Vigilância e intimidação sobre os professores em Santa Catarina
Texto: Elaine Tavares
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Foto: reprodução vídeo
O brutal ataque dos Estados Unidos à Venezuela, nos primeiros dias do ano, foi mais um exemplo da política externa do governo Trump e do colapso da ordem mundial costurado entre o imperialismo e a burocracia soviética depois do fim da Segunda Guerra. Com o sequestro do presidente Maduro e seu julgamento fraudulento, os Estados Unidos pretendem tomar os recursos naturais da Venezuela, em especial o petróleo, e impor sua política na região, com a ajuda de rufiões como Javier Milei.
Não há grande surpresa que o presidente argentino, uma espécie de caricatura do caricato Jair Bolsonaro, tenha apoiado Trump. Mas o que mais chamou a atenção foi a postura de parte da esquerda, contribuindo no fortalecimento de uma narrativa que, no limite, justifica a intervenção dos Estados Unidos. Embora tenha sido praticamente um consenso a denúncia à criminosa invasão à Venezuela, não houve unidade em relação à postura diante do governo Maduro. Para parte da esquerda, parece que, mesmo diante de uma violente agressão imperialista, ainda é preciso pontuar ressalvas e relativizar a postura a se assumir em relação a esse processo político.
Para qualquer pessoa de esquerda, a questão deveria ser simples. Diante do ataque imperialista ao governo de um país dominado, deve-se defender a independência nacional. Neste caso, cabe aos trabalhadores, mantendo a autonomia de suas organizações, a unidade de ação com o governo, contra o inimigo externo. Os trabalhadores não devem esquecer os ataques que sofrem de seu próprio governo, reivindicando ampliação das liberdades democráticas e o avanço em medidas econômicas, mas, diante de um ataque militar imperialista, essas contradições não podem impedir que se reconheça o inimigo principal, que é o invasor externo.
Essa é a política dos comunistas não apenas na Venezuela, mas na Palestina, por exemplo, diante dos ataques que sofre de Israel e dos Estados Unidos. Contudo, nesses processos é comum que a mesma esquerda com ressalvas não se furte a desferir impropérios contra o Hamas. Por certo que o Hamas é uma organização reacionária que utiliza de métodos terroristas, mas que não se furta a se colocar como direção da resistência palestina. Por certo que seria muito pior a continuidade do genocídio palestino e a total dominação dos Estados Unidos sobre o Oriente Médio, e, bem ou mal, o Hamas assume a tarefa de liderar os palestinos nesse processo. O que a Palestina precisa é fortalecer as organizações dos trabalhadores, em especial um partido marxista que possa encabeçar o processo.
No caso da Venezuela, no embate entre imperialismo e Maduro, a postura política correta a se assumir é simples, mas não para a esquerda com ressalvas. Em seus devaneios críticos, constrói uma ideia de equivalência entre Trump e Maduro, ambos chamados de ditadores. Essa é a mesma lógica que leva a equivaler as forças do poderoso exército de Israel com os parcos recursos do Hamas. Por certo Maduro deve ser criticado pela falta de democracia e pelas fraudes eleitorais, mas, neste momento, nada disso é relevante.
O processo político Venezuela, muito mais amplo que a gestão de Maduro, é um exemplo de uma revolução estagnada. Nos últimos cem anos diferentes processos nacionalistas se colocaram no sentido de enfrentar o imperialismo, em alguns casos conquistando a libertação nacional, como em países da África, e, em raras situações, chegando a expropriar a burguesia, como em Cuba. Esses processos não se resumiam ao nacionalismo, tendo sua base nas de lutas dos movimentos de trabalhadores. Diante da situação concreta desses países, essas lutas acabavam por se expressar em movimentos nacionalistas, uma frente ampla composta por setores da burguesia, da pequena burguesia e mesmo de operários, ainda que estes não conseguissem assumir a direção do processo.
Esses processos, ao não ganharem a hegemonia operária, acabaram por se degenerar ao longo do tempo. Em alguns casos, antigos líderes nacionalistas e suas organizações chegaram a conformar ditaduras. Em outros, o imperialismo se fez dominante, seja cooptando, seja destituindo governos. Desses processos, independente do resultado, a lição principal passa pelo fato de que encontraram seu fim não devido à subjetividade de suas lideranças, mas pela impossibilidade, por diversas razões, de os operários assumirem a direção estratégica de suas ações. O processo cubano, em que uma direção burocrática foi empurrada para a expropriação da burguesia, continua a ser praticamente uma exceção entre os países dominados pelo imperialismo.
O processo da Venezuela não se constitui nessa exceção. Os trabalhadores não conseguiram romper o cerco da dominação burguesa. Se, ao longo dos anos, houve uma ampliação da repressão e mesmo da corrupção no governo, não se trata de uma maldade imanente a Maduro ou a outras lideranças venezuelanas. Pelo contrário, Maduro nada mais é que a expressão mais evidente da estagnação da revolução, que foi incapaz de avançar no sentido da expropriação da burguesia e de uma plena libertação da dominação imperialista. Essa estagnação tem várias causas, que passam tanto pelas debilidades da direção do processo, conduzida por setores pequeno-burgueses, como pelas pressões imperialistas sobre a Venezuela, o que inclui sanções comerciais ou mesmo a articulação de golpes de Estado.
Neste momento, não é possível apontar culpados ou fazer unidade de ação com Trump na condenação de Maduro. Existe uma linha que divide os combatentes, e não podemos ter dúvidas de qual lado devemos estar. Gostemos ou não, Maduro é o presidente da Venezuela e representa um governo que foi atacado pelo imperialismo. Portanto, a solidariedade com a Venezuela tem como primeiro passo a libertação do presidente e o restabelecida de seu governo, independente de eventuais críticas que se possa ter ao seu mandato. Não pode haver ressalvas. São os trabalhadores venezuelanos que devem decidir o futuro da revolução bolivariana e do mandato de Maduro, seja nas urnas, seja nas ruas, construindo um governo que expresse seus interesses. Esses interesses, do lado de cá da linha de combate, certamente não são os mesmos de Trump.
Texto: Elaine Tavares
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Texto: Aline Goldberg - Doutora em Letras
Texto: Elaine Tavares