Meu amigo Ricardo Frota D’Alburqueque Maranhão
Texto: Gilberto Felisberto Vasconcellos
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O governador europeu.
Nildo Ouriques – Economista e professor na UFSC
Não pode existir dúvidas do apreço do governador Luis Henrique da Silveira pela cultura européia, pois ele é, muito provavelmente no país, seu mais importante promotor. Há poucas semanas, o governador anunciou que a Academia D’Arte di Firenze promoverá aqui o Liceu de Arte Florentina e também a construção do Museu do aviador e escritor francês Antoine de Saint Exupéry. Antes dela, também desembarcou em nosso estado, a convite do governador, a Escola de Mineração e a Escola Nacional de Administração Pública da França. Já deu frutos a Escola do Teatro Bolshoi, de Joinville, outro projeto de extração européia.
Todas estas iniciativas em favor da cultura européia possuem certo valor, não se pode negar. Mas a predileção pela cultura européia deveria ser objeto de debate público, antes que contemplação passiva ou aceitação domesticada. Deveríamos ser mais cuidadosos – e um governante brasileiro muito mais zeloso – com a divulgação da arte européia entre nós, especialmente se a política cultural e científica do Estado não possui semelhante esquema de promoção da arte e da ciência catarinense no Brasil e no exterior. Como explicar esta ação preferencial pela cultura européia senão como expressão do eurocentrismo, esta ideologia contemporânea que ainda julga a Europa como centro cultural do mundo moderno, de onde supostamente a cultura catarinense e brasileira encontraria as luzes para a afirmação de nossa identidade? Esta ação preferencial pela Europa – que em muitos domínios da arte e da ciência é claramente decadente – merece uma avaliação crítica. No contexto atual, ela tem a marca de um exclusivismo inaceitável e, na forma, representa uma opção provinciana! Por que exclusivismo? Porque não conheço um convênio semelhante realizado pelo Governo do Estado com qualquer país africano; a marca do governo de LHS é, em relação à África, de desencanto e desconhecimento, a despeito de fato de que mais 10% da população catarinense ser negra. Tampouco existe uma ação cultural consistente em relação à América Latina ou mesmo limitada ao Mercosul. Após oito anos de governo, simplesmente nenhum projeto ambicioso, digno de registro nos artigos de imprensa do governador, surgiu entre nós por iniciativa do Estado. Ninguém poderá alegar a ausência de excelentes projetos culturais na África que deveriam ser objeto de intercâmbio. Na América Latina existem também extraordinários projetos culturais que despertam a admiração da Europa, dos Estados Unidos, do Japão. No entanto, a África e a América Latina quase nao existem nas “viagens internacionais” do governador e tampouco merecem seu entusiasmo. Os projetos europeus aqui mencionados aparecem no discurso oficial como expressão da “cultura universal”, como se ainda fosse possível alimentar impunemente o eurocentrismo nos dias atuais e esquecer o fato de que muitas vezes – na totalidade delas, na verdade – os projetos culturais oriundos da Europa não passam de cultural nacional italiana ou francesa apresentada como se existisse uma “cultura universal”, diante da qual todos nós deveríamos ajoelhar e prometer fidelidade eterna.
Por que o governador ignora olimpicamente a cultura latino-americana e africana? Descarto de imediato a afirmação preconceituosa segundo a qual não existiriam projetos que justificassem um forte intercambio cultural com estes continentes. Somente alguém muito ignorante, alienado ou de ma fé poderia ainda afirmar que não existem extraordinárias iniciativas culturais na América Latina e na África que seriam decisivas para embalar um projeto cultural brasileiro e regional. Neste contexto, como ignorar o trabalho extraordinário do ICAIC Cubano no cinema, escola em que Gabriel García Márquez ensinou produção de roteiro? Por que nao aproximar a experiência mexicana no trato do patrimônio histórico e na construção de museus, áreas da cultura em que eles são simplesmente excepcionais? Acaso podemos desconsiderar as potencialidades culturais com a vizinha Argentina, um país que recebe mais de 1 milhão de turistas brasileiros por ano, cifra superior ao número de brasileiros que visitam os Estados Unidos? Como é possível que a ação estatal na área da cultura mantenha tal distancia dos argentinos quando inclusive as cifras do nosso turismo indicam clara preferência pelo país vizinho?
Durante muitas décadas, a elite brasileira sonhou em transformar o Brasil numa mera extensão européia. Esta tentação colonial, sempre travestida de modernidade, criou o mito de que em Santa Catarina – em função da migração alemã e italiana ocorrida especialmente no século passado – se produziu uma espécie de pequena “comunidade européia”, destinada a reproduzir aqui a promessa das “luzes européias”. Nada mais perverso e limitado culturalmente. Um projeto cultural criador, aberto aos ventos do mundo, não pode ficar restrito às iniciativas européias; não pode desconsiderar a cultura árabe – que também tem raízes em nosso estado – ignorar a presença africana e a comunidade latino-americana a qual, sem dúvida, pertencemos. O governo do Paraná, aqui ao lado, desenvolve com êxito a “Mostra cultural de integração dos povos latino-americanos”.
Além do eurocentrismo que marca a ação cultural do governador, é preciso insistir no fato de que a ação cultural do estado precisa enfrentar a industrial cultural e não figurar como um organismo dela. Os países metropolitanos produzem a cultura como um instrumento de poder, ou seja, de hegemonia. Ignorar este dado elementar de nosso mundo é ignorar o essencial. Mais grave ainda se não esquecermos – e jamais poderemos esquecer – o fato de que nossos países sofreram três séculos de colonialismo (1492-1825). Este longo período é superado com as independências; mas estas, como também sabemos, consolidaram a característica mais importante de nossa formação social: a dependência, o subdesenvolvimento. Também por esta razão, a elaboração da política cultural nos países subdesenvolvidos como o Brasil possui um grande desafio, ou seja, aquele de desenvolver nossa própria cultura, alimentá-la com todas as tendências contemporâneas e não exclusivamente com a européia e, especialmente, promove-la “no mundo”. A falta de compreensão desta questão elementar presente em toda política cultural produzida na periferia do capitalismo, reduz o entusiasmo pessoal do governador e a política cultural do Estado ao reforço do colonialismo e não como pretensamente aparece, como abertura para o mundo. A manutenção desta orientação não fará menos do que reforçar nossas limitações culturais e, no limite, representa política alienante que necessita severa reorientação. Enfim, antes que viver das migalhas culturais da Europa é preciso que a política cultural do Estado experimente efetivamente os “ares do mundo”.
De maneira geral, os defensores desta política de corte colonial apresentam as virtudes francesas como expressão de uma “cultura universal”. Contudo, o que nos apresentam não é expressão senão da cultura francesa, ou seja, da cultura nacional francesa! No período recente, a cultura nacional francesa esta a serviço do “universalismo europeu”, projeto cultural destinado a afirmar o poderio supra-estatal europeu contra a industrial cultural estadunidense. A simples importação de projetos europeus – e muito especialmente franceses – fortalece um dos bandos em disputa e, talvez, somente marginalmente, somaria para a elaboração de um projeto cultural catarinense digno deste nome, com alcance de massa, articulado nacionalmente. Enfim, ainda que os defensores da linha dominante na política cultural do Estado pretendam evitar o debate sobre esta questão reduzindo nossas opções, estamos diante de duas possibilidades: nosso estado se transforma num apêndice reprodutor da cultura francesa ou abre as portas para um projeto cultural de novo tipo, efetivamente universal, cujo objetivo não pode ser outro que o fortalecimento de nossa própria cultura.
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Venha a nós a Europa “decadente”
Por Vinicius Lummertz – Secretário de Articulação Internacional do governo do Estado
“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”.
(Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade – maio de 1928)
Nada melhor para a democracia do que o fomento ao debate e o espaço na mídia para o controverso. Saudei, portanto, com alegria o artigo do professor Nildo Ouriques, da Universidade Federal de Santa Catarina, no Diário Catarinense do dia 20 de março, sob o título O governador europeu. Nele, o professor diz o que pensa sobre a política cultural dos governos de Luiz Henrique da Silveira e a acusa de ser “eurocentrista”, ou seja, “uma política a serviço do universalismo europeu contra a indústria cultural dos EUA”, com clara preferência pela França.
Ao recomendar que deveríamos ser mais cuidadosos com a divulgação da arte européia entre nós, o autor diz que esta ação preferencial pela Europa – que em muitos domínios da arte e da ciência é claramente decadente (sic) – tem a marca de um exclusivismo inaceitável e, na forma, representa uma opção provinciana. A concluir pelo que diz o professor Nildo Ouriques, o balé Bolshoi, a Academia de Artes de Florença, o Museu de Saint-Exupéry, o ENA, a Escola Nacional de Administração, francesa e européia, a Grande Escola de Engenharia de St. Etiénne, a Lusofonia com os Açores, representam conhecimentos e culturas que nos transformariam em apêndice de uma conspiração dos europeus para nos condicionar como “subprodutos” da cultura francesa.
Talvez por desconhecimento, o autor não fala da Escola Polonesa Mazowsze, do projeto do novo Centro Cultural França Brasil, da nova parceria que se desenvolve com a Ferrari. Na verdade, os países europeus têm um papel central na mais ousada estratégia de cooperação internacional que Santa Catarina empreendeu em toda a sua história. Seria isso ruim, como sugere o autor?
Na prática, temos cooperação com muitos outros países, além dos órgãos multilaterais; cooperação em segurança e alta tecnologia com os EUA, em especial com o MIT (Sapiens Parque); cooperação nas áreas agrícolas com Nova Zelândia; intensos esforços de integração com a Argentina e o Mercosul apoiando o ensino da língua espanhola em nossas escolas; e com o Japão, onde, diga-se de passagem, Santa Catarina vai assinar, nesta transição de governo, um empréstimo para obras de saneamento da ordem de R$ 343 milhões. Isto tudo sem mencionarmos o fato de Santa Catarina manter hoje relações com mais de 180 países, onde comercializamos US$ 18 bilhões anuais contra os US$ 3 bilhões de sete anos atrás. Foi esse sistema multilateral de comércio que maior impacto teve na alavancagem do PIB catarinense – de R$ 65 bilhões, em 2003, para os R$ 104 bilhões atuais.
Minha dúvida é saber se devo ou não relatar a “tese conspiratória” do professor Nildo Ouriques ao ministro do Turismo de Zimbábue, que recebemos, novamente, para tratar de bolsas na Udesc, cooperação com o Epagri e turismo, obviamente. Ou aos iraquianos e indianos com quem estamos discutindo investimentos, ou aos marroquinos que tratam conosco da parceria com o porto de Tanger e o Festival de Mágica de Marrakesh, realizado no ano passado e que já nasceu como o maior da América Latina – a mesma Marrakesh que recebeu tão bem nossa Copa Lord, e que ganhou o Carnaval com este tema. Cederei à tentação ? Como se vê, a política cultural internacional do governo de LHS é muito mais eclética, ampla, do que pensam – ou sabem – os que a criticam.
Voltemos à Europa, que o autor define como “claramente decadente” em “muitos domínios da arte e da ciência”. Não consigo, em primeiro lugar, entender o que é decadência da arte ou da ciência. A arte é de boa qualidade ou de má qualidade. A boa qualidade em arte não decai. Admitir a decadência da arte seria como dizer que a poesia de Baudelaire, produzida há 150 anos, não será mais capaz de nos sensibilizar ou que a França seria incapaz de gerar novos poetas da mesma qualidade, quando sabemos que o útero que gerou Baudelaire ainda é muito fértil. Já a ciência, todos sabemos, é transportada pela pesquisa – e o que faria um país como a França reduzir inversões para pesquisa no apogeu de seu enriquecimento?
Em defesa da Europa, certamente o professor Nildo Ouriques vai-me permitir ampliar o debate, alargando o entendimento para o sentido de cultura ocidental. A Europa, que já foi o centro do mundo, chegou a tal condição pelo Renascimento e pela Era das Luzes, que a tirou do sono da Era Medieval e do dogmatismo cristão, como ilustrado por Umberto Eco, em seu O Nome da Rosa. As culturas grega e romana, estocadas no Bizâncio, explodiram em Florença sob os Médici – e seguidas as revoluções científicas, comerciais, e a revolução industrial, a reforma protestante –, além das revoluções dos comuns na Inglaterra e dos burgueses na França, transformaram o mundo. Mesmo o socialismo e o marxismo são invenções claramente europeias. Freud e Einstein, também.
