bunny pertencem ao território ocupado pelo imperialismo estadunidense, Porto Rico. Milo J., ativista e defensor dos direitos e da dignidade humana encarnados pelas Mães e Avós da Plaza de Mayo, enfrenta o reacionarismo argentino levado a cabo por Javier Milei. Aparentemente, nenhum deles está a salvo de críticas destrutivas e das boçalidades da extrema-direita. No entanto, eles persistem.
Por uma obviedade, as conjunturas históricas refletidas entre o artista e a cultura do século XX são distintas do globalizado século XXI. Falamos de uma época em que ditaduras militares perseguiram e censuraram os seus artistas engajados, muitos sofrendo a intensa violência estatal, detenções arbitrárias e os amargores do exílio. Hoje, vivemos em uma época ultra conectada, na qual as liberdades civis e os direitos políticos são questionados e há tentativas de suprimi-los, sim, mas não como antes e não da mesma maneira.
Na leitura do intelectual peruano José Carlos Mariátegui (1925) sobre o artista e a sua época, dentro da “atividade estética”, Residente, Milo J e Bad Bunny, seriam os “descontentes” com a ordem, os mais “acerbos e encarniçados”, sentindo-se “oprimidos em seu gênio” perante um mundo injusto e desigual.
Por fim, se este retorno ao passado se constitui como potencialidade no âmbito da cultura musical latino-americana, podemos esperar que seus ouvintes compreendam a necessidade de espraiar os versos de suas canções, assim como a beleza de seus arranjos, batidas e sonoridades, desnudando as maravilhas humanas e naturais de Nossa América. No entanto, frisemos que a mensagem/conteúdo merece ser captado e igualmente disseminado. Transformados em lema, valores e princípios a serem seguidos no âmbito da política cotidiana.
Ou nos irmanamos em solidariedade e luta no combate por um futuro de dignidade, contra a extrema-direita e o neofascismo tropical, ou poderemos cair em um novo ciclo autoritário e despótico. Até aqui não há surpresas. Não podemos fechar os olhos, pois sabemos que ele já se iniciou. Portanto, cantemos todos uma vez mais.
Referências
MARIÁTEGUI, José. O artista e a época. In: Por um socialismo indo-americano. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2011.
Texto: Miriam Santini de Abreu - jornalista, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
Texto: IELA
Texto: Elaine Tavares
Texto: Consuelo Ahumada - Colômbia
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica