Secretário do IELA lança livro
Texto: IELA
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Descontentamento com progressismo e o voto nulo
No último final de semana, foi realizado o primeiro turno das eleições na Bolívia. Para o segundo turno foram escolhidas duas candidaturas de direita. Os votos somados das fragmentadas candidaturas de esquerda sequer chegariam ao terceiro lugar, também ocupado por uma candidatura da direita. Esse cenário abre uma nova situação política na Bolívia, depois de cerca de vinte anos em que o país foi governado pelo Movimento ao Socialismo (MAS).
Essa queda da esquerda não se mostra exatamente uma novidade na América do Sul. No Equador, depois de sucessivos governos de esquerda, os últimos pleitos têm repetidamente levado ao governo alternativas de direita. Em países como Argentina, Brasil, Chile e Uruguai tem havido o revezamento entre demagogos conservadoras e alternativas que se colocam como progressistas. No Peru, os poucos meses de um mandato presidencial de esquerda foram seguidos pela derrubada do governo e pelo desencadeamento do autoritarismo estatal. Os setores reacionários vêm tentando algo parecido na Colômbia, mas, por enquanto, Gustavo Petro consegue se manter no governo.
O país onde se mostra uma certa estabilidade no grupo político governante é a Venezuela. Contudo, mesmo sendo o presidente Maduro um sucessor de Hugo Chávez e o PSUV siga no poder, o governo não chega a expressar sequer uma caricatura do que foi o auge da chamada Revolução Bolivariana. Pelo contrário, o governo de Maduro é marcado pelo retrocesso nas conquistas do período chavista e coloca o Estado a serviço da perseguição contra as tentativas de construir alternativas de direção política à esquerda.
Essa queda da esquerda se explica em grande medida por conta de seus próprios erros ao longo dos anos. Não se trata de uma questão conjuntural das disputas políticas de cada país. Embora sejam cada uma delas situações particulares, o centro da questão passa pelos limites dos governos que se pretendiam “progressistas”. O fundamento de sua política passava por um nacionalismo fiscal na sustentação de suas relações comerciais com o exterior. Concretamente, o centro de sua política comercial passava por criar melhores condições na comercialização de produtos como suco de laranja, carnes, café, petróleo, gás natural, entre outros.
Essas políticas pontuais não afetaram a relação com o imperialismo, mantendo o pagamento da dívida ou, no máximo, buscando sua renegociação, como o fez o Equador. Essas medidas, mesmo sem romper com as relações de produção capitalista, permitiram uma ampliação na arrecadação e a possibilidade de implantar políticas que permitissem uma melhoria na situação da maior parte da população. Em países com índice elevado de desemprego e pobreza extrema, como Bolívia e Equador, mesmo as políticas mais tímidas impactaram parte significativa da população. Na Venezuela, as ações de controle de produção e exportação do petróleo permitiram um significativo aumento na receita fiscal do país e, por conseguinte, de investimentos sociais. O Brasil viu uma enorme expansão de sua educação superior e o retorno de um tímido desenvolvimentismo como retórica de governo.
Contudo, ao se propor a realizar medidas nos limites das relações de produção capitalistas, em alguns casos implantando reformas, esses governos sempre estiveram fadados ao fracasso. O nacionalismo fiscal seria apoiado na medida em que pudesse trazer benefícios às classes dominantes, metendo o equilíbrio do dólar e permitindo melhores condições de importação e exportação. Esses sempre foram seus limites estratégicos. Portanto, suas ações sempre estiveram fadadas à estagnação, colocando esses governos diante do dilema entre aprofundar suas medidas ou se indispor com a burguesia nativa e com o imperialismo.
Nesse cenário, observa-se três tipos de comportamento desses governos. Um primeiro grupo é daqueles nos quais as reformas ficaram nos limites da campanha eleitoral e realizaram mandatos pretensamente progressistas que tentavam equilibrar medidas assistenciais com ataques apoiados pelo capital financeiro, como no caso do Brasil. Um segundo grupo é aqueles em que a maior parte das ações do governo foram alinhadas ao imperialismo, mas que realizaram algumas poucas e tímidas ações progressistas. Esses países, que se constituem na maioria daqueles que tiveram experiência de governos pretensamente progressistas, como a Argentina e o Chile, no geral conseguiram manter relações estáveis com o imperialismo e contaram apenas com a oposição de uma parcela dos representantes nativos da burguesia.
O terceiro grupo é constituído por aqueles países em que seus governos, em primeiro lugar, procuraram realizar reformas mais profundas e, em segundo lugar, diante da estagnação das tentativas de mudanças, flertaram com críticas ao imperialismo. Em diferentes níveis, são exemplos disso os governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela. Contudo, ainda que tenham se mostrado disposto a certo grau de enfrentamento, isso não levou a um processo de superação do capitalismo como ocorreu em Cuba. Pelo contrário, nesses países, os governos se viram acossados pelos ataques do imperialismo, inclusive com tentativas de golpe e, em vez de dirigir o proletariado no sentido da transformação da sociedade, insistiram nas tentativas de reformas, o que levou à estagnação.
Esse cenário se tornou ainda mais complexo diante da crise econômica de 2008. Com isso, em âmbito interno, esses governos tinham uma crescente dificuldade de avançar na melhoria das condições dos trabalhadores e, em âmbito externo, viam limitadas suas possibilidades de relações no mercado internacional. Embora tenham se sustentando por alguns anos, chegaram ao limite as ações propostas pelo Estado. Com isso, diante do enfraquecimento do apoio de sua base social, restou a tentativa de fortalecer o próprio aparato, o que se expressa nas ações do governo venezuelano de fraudar eleições ou no completo desmantelamento do partido que durante duas décadas encabeçou o governo boliviano.
Portanto, as recentes derrotas eleitorais nos diversos países não podem ser explicadas pelos elementos da conjuntura imediata, mas a partir de questões estruturais. Por um lado, observa-se o enfraquecimento da base social desses setores diante da piora das condições de vida da maior parte da população. Por outro, é evidente a ausência de perspectivas políticas que possam apontar no sentido de um projeto de transformação social como resposta à crise econômica e institucional que se mostra generalizada nos diversos países. Portanto, a explicação para as recentes derrotas eleitorais não está na apresentação de mais de uma candidatura pretensamente progressista num primeiro turno ou no mero ascenso de alternativas de extrema direita, mas na ausência de um projeto estratégico que seja capaz de fazer com que os trabalhadores apontem sua luta no sentido da derrubada do capitalismo e de construção de novas formas de poder baseadas na sua própria organização.
Texto: IELA
Texto: Hernando Calvo Ospina - jornalista
Texto: Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica
Texto: IELA
Texto: IELA