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Círculo de visões no meio da praça

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Por IELA em 20 de outubro de 2006

Círculo de visões no meio da praça
20/10/2006
Por Raquel Moysés – jornalista
O jeito de falar de Werá Mirim carrega uma inspiração ancestral. Esse homem Guarani que veio da aldeia Tekové Mareã, situada na localidade de Conquista, perto de Araquari, quando pronuncia a sua palavra diz coisas que falam ao espírito, levantam a prece, mas também anunciam a boa luta por terra e o direito a uma vida digna. Vice-cacique de seu povo, Werá Mirim não teme falar com os intelectuais da academia nem com os estudantes e trabalhadores da universidade, como revelou durante o IV Festival da Primavera do Sintufsc, o Eko Porã.
Ele, que é filho de cacique e curandeiro – o pai cuidava das dores de sua gente – iniciou sua conversa com a comunidade no meio da praça da UFSC, lembrando que Ñanderu, o Deus criador, ensina que, para viver bem nesta nave espacial chamada Terra, é preciso fazer tudo para viver unido. “A gente vem navegando nisso que é chamado tempo e somos dirigidos por este tempo para o bem. A gente é ser de luz e semelhante dele (o pai celestial), só que todo mundo fala do semelhante, mas não sabe o que significa o semelhante”.
Werá Mirim conversa com as pessoas, sentadas em círculo embaixo da barraca da Apufsc, e lembra que os humanos precisam “indagar as palavras” e ter a consciência de que é Ñanderu aquele que dirige tudo. “Eu não estou aqui por acaso. Ele manda a gente fazer”.
O próximo a falar no círculo das visões, sob a barraca aquecida pelo sol primaveril, é o historiador e poeta César Félix, o Cesinha. Filho de nordestinos, ele, que traz nas veias sangue negro e índio, foi professor na escola guarani de Morro dos Cavalos, e comenta que a Constituição de 1988 trouxe uma mudança no conceito de educação indígena, na medida em que garante que ela deva respeitar a cultura dos povos originários. Só que, como não há professores índios em número suficiente em Santa Catarina, eles ainda estão sendo formados através de um curso de Magistério Indígena. Enquanto isso, a Secretaria de Estado da Educação tem permitido a atuação de um educador não-índio ao lado de um índio nas escolas indígenas.
Em Morro dos Cavalos, a situação de vida dos índios é muito difícil. A BR-101 passa dentro da aldeia, separando-a do rio, dos peixes, da mata, do silêncio, de tudo que tem uma importância vital para os Guarani. Além disso, as pessoas são obrigadas a viver em cima da pedra, num terreno que não dá para plantar. Por isso tudo, Cesinha não tem dúvida: “Ensinar como é o canto dos passarinhos nos livros e fazer esse povo ter que pedir permissão ao vizinho para tomar banho no rio, é algo que agride a cultura e prejudica o ensino.”
Percebendo que as crianças absorviam mais de sua cultura do que daquela de seu povo, ele resolveu desistir das aulas. Mas, durante o tempo que passou lá, notou como se dá o processo de aculturação. “Fizemos uma semana da cultura Guarani, que valorizava, entre outras coisas a alimentação tradicional, que inclui a mandioca, a batata doce, o milho, as frutas. Mas como é possível lidar com isso se o governo manda para lá sanduíche, salsicha, macarrão e suco químico?”
O educador se preocupa com o fato de o respeito à cultura indígena estar só na lei. Falta materializar o que o papel diz. Ele cita uma “pérola” que saiu em um jornal de circulação estadual. A notícia fala de um trabalho feito por três instituições para estimular o consumo de frutas e verduras entre as crianças da comunidade indígena de São Miguel, em Biguaçu. O texto da notícia, e os que promovem a atividade, nada dizem, no entanto, sobre a falta de terras para que eles plantem árvores frutíferas e cultivem verduras. Também não fazem qualquer crítica ao fato de o governo, que tutela a vida dos índios, sequer enviar para as aldeias os alimentos tradicionais da cultura desses povos. “A sociedade nega, e depois diz que eles não comem fruta e verdura”.
Para César Félix, só há um jeito de avançar na educação indígena: é garantindo a terra para essas gentes. “Sem permitir a interação com a natureza, os animais, a água, nossa cultura vai estar sempre impondo um jeito de viver para os índios.”
Havia sempre uma música
