De Madre Terra e de Materialismo: notas decoloniais

28 de Março de 2021, por Carlos Walter Porto-Gonçalves


A expressão Madre Terra, usada pela maioria dos povos/etnias/nacionalidades que conformam a nossa Abya Yala/Nuestra América, é vista por muitos teóricos como a manifestação de um pensamento romântico sem maiores implicações, como expressão de um antropomorfismo não-científico, como o antropocentrismo eeuurocêntrico que se reafirma desde o Renascimento.

Deixa estar que esse antropocentrismo que autoriza a dominação da natureza (Bacon) não faz jus sequer ao nome com que se recobre, haja vista deixar de fora metade da espécie humana, que não domina a natureza, na medida em que ignora seu lado mulher. E não só: ignora também seu lado não-branco (negro e indígena) que, inferiorizado pela colonialidade do saber e do poder, também não domina a natureza até porque seus territórios lhes são arrebatados. O antropocentrismo ignora, ainda, os que não são proprietários, com a dominação da natureza feita pelos que são donos da terra já que os que são dela expropriados não podem dominá-la. 

Sabemos que a geopolítica do conhecimento (Mignolo) imposta como colonialidade do saber e do poder (Quijano), não pode ser compreendida somente como uma questão de ordem filosófica, epistemológica, separada das mundanas relações sociais e de poder. Enrique Dussel já nos havia alertado que o cogito cartesiano foi antecipado pelo “eu conquisto”. A dominação colonial só se dá sobre povos/regiões que são inferiorizados, reduzidos à natureza como os selvagens que não são da cultura, mas sim das selvas. Assim, não se coloniza quem é igual.

Deste modo, diversas experiências históricas concretas de modos de comer (caças, pescas, coletas, agriculturas), de modos de se curar (medicinas), de modos de se proteger das intempéries (arquiteturas) e modos de resolver seus dilemas/problemas/conflitos (convivência/poder) têm sido ignorados. Afinal, ninguém vive sem saber comer, sem saber curar-se, sem saber se proteger das intempéries, ninguém vive sem criar modos de con-vivência, enfim, ninguém vive sem saber. Não há fazer sem saber. Enfim, epistemicídios, expropriações.

A Madre Terra seria, na visão eeuurocêntrica, uma forma apequenada de pensar a terra/Terra. Mas o preconceito colonial chega a tal ponto que não considera que o Materialismo, que tanta contribuição traz ao conhecimento científico e filosófico, ignora a própria etimologia da palavra com que se designa a si próprio: Mater, -tris, do latim Mãe. Mater, onde a vida se faz, onde a vida emerge, já foi sinônimo de útero, na Idade Média europeia [1] . Enfim, matéria é a origem de tudo, tal e como Pachamama. Pacha, em quéchua-aimará, é espaço e tempo ao mesmo tempo e Mama é a Mãe. Pachamama seria o equivalente homeomórfico de Natureza (Pannikar apud Estermann, 2006), a Mãe do