As medidas protecionistas de Trump
Texto: IELA
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Impressões sobre a Venezuela e o encontro dos povos
Por Raquel Moysés – jornalista no OLA/UFSC
Três dos integrantes do Observatório Latino-Americano que estiveram no Fórum Social Mundial, em Caracas, voltaram de lá com a nítida impressão de que a Venezuela, terra de Simón Bolívar, é hoje um país em que a luta de classes se explicita aberta, em plena rua, nas estradas que serpenteiam bairro acima, adentro, abaixo, à sombra da infinidade de barraquinhas do livre mercado que dá de comer a milhares de trabalhadores informais.
Beatriz Augusto Paiva, Elaine Tavares e Nildo Ouriques compartilharam impressões, observações, imagens, constatações e hipóteses com um punhado de gente de espírito curioso que atendeu ao convite do OLA de tornar públicas as idéias espertadas pela participação no Fórum de Caracas. Lá, uma uma parte do grupo do OLA realizou uma oficina com o tema “La transición inconclusa: um analisis critico del gobierno de Lula”, além de lançar um caderno com artigos que abordam aspectos dessa análise.
Nildo, professor de economia e coordenador do OLA, não tem dúvida de que a edição de 2006 deste grande encontro mundial representa um passo gigantesco em relação ao primeiro evento, realizado em 2001. Apesar de todas as tentativas da grande mídia de desprestigiar o fórum e de isolar o governo de Hugo Chávez, Nildo acredita que é possível capturar deste fórum a forte impressão de que a América Latina caminha para uma radicalidade comparável à verificada nos anos 60. Sem esquecer, contudo, que aquilo que se assiste ainda, em tantas aparentemente pequenas rebeliões populares, é ainda um espasmo diante do que se caracteriza como uma verdadeira revolução.
Nildo também percebe, na Venezuela, a força expressa pelo ódio de classes em uma sociedade engajada na disputa por um projeto de país. Mas é preciso entender, como diz, que “a revolução bolivariana não é uma grade escolar, mas um processo caótico,
que todavia tem rumo.” E esse rumo, para ele, é a clareza do anti-imperialismo, do nacionalismo como força revolucionária e da certeza de que a ordem só pode ser democrática quando as classes subalternas vão para a disputa.
E na Venezuela, constata Nildo, há uma convulsão, uma presença ativa e protagônica das massas na política. Outra constatação sobre o momento vivido pela América Latina, no seu modo de ver, é que com Chávez, e agora Evo Morales na Bolívia, Lula não existe. “Ele é, no máximo, a direita da esquerda.”
Nildo também observa, a partir do que viu no fórum, que está ocorrendo uma latinoamericanização do pensamento no Brasil. Cerca de 500 atividades do fórum foram organizadas por brasileiros, seguidos por venezuelanos, colombianos e estadunidenses. Mas esse jeito latinoamericano de ser e ver ainda não é sentido na universidade, ressalva o professor. “É preciso lembrar que a universidade ainda é a vanguarda do atraso. Por isso vai chegar mais tarde aqui.”
O coordenador do OLA pensa que o fórum social mundial, que em 2007 será no continente africano, em Nairobi, Quênia, é uma iniciativa relevante, mas não tem ilusões quanto ao seu alcance. “É um ponto de encontro, nada mais. Não muda o mundo, mas é bom para conspirar, conhecer, articular”.
Beatriz Paiva, que é professora de Serviço Social, não esconde o olhar engajado com que participou do fórum de Caracas, por entender a revolução bolivariana como um processo real, apesar de suas fortes contradições. Ela vê o fórum como um espaço de canalização de energia para uma ação concreta dos movimentos sociais e percebeu que, desta vez, na Venezuela , houve um desequilíbrio favorável aos movimentos populares, o que permitiu a radicalização do debate.
Nas edições anteriores ela notou que havia uma captura do evento por parte de grandes ONGs, mas crê que em 2006 foi possível ultrapassar os limites dados por essas organizações com uma presença determinante dos movimentos indígenas, entre outros, dando o rumo do fórum. Beatriz também percebeu que, apesar da tentativa de setores ligados ao poder de buscar garantir uma certa esterelização do governo Lula, não puderam evitar, entre outros fatos, uma contundente crítica no espaço do fórum em relação à presença brasileira no Haiti. A professora, que defende a proposta de que as políticas sociais devam ser feitas pelo próprio povo, observou atentamente como atuam as misiones na Venezuela, uma experiência de auto-gestão popular dos recursos públicos. “É claro que a cabeça da tecnoburocracia pouco mudou, mas o importantes é ver que as missões combinam estratégias de participação popular e rearticulação da lógica de política social”. Um dos exemplos de inversão da ótica que destaca são as Mesas de Água, que envolvem de modo concreto e transparente as comunidades para buscar soluções aos problemas ambientais.
