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A morte pela boca

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Por IELA em 27 de junho de 2018

A morte pela boca

A televisão chega a 97% dos lares brasileiros. E, em todos os canais temos programas sobre comidas, e comidas saudáveis. “É preciso comer verduras, frutas, legumes”. E a todo o momento há uma campanha para que se consuma mais isso, mais aquilo. São muitas as dicas e receitas para utilizar todo o tipo de comida, mas absolutamente ninguém fala sobre o veneno que está embutido nelas. São os agrotóxicos. E os agrotóxicos são substâncias químicas (herbicidas, pesticidas, hormônios e adubos químicos) que foram inventados para tornar a agricultura mais rentável. Com eles os agricultores eliminam pragas, deixam os produtos maiores e mais bonitos, podendo assim aumentar a produtividade e garantir melhor preço de venda. 
Mas, para quem consome os produtos encharcados de agrotóxico os efeitos não são os mesmos. O aumento dos casos de câncer, das doenças crônicas e das intoxicações pode estar relacionado a esse consumo, que é cada vez maior. E, não bastasse o agrotóxico que fica no alimento, ele ainda pode ser jogado sobre a cabeça das pessoas, como é o caso das pequenas comunidades no interior, que vivem isso cotidianamente, enfrentando toda a sorte de enfermidades. O veneno também prejudica o solo, encharcando não apenas a terra, mas também os lençóis freáticos e os cursos e água, podendo chegar em qualquer pessoa. Trabalhadores rurais, que manuseiam frequentemente esses produtos sistematicamente sofrem doenças graves por conta de intoxicação. 
No Brasil a situação é grave, pois além da venda legal dos venenos também se registra venda ilegal, de produtos falsificados, muito mais agressivos. E, segundo ambientalistas e movimentos de luta contra os agrotóxicos, mesmo entre os que são vendidos legalmente a fiscalização é bastante fraca. A quantidade de veneno que vem com os alimentos pode chegar a altas doses ao longo de um ano e tudo tem efeito cumulativo no corpo humano, o que significa que quase ninguém pode escapar de ficar doente por conta disso. 
Agora, na Câmara dos Deputados, os representantes do agronegócio e do latifúndio apresentaram um projeto de lei que facilita o registro, o acesso e o uso dos agrotóxicos, praticamente acabando com a pouca fiscalização que existe. O PL tem causado muita polêmica e na última semana foi votado em sessão fechada – para evitar tumultos, disseram – numa Comissão Especial que analisava o tema. E, como era de se esperar os votos deram maioria para a flexibilização do uso do agrotóxico. Isso significa que a proposta irá para o plenário e com voto favorável. 
O Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão do Ministério da Saúde que tem como missão apoiar o desenvolvimento de ações integradas para prevenção e controle do câncer, divulgou uma nota se manifestando contra a alteração do do Marco Legal dos Agrotóxicos (Lei 7.802/1989) e alertou: “Tal modificação colocará em risco as populações – sejam elas de trabalhadores da agricultura, residentes em áreas rurais ou consumidores de água ou alimentos contaminados, pois acarretará na possível liberação de agrotóxicos responsáveis por causar doenças crônicas extremamente graves e que revelem características mutagênicas e carcinogênicas”.
A Anvisa, órgão responsável pela fiscalização, também condenou a proposta e acredita que isso vai ser muito ruim para a população. Enfim, o projeto só é bom para os fazendeiros, mas eles têm uma bancada poderosa no Congresso e fatalmente aprovarão a medida. 
Movimentos sociais e ambientais tentam alertar a população sobre o terror que isso poderá significar, mas não encontram eco. O tema não aparece na televisão e não há um debate público sobre o assunto. No geral, a mídia comercial ridiculariza a ação dos ambientalistas acusando de alarmismo e segue na sua campanha de que o “agro é pop”. 
Na comissão que aprovou as mudanças na lei de registro, acesso e uso dos agrotóxicos 18 deputados votaram a favor da lei do veneno, e nove votaram contra. Entre os que votaram a favor do PL do Veneno estão três catarinenses, do MDB, os deputados Celso Maldaner,  Rogério Peninha e Valdir Colatto. 
O PL do Veneno é mais uma aberração no pacote de maldades que o Congresso vem aprovando contra os trabalhadores e contra a maioria da população, com muito pouca reação. 
Há quem diga que a saída para evitar a tragédia anunciada das doenças e intoxicações é mudar os hábitos e passar a consumir só alimentos orgânicos. Isso pode servir para a classe média alta e para os ricos. Para a maioria da população, é absolutamente inalcançável, visto que os preços dos orgânicos são bem salgados. Sendo assim, não há saídas, e as comidas envenenadas continuarão chegando à mesa dos brasileiros, travestidas de boa aparência. Frutas, legumes, cereais, tudo encharcado de veneno, provocado uma infinidade de doenças. 
Ainda há tempo de barrar o PL do veneno, mas precisa haver grande mobilização popular. Sem isso, mais uma derrota atingirá os brasileiros. Sem trabalho, sem direitos, sem previdência e ficando doente por comer comida envenenada. Enquanto isso a indústria farmacêutica vai enchendo os bolsos, em parceria com os empresários rurais. O capital girando sua roda, sem compaixão. 
 

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