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Silvio Rodríguez, Chico Buarque e a regravação de Sueño Con Serpientes em uma Cuba agonizante

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Por Luís Felipe Machado de Genaro em 22 de maio de 2026

Silvio Rodríguez, Chico Buarque e a regravação de Sueño Con Serpientes em uma Cuba agonizante

Fotos: Francisco Proner

No último álbum lançado pelo compositor brasileiro Chico Buarque de Hollanda, intitulado Caravanas (2017), em uma canção pouco lembrada pela singeleza de seus versos, somos transportados para os pátios e ruelas de uma nem tão gloriosa Havana Vieja, quando o artista desfia um novelo de lembranças acerca de suas andanças pela capital cubana ao longo do século passado. Em Casualmente, o eu lírico de Chico busca uma companheira perdida, de um romance igualmente perdido, por aqueles bairros onde a brisa oceânica rompe as narinas. Nos versos, relembra os anos gloriosos de uma Revolução que foi, mas poderia ter sido mais. Nela, a memória do compositor vincula-se ao sentimentalismo melancólico que sua entoação expressa.

Como todos aqueles artistas engajados e cheios de esperança que assistiram à queda de Fulgêncio Batista e à ascensão de Fidel Castro, juntamente com os guerrilheiros e camponeses da Sierra Maestra, permaneceu a assombrosa tristeza diante dos rumos tomados, entre erros e acertos, pela burocracia partidária governante e, como um fardo imposto e carregado por décadas, por um bloqueio econômico brutal que impediu a pequena ilha de se desenvolver economicamente. Chico não tem pretensões nem otimismos acerca dos caminhos de Cuba e de sua Revolução. Em Casualmente, apenas lembranças ternas daquela conjuntura irrompem em versos breves, belos e entristecidos.

No Brasil, Buarque, assim como companheiros seus da empoeirada sigla MPB (Música Popular Brasileira), assistiu à deposição de uma presidenta conspirada mediante um golpe de Estado brando (2016), à virulência neofascista que acometeu corações e mentes e à tentativa de outra irrupção golpista, esta mais verde-oliva que a última (2022). Sua participação nas últimas manifestações em defesa de nosso capenga Estado Democrático de Direito contra os desvarios autoritários do Congresso Nacional, entoando Cálice e Vai Passar ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso, é evidência de que as coisas não andam muito bem por aqui. De Caravanas até hoje, quase uma década se passou, promovendo novas afetações nos irrequietos artistas engajados de outrora, tanto aqui como em outras regiões de Nossa América.

Hoje, milhas e milhas daqui, Cuba vive sob a ameaça iminente dos Estados Unidos e de sua máquina imperialista de destruição e sofrimento. Após o sequestro do venezuelano Nicolás Maduro, o fluxo comercial de petróleo para a ilha cubana arrefeceu. Enquanto escrevo estas palavras, Havana está sem energia elétrica. Leia-se: leitos hospitalares e centros de oncologia, por exemplo, marca da saúde cubana, estão sem funcionar. O presidente Díaz-Canel, discreto professor de engenharia, enfraquecido, sem sombra de dúvida, pela sombra agigantada das décadas de Castro, observa a história repetir-se célere, como ocorreu com Maduro, diante de seus olhos (a última “acusação” de Trump contra Raúl Castro, sem explicações ou fontes, mostra que a ilha está próxima de algum combate futuro). Pelo visto, o continente assistiu, paralisado, à Venezuela tornar-se um protetorado neocolonial em pouquíssimo tempo, assistindo, agora, à ilha tornar-se, em um momento não muito distante, um resort de hotéis e cassinos de luxo sob o logotipo “Trump”.

A rapidez dos acontecimentos, contudo, promoveu um encontro fortuito para a cultura engajada do continente. Buarque sempre esteve próximo de Cuba, de seus músicos e intelectuais, desde muito jovem, fascinado por suas paisagens naturais e arquitetura, entre as esperanças e a admiração política que Regina Zappa recuperou ao entrevistá-lo: “Acompanhamos aquilo tudo. Eu tinha 14, 15 anos. Foi muito bonito. Ganhar aquela revolução do jeito que eles ganharam, com um barquinho, foi o mais difícil” (2016, p. 119).

Aos oitenta anos, Chico decidiu regressar àquela Cuba que assistiu revolucionar-se quando jovem. Assistindo impávido a todos os recentes acontecimentos, iniciou um diálogo profícuo entre as raízes da Música Popular Brasileira e da Nova Trova Cubana, revivido através de conversas com Silvio Rodríguez, compositor cubano de renome internacional, outro artista engajado de años atrás. Há algumas semanas, diante dos ataques que Cuba vem sofrendo, Rodríguez foi fotografado empunhando um fuzil que lhe foi entregue por correligionários. “Caso necessário, empunharei [o fuzil] contra os ataques estrangeiros”, afirmou o compositor.

O encontro foi registrado pelo fotógrafo Francisco Proner. Diga-se de passagem, um dos maiores fotojornalistas de nossa época. No clipe da regravação de Sueño Con Serpientes, Silvio e Chico, amigos há mais de cinco décadas, caminham por lugares históricos de Havana, lagoas e outros monumentos e edifícios como se já tivessem percorrido aqueles blocos de pedra ao chão. Ao lado do companheiro, com as mãos apoiadas nos ombros de Rodríguez, Buarque observa tudo com atenção preocupada e, em alguns momentos, largos sorrisos lhe escapam. Não é de hoje que ambos os compositores se unem em solidariedade à Revolução Cubana.

Chico e Silvio pertenceram à Nova Canção Latino-Americana, movimento musical entre fronteiras transcorrido em uma época em que cantar apresentava riscos de vida, possível desterro, censura e detenção. Expoentes de suas correntes regionais de renovação sonora (MPB e Nova Trova), compuseram, gravaram e regravaram inúmeras canções que versavam sobre a opressão contra operários e camponeses, suas lutas diárias e resistências, as belezas e amores de uma América Latina livre, integrada e revolucionária (utópica, por fim), como comungavam estética e politicamente os jovens músicos entre 1960 e 1970.

Em um estúdio em Cuba, ecoaram sonoridades marcantes com ênfase no dedilhar terno e preciso do violão de Rodríguez, junto ao vocal amadurecido e com embargada emoção de Chico. A canção Sueño Con Serpientes carrega um conteúdo expressivo a partir de uma metáfora potente: uma grande serpente marinha que desliza pelos mares da América Central em busca de sua presa. A experiência onírica do compositor versa entre a força e a violência da serpente e a fraqueza e a obstinação de sua presa. A força, aqui, não pode ser medida pelo tamanho da presa ou pela virulência do ataque, mas pela relação assimétrica que a grandiosa serpente estabelece com seu antagonista. Depois de tentar matá-la inúmeras vezes, a serpente reaparece ainda maior, como uma hidra grega, mais forte e voraz. A presa, então, é engolida.

Antes do ato derradeiro, o símbolo da paz, uma pomba, fica preso em sua mandíbula, envenenando-a. A digestão do monstro é infernal: a presa passeia pelos órgãos de seu sistema digestivo até chegar ao estômago, instante-chave em que a serpente se “quebra”. A morte da criatura ocorre em razão de um verso musical apresentado pela presa em plena digestão. A serpente não suporta o verso, os sons de seu instrumento, a canção entoada, a verdade expressa a partir da arte engajada, da cultura que ilumina sua voracidade obscura. Não é à toa que Buarque e Rodríguez decidiram regravar essa canção nos dias que correm.

O que nós, historiadores da canção popular, podemos resgatar da composição, a quarta faixa do primeiro álbum de Silvio, Días y Flores (1975), é que o povo cubano permanece atento e vigilante perante a mandíbula da serpente imperialista, que engole violentamente todas as tentativas revolucionárias propostas na América Latina e em outras regiões do mundo. No entanto, sessenta anos após um bloqueio cruel, o isolamento da ilha perante o mundo, além dos ataques diários dos grandes meios de comunicação hegemônicos, fazem parecer que o cansaço é maior que as forças agigantadas à sua frente, radicalizadas e sedentas, como o monstro marinho composto por Rodríguez. Se haverá uma ingerência militar promovida pelos Estados Unidos em terras cubanas, tudo indica que sim. A utopia de uma pequena nação que almejou ser cultural, social e economicamente desenvolvida e livre, que erradicou o analfabetismo e se tornou referência nas áreas da Saúde e da Educação, exauriu-se.

Buarque, casualmente, nas últimas andanças ao entardecer no Malecón, encontrou músicos e instrumentistas cubanos que o reconheceram na rua. Abraçaram o artista brasileiro com carinho, gritando, efusivos e emocionados, por aquela figura já idosa, sorridente e surpresa com a recepção. Sujeitos simples, com vestes ordinárias e violões em punho, mas com sorrisos e olhares mareados pela presença de um velho músico regravado décadas a fio por seus grandes artistas ao longo do século XX. Naquele momento, entre abraços calorosos e versos entoados por Chico e a trupe que caminhava ao pôr do sol, a canção popular brasileira encontrou-se com a canção popular cubana. Singelo instante entre temporalidades, momento em que o passado e o presente do continente latino-americano deram as mãos, vocalizaram a resistência, o cansaço e as esperanças frente à serpente marinha que desliza, neste exato momento, rumo aos velhos blocos de pedra de uma Cuba que não mais existirá.

Como o clipe da regravação de Sueño Con Serpientes denota em sua cena final, o que permanece é a canção, o sonho versado e vocalizado, a força do punho que carrega o violão como uma arma a disparar contra a hidra que se aproxima. Ao final, só há uma coisa a ser escrita, portanto: Pátria ou Morte. Venceremos!

(Chico e Silvio já cantaram outras vezes juntos. Um momento especial: na década de 1980, não entoaram a mesma melodia, mas estiveram no mesmo palco-movimento no Concerto Pela Paz, na capital da Nicarágua, Manágua, em plena Revolução Sandinista. Escrevi sobre o tema no artigo intitulado “Integração latino-americana a partir da canção popular”, publicado pela revista acadêmica Aedos/UFRGS. Acessar: https://seer.ufrgs.br/aedos/article/view/140117)

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