Assim, não se pode entender cultura como uma expressão estanque, que nasce e morre numa redoma. A cultura ocidental começa em Atenas, que, por sua vez, tem passado que remonta ao Egito, ao norte da África, à Mesopotâmia e às relações com o Oriente. A Grécia, por sua vez, está presente nos Estados Unidos, não só na ideia seminal de democracia, mas avulta na arquitetura neoclássica. Washington é uma cidade jefersoniana, neogrega, como são praticamente todas as universidades e escolas norte-americanas – o que não é grego reflete o gótico europeu, como em Nova York. Tudo é perene e, ao mesmo tempo, passa por grande transformação. Temos de admitir, professor Nildo, que os Estados Unidos não estariam transformados em potência não fossem essa continuidade e essa oposição. Isto é puro Hegel, lembra-se? Veja ainda o caso da Espanha: é europeia, mas é também moura. E assim são os EUA do folk e do jazz.
As escolas de gestão de economia e de engenharias dos EUA e da Europa estão mais lotadas de chineses, hoje, do que estiveram de japoneses e coreanos no passado. A mesma coisa ocorre nas escolas de música da Inglaterra e da Áustria, e de artes em toda parte. Os orientais não têm medo de levar o Ocidente para lá – toda esta ideologia começou com a revolução Meiji em 1880, quando o imperador japonês repetiu Pedro, o Grande, e foi buscar a cultura ocidental. A síntese das potências culturais de Índia e China com os elementos ocidentais é o maior fator vivo de transformação planetária, do qual esperamos muito. Das artes à tecnologia, o cerne de tudo é a busca da mais alta excelência. Assim a celebrada engenharia tem o DNA de Aachen, como a USP nasceu francesa.
Estamos nos homogeneizando com o Brasil, para o bem e para o mal, nas palavras de Ignacy Sachs – que, como Domenico de Masi afirma, apontam nosso Estado como o mais preparado para a era pós-industrial. Somos parte do Brasil Novo, do Sul, como diferenciou Darcy Ribeiro, e não nos envergonhamos de nossas raízes europeias, ao contrário. Nosso festival de dança, o maior do mundo, nossa Oktoberfest, quase uma Oktober-Carnaval, são manifestações culturais com grande legitimidade catarinense.
Ao final da apresentação do Bolshoi do Brasil na inauguração do Teatro Oscar Niemeyer em Ravello (Oscar, o amigo de Lecorbusier, o francês, que juntos projetaram o prédio das Nações Unidas) – um templo branco e curvo, brasileiro, incrustado em dois mil anos de história arquitetônica amalfitana –, com a técnica russa, nossas crianças dançaram Cazuza e arrancaram aplausos de pé de uma das mais cultas plateias da velha Europa. Bravo!
Não estamos, portanto, a fortalecer bandos em disputa. Nem queremos ser recolonizados por nós mesmos. Damos as cartas. Por fim, não estamos, enquanto defensores da linha dominante na política cultural do Estado, pretendendo evitar o debate, como argumenta o professor Nildo Ouriques – nem virar apêndice de ninguém.
Talvez seja mais fácil entender esta parte da política cultural do governo de LHS lendo o Manifesto Antropofágico. Nada fica impune nem imune à força cultural de transformação do Brasil.
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O colonialismo cultural em Santa Catarina
Nildo Ouriques – professor no Curso de Economia da UFSC
Em resposta a minha crítica a política cultural eurocêntrica do governo do Estado, o Secretário de Relações Internacionais, Vinicius Lummertz da Silva, defendeu a atuação dos governos de LHS (DC Cultura, 27/03/2010), alegando que a ação governamental representa a “mais ousada estratégia de cooperação internacional que Santa Catarina empreendeu” e, na qual, “os países europeus tem um papel central”. Num tribunal, destinado a avaliação da política cultural oficial, o secretário seria réu confesso. Ele se orgulha de tal opção – a centralidade européia nas relações internacionais – e embora misture relações internacionais com política cultural, a defesa que fez reconhece que acertei no alvo.
Segundo o secretário, a opção preferencial pela cultura européia é não somente correta em função de sua grandeza per se, mas, sobretudo, porque é o caminho do fortalecimento de nossa própria cultura. Nunca antes vi alguém defender com tanta convicção colonial a política cultural européia, como se nós, os latino-americanos, ainda estivéssemos condenados ao comportamento colonial, já superado, pelo menos politicamente, desde 1825.