O entusiasmo com que percorreu as ruas de Caracas, contudo, não impediram a assistente social de ver as contradições e as debilidades de um processo que se constrói. “É claro que fiquei indignada de ainda ver crianças dormindo na rua, mas também soube que eles não querem reproduzir ali o modelo dos abrigos, que se transformaram no horror das nossas febens…”
Beatriz entende a Venezuela de hoje como um universo em que tudo se move e se explicita em conflitos, e cita o exemplo dos taxistas. Lá, como no Brasil, o táxi é uma concessão do estado, que exigia a obtenção de uma licença, mas o governo Chávez liberou o trabalho nesse campo. “Então, o que se vê em Caracas é uma frota de carros bizarros, amarelos, cor abóbora, velhos, sem taxímetro, que circulam com uma gasolina que custa 20 centavos (de real). É claro que o dono de um táxi de concessão é anti-chavista…”
A jornalista Elaine Tavares caminhou pelo fórum de Caracas e pela Venezuela como uma repórter que saiu do espaço virtual de análises feitas principalmente através de informações da rede de computadores e entrou na vida real daquele país e seu povo. “Pude ouvir as pessoas comuns e constatei como ali se vive uma luta de classes explicitada nas ruas, nos bares, nas barracas. É difícil encontrar um caraquenho sem opinião. Há sempre uma crítica sobre tudo o que acontece no processo bolivariano de revolução.”
Também, apesar do silêncio primitivo dos povos originários, difícil de ser quebrado, a repórter captou nos rostos, nos corpos e nas atitudes o orgulho desta gente de ser quéchua, inca, aimara…”Há hoje um levantamento de um processo de sentir orgulho de ser parte do povos autóctones, um tremular de bandeiras dos povos andinos, um colocar chapéus e roupas que falem dessa origem.”
Glauco Carvalho Marques, que atua nos movimentos sociais em Florianópolis e também esteve no fórum, participou do debate do OLA e contribuiu com a discussão. Para ele o fórum é mais que um espaço de encontro e debate, pois indica uma direção. Lembra que a Assembléia Mundial dos Movimentos Sociais, que acontece durante o evento, aprova uma agenda de lutas anual para orientar os militantes e ativistas de todo o mundo. Basta lembrar que foi dali que, em anos passados, saiu o calendário de luta continental contra a dívida externa e também a agenda das atividades antiglobalizantes em Gênova, na Itália, durante o encontro do G-8.
Glauco diz que o fórum não pode jamais se transformar em um espaço de discussão das oficialidades e das institucionalidades, mas a carta da Assembléia Mundial dos Movimentos Sociais deve apontar um rumo e uma agenda, como fez agora, em Caracas. Glauco relata que Chávez participou da plenária, ouviu longamente todos os movimentos presentes e assumiu compromissos públicos, como de que realizar uma auditoria da dívida externa no seu país.
Sobre o que acontece na Venezuela agora, Glauco resume assim: ‘encontrei ali um povo com uma maioria extremamente empobrecida, um governo que faz reformas para essa maioria, que tem o apoio dela e entra em conflito com a elite do país e se choca contra os interesses do império.” Naquele país, diz, o conflito é ideologizado a tal ponto que é fácil encontrar nas ruas pessoas que falam sobre o significado da revolução, sobre o que é socialismo, luta de classes.
Outra observação que fez se refere à acusação de alguns setores de que Chávez manteria a imprensa amordaçada. “Pelo contrário, nos canais de televisão dominados pela elite o que se vê é uma baixaria absoluta na crítica contra o governo. Lá tudo é escrachado e nada entra ‘entre aspas’, como ao menos faz a imprensa aqui no Brasil”.
Sobre esse tema da mídia, Elaine Tavares lembra que atualmente na Venezuela há uma guerra na comunicação , envolvendo até agressões físicas aos comunicadores populares quando fazem a cobertura de atos dos esquálidos contra o governo bolivariano. A jornalista lembra que, mesmo entre os meios alternativos, não há uma voz única, mas viceja uma crítica livre. Cita o exemplo da Catia TV, um canal comunitário que existe há 15 anos, portanto antes de Chávez, e que não recebe dinheiro público, sobrevivendo com recursos da venda de camisetas, adesivos, patrocínio cultural.
O debate do OLA durou mais de duas horas e o que predominou entre os que dialogaram num espaço público é a a idéia de que algo novo e forte se levanta na América Latina, exatamente da terra venezuelana em que nasceu o Libertador. E ele, Bolívar, não tinha dúvida de que “se fosse possível que uma parte do mundo voltasse
ao caos primitivo, essa parte seria a América”. Palavras proféticas?
Se fuese posible que uma parte del mundo
volvese ao caos primitivo,
esa parte seria la América.
Simón Bolívar
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