Nuno Nunes fazia as coisas normais que qualquer estudante da UFSC geralmente faz, até o dia em que seus passos conheceram o caminho dos Guarani. Ele foi viver um tempo numa aldeia e, lá, lhe parecia que havia sempre uma música no ar. “Me apaixonei por essa sensação e fiquei”. Só depois dessa convivência, que resultou também em uma pesquisa concreta sobre o modo de pensar Guarani, é que Nuno percebeu quanto a formação na universidade é só baseada no pensamento ocidental. “O Guarani pensa de um outro jeito, não entende como é que um branco pensa. E o governo, e órgãos como a Funai, não funcionam porque se preocupam mais em discutir do que em fazer coisas junto com o povo.”
Werá Mirim foi seu primeiro professor da língua Guarani, e Nuno considera vital que exista gente como ele no meio da comunidade indígena, disposta a fazer essa relação com os não-índios e a mostrar como, no meio do seu povo, apesar de tudo o que sofrem, não falta felicidade. “Isso é um ensinamento para nós”.
Nuno também lembra que quando se fala hoje na organização e luta indígena no Brasil e em toda a América Latina, é preciso recordar que, na verdade, se trata de uma “reorganização”, porque há 500 anos, quando os invasores chegaram, destruindo tudo e dizimando etnias, já estava tudo organizado.”
Isolados até do sol
Karai Jakupé Mirim, que também vive na aldeia de Morro dos Cavalos, compartilha sua sabedoria com a comunidade universitária. “Cada um de nós é o maior inimigo de nós mesmos. Porque, na lógica Guarani, se o mundo não está como eu quero, eu tenho que me perguntar porque continuo nele, porque fico ali se estou vivendo mal. É por isso que o povo Guarani parte sempre, caminha sempre, na busca da Terra sem Males.” Ele ensina que cada humano deve parar de brigar consigo mesmo e entender que precisa primeiro entender a si próprio para fazer um mundo melhor.
Jekupé lembra que seu povo vive em uma terra pequena, não demarcada, onde só tem quase pedra. “Lá, no Morro dos Cavalos não dá para plantar nada, e tem que ficar com porta e janela fechada, porque venta muito. Por isso, a gente fica isolado até do sol que, para nós, é um irmão.” Esse moço, que veio do Espírito Santo, conhece as lutas de seu povo por dentro, pois naquele estado do sudeste, viveu a longa batalha contra a gigantesca Aracruz Celulose, que há 30 anos avança sobre as terras indígenas e dos camponeses. “A empresa é muito poderosa, mas hoje as coisas já mudaram, pois já há povo não-índio que está apoiando nossa luta pela terra.” Desde que chegou à capital catarinense, porém, Jekupé sofre ao ver seus irmãos no centro da cidade, vendendo artesanato na rua, sentados no chão. E pergunta: “Cadê os governantes que apóiam o índio?”
No entanto, ele se anima quando fala da reorganização de seu povo, que luta pela terra e pela educação diferenciada. “Agora fazemos o curso de Magistério Indígena, mas tem muita coisa para ser mudada. Se temos nosso próprio calendário, por que a secretaria de educação nos impõe o calendário de não-indio?” Ele, porém, não vê algum problema no fato de o índio aprender a usar o computador. “Para se defender, o índio precisa aprender a lidar com o computador, a internet, a televisão, o vídeo… O mesmo acontece com o celular. Muitos discriminam o índio se ele tem celular, mas todos esses são instrumentos para índios e não-índios se servem para fazer coisa boa.”
Calendário da vida Guarani
Na hora do debate, César Félix volta a falar sobre o que viveu na Escola Indígena Itaty, de Morro dos Cavalos. Ele conta que lá foi feita uma discussão sobre um calendário que respeitasse a cultura dos Guarani, mas que é difícil lidar com a padronização exigida pela secretaria de educação. Para o índio, não faz sentido manter feriados não-índios, que não dizem nada para eles, como o natal, a páscoa, o dia da conquista em abril, corpus christi. “Como eles pensam o tempo a seu modo, quando fizemos a discussão do calendário branco, só quiseram manter a data que homenageia o ancião. No calendário que criaram, porém, há espaço para uma semana da cultura guarani e outras datas que marcam o plantio, a colheita, a festa do batizado do milho.
Cesinha nota que a escola ensina, mas também tira muito da cultura de um povo e cita mais um exemplo. Na cultura guarani, no período da menstruação, as mocinhas ficavam em casa, mas, agora, como na escola essa ausência conta como falta, a cultura foi alterada.
No vai e vem da roda de conversa, já perto do meio-dia, a palavra retorna para Werá Mirim, que, ao falar dos direitos indígenas, questiona a existência das leis. “De que servem, se não cumprem o que está escrito? Se eles escrevem a lei, é para obedecer. Se não é para obedecer, que não se escreva, e não se faça mídia disso”.

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