Na verdade, depois das confissões públicas do secretário, é preciso dizer claramente: a política cultural do governo de LHS não é somente um produto eurocêntrico, mas, sobretudo, uma demonstração de colonialismo sem precedentes em nosso estado. Nunca um governo importou tantos produtos culturais europeus em nossa história política. Eu reconheci “certo valor” em algumas iniciativas do governo. A questão, afirmei, é que a despeito do mérito de algumas delas, a questão central era o inaceitável e agora desinibido eurocentrismo, cujo resultado não poderia ser outro senão uma política de conteúdo colonial. Eu posso entender a dificuldade de alguns leitores – com o secretário jamais concederia semelhante compreensão – em aceitar minha tese sobre o caráter colonial da política em curso. Ocorre que o colonialismo não se apresenta como realmente é, mas sempre como expressão do “moderno”, do “erudito”, do “racional” enquanto seus opositores são frequentemente considerados “bárbaros”, “bregas” e “irracionais”. Contudo, o que realmente me impressiona neste debate é a ausência de crítica sistemática num estado em que centenas de produtores culturais, artistas, escritores e cineastas abandonados, convivem com bibliotecas, museus, teatros e dezenas de secretarias municipais completamente esquecidas pelo apoio oficial enquanto os recursos públicos são destinados a divulgar e reverenciar aqui uma cultura que não é e não poderá ser nossa jamais.
Colonialismo e cultura caminham juntos e não é possível esquecer o fato de que o Brasil foi colonizado por 300 anos. Alguém poderá afirmar que 300 anos desapareceram sem deixar marcas, sem criar hábitos, sem consolidar uma estética, sem organizar o estado, a economia e a cultura? Os países latino-americanos, é verdade, se tornaram formalmente independentes após 1825, mas neste caso vale a advertência de Oswald de Andrade contida no Manifesto Antropofágico, aliás, indevidamente utilizado pelo secretário: após a independência, o “espírito bragantino” seguiu produzindo estragos entre nós, garantindo o privilégio para uma cultura alienante e não poucas vezes decadente. Antes a imposição colonial portuguesa. Agora a predileção colonial pela França e os Estados Unidos. Quando chegará a vez do Brasil e da cultura nacional?
Em sua defesa, o secretário invoca nada menos que a antropofagia de Oswald de Andrade, mas considero o recurso uma inútil e indevida tentativa de nacionalizar o pacote colonial alienante do governo. O secretário deveria ler até o final aquele Manifesto – tão atual hoje quanto em 1928 – e não apenas sua primeira linha (“Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”). É preciso dizer que Oswald de Andrade foi, de certa forma, um dos primeiros a relacionar marxismo e nacionalismo entre nós. Antes dele, um maldito desconhecido chamado Manoel Bomfim – responsável pela transformação intelectual de Darcy Ribeiro – já tinha acertado no alvo: o Brasil precisava se brasilianizar, romper com o espírito Bragantino, deixar de ser bocó na vida, na política e na cultura!
Em conseqüência, caso estivéssemos diante de uma condução oswaldiana da política estatal como erroneamente supõe o secretário, a atitude antropofágica devoraria as virtudes da cultura estrangeira em benefício da cultura nacional. Jamais desconsideraria a existência da cultura estrangeira e do imperialismo cultural. Antropofagia sim! Colonialismo não! Oswald de Andrade não queria perpetuar o espírito e a prática colonial típicos de nossa elite, defendida aqui pelo secretário sem se ruborizar. “Contra a cópia, pela invenção e a surpresa…. o contrapeso da originalidade para inutilizar a adesão acadêmica….”, escreveu Oswald de Andrade em 1924, no Manifesto Pau-Brasil.
No Manifesto Antropofágico de 1928, com o qual o secretário Vinicius da Silva tenta buscar legitimidade para a política oficial, Oswald de Andrade já adverte contra o eurocentrismo: “queremos a revolução Caribe. Maior que a revolução francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa nem sequer teria sua pobre declaração dos direitos humanos”. E segue, talvez para surpresa de nosso secretário de estado: “Nossa independência ainda não foi proclamada”. Para os leitores de Oswald é óbvio que para levar a independência até o fundo e fim, seria necessário promover a ruptura com o “espírito bragantino” que atualmente preside a política cultural de nosso estado. Portanto, ler o Manifesto Antropofágico de 1928 como um canto geral em favor da homogeneização em curso – como faz o secretário – e espécie de hino precoce em defesa da globalização capitalista que destrói culturas periféricas em favor da política cultural metropolitana, é, no mínimo, uma impostura intelectual. A argumentação oswaldiana não permite a defesa de uma política colonial porque foi criada precisamente para superá-la. No Brasil, país marcado pela importação cultural alienante, o espírito universitário sempre atuou em favor da cultura estrangeira, e a predileção pelo moderno terminou por sabotar a vitalidade de nossa própria cultura. Portanto, não devemos nos surpreender com a desinibida manifestação de alienação do secretario Vinicius L. da Silva e sua absoluta falta de compreensão da antropofagia, pois, como advertiu Gilberto Vasconcellos, “é lamentável a dialética do iluminismo ter feito maior furor entre nós que a dialética da antropofagia” (Brazil no prego, p. 159, Editora Revan, Rio de Janeiro, 2004) Enfim, como ensinou um dos maiores conhecedores da obra de Oswald de Andrade, “a questão fundamental é o caráter dinâmico e temporal do conceito de nacionalismo na sociedade brasileira”. Neste contexto, é mais que evidente o caráter colonialista, anti-nacional da política cultural do estado de SC, um produto tardio da servidão voluntária, para citar um autor francês consagrado que o secretário deveria ler. A propósito desta servidão voluntária, em sua última viagem à França, Vinicius Lummertz reclamou precisamente da ingratidão francesa, da falta de reciprocidade dos franceses: “a política francesa precisa reconhecer o que Santa Catarina está fazendo. A França conhece o nordeste e o sudeste, mas não o sul” (declaração no Jornal A Notícia, 25/01/2010). Um caso típico de amor não correspondido que, à diferença das experiências amorosas individuais, é garantido, indevidamente, com dinheiro público! O resultado é pífio para a cultura catarinense, pois, como expressa o lamento do secretário na capital francesa, a França, teimosamente imperialista, não reconhece o esforço do secretário e da política oficial! Até quando o secretário seguirá dando demonstrações infinitas de fidelidade aos franceses para, quem sabe, um dia, ser condecorado pela embaixada francesa com uma medalha por serviços prestados à cultura…. francesa!!!! Quantos milhões o estado ainda terá que gastar do nosso dinheiro público para que os franceses reconheçam o que o estado catarinense faz pela cultura deles?
O secretário Vinicius da Silva ainda acredita nas virtudes do “útero francês” como se as energias criadoras que deram origem à poesia de Baudelaire fossem eternas, como se Roma, apesar de sua grandeza imperial, um dia não tivesse também sucumbido. Por esta razão, para o secretário não existe “arte ou ciência decadente”; apenas arte e ciência de boa ou má qualidade. Ele não admite que o “útero europeu” que nos deu Baudelaire também possa produzir intelectuais decadentes. Ele não percebe a monumental diferença entre Freud, Marx, Hegel e Einstein – figuras realmente grandiosas – e Domenico Di Masi, este best seller de aeroporto, considerado em Santa Catarina como guru de um mundo que supostamente ainda não percebemos e no qual deveremos apressadamente “entrar”.
Para melhor se defender, o secretário me acusa de defender uma “tese conspiratória”. Vou ajudá-lo: nada mais longe de minha intenção. As conspirações no terreno da arte e da cultura, assim como no mundo da política, efetivamente existem, mas na grande maioria das vezes falham. O imperialismo cultural é, ao contrário, política sistemática, exercida por séculos e não admite improviso, ainda que contemple erros. O colonialismo não seria tão forte na cabeça de nossos homens públicos sem as iniciativas culturais organizadas pelos estados metropolitanos, sem o imperialismo cultural. Não é possível entender esta devoção colonial à cultura européia senão como expressão do colonialismo, travestido no discurso oficial como “globalização” ou “homogeneização”. A elite brasileira não vacila em reproduzir aqui a cultura francesa razão pela qual devemos esperar, como produto da política “eclética e ampla” do governo catarinense, mais um Centro Cultural França Brasil. Acaso os franceses financiarão uma casa da cultura brasileira ou catarinense em Paris? Acaso existe a reciprocidade?
Vamos deixar as coisas claras: se nosso leitor visitar Paris e na viagem tirar uma foto em baixo da Torre Eiffel, como quem conquista um troféu de guerra, é um assunto exclusivamente pessoal. Eu diria que é um ato típico do turista, produzido colonialmente, mas amparado na legitimidade privada. Mas quando um Secretário e um governo inteiro transformam a linha cultural do Estado em expressão deste colonialismo já é assunto público que merece reprovação e critica sistemática. Na defesa de uma política cultural supostamente “eclética e ampla”, Vinicius Lummertz da Silva alega que o governo realiza “intensos esforços de integração com Argentina e o Mercosul apoiando o “ensino de língua espanhola em nossas escolas”. Quais as obras resultantes destes “intensos esforços”? E ainda neste ponto, por que os “intensos esforços” não produziram sequer uma “Casa latino-americana da cultura”, equivalente do Centro Cultural França Brasil? O secretário anuncia que está tratando com o ministro de Zimbaue sobre bolsas na Udesc, e com os marroquinos sobre uma parceria e com iraquianos e indianos iniciou outro protocolo de discussão. Após 8 anos de governo, o que existe além das conversas? E a pérola do espírito bragantino em ação: levou a Embaixada Copa Lord, escola de samba de Florianópolis, para Marrakesh como demonstração cabal de um esforço para divulgar nossa arte lá fora. Francamente, secretário, não é pouco? Ora, uma política cultural não pode se confundir com um roteiro turístico elaborado por uma agência de viagem. É algo sério demais para ser tratado como peça destinada a “atrair investimentos”.
A manipulação do postulado antropofágico oswaldiano também se pode ver na utilização de Darcy Ribeiro. O antropólogo mineiro em seus estudos de antropologia da civilização criou uma Teoria do Brasil em que o sul aparece como “especificidade”. Mas a obra de Darcy seria impensável sem a ruptura radical que operou com o eurocentrismo, como tampouco é compreensível sem sua tenaz luta contra o colonialismo no terreno da educação e da cultura. A trajetória de Darcy Ribeiro é impossível sem as bibliotecas públicas uruguaias, nas quais se confinou em seu doloroso exílio; um tempo em que, ele mesmo confessa, ajudou-o na sua “latino-americanizaçao”. Contudo, utilizar sua Teoria do Brasil, para afirmar a especificidade do sul, como se fosse possível ignorar que em sua obra nossa região não fosse apenas um caso de “intrusão” de tipo transplantado, é uma sabotagem descarada de sua teoria. Darcy tinha absolutamente claro que as “configurações” que armou para entender a especificidade brasileira na América Latina se sustentavam teoricamente no reconhecimento que o desenvolvimento capitalista é, necessariamente, desigual. Neste contexto, o sul, a despeito da imigração massiva – que já concluiu há mais de um século – era para ele parte constitutiva da cultura nacional; jamais figurou, portanto, como apêndice europeu e menos ainda como lócus onde a política colonial européia deveria buscar financiamento adicional para prolongar-se indefinidamente.
A ruptura com o colonialismo não é processo fácil. Somente as revoluções sociais podem levar até o fundo e até o fim a descolonização e inaugurar um período de criatividade no terreno da arte, da cultura, das idéias. Ainda assim, a experiência histórica ensina que mesmo nestes casos, não é fácil. Mas ensina também que, a despeito das dificuldades, é tarefa indispensável. Todos aqueles que atuam em favor da cultura brasileira – e latino-americana – e não estão dispostos a passar uma vida no ridículo e alienante papel de simples “tabeliões de idéias alheias”, mais preocupados em prefaciar ou traduzir o último grito agonizante de certa cultura européia como se estivéssemos indicando um programa cultural vitalizante para nosso povo, não devem deixar de assumir plenamente este esforço contra nossas dificuldades. Estas começam, quase sempre, pela ausência de crítica a política cultural de nossos governantes.
Texto: Gilberto Felisberto Vasconcellos
Texto: Michel Goulart da Silva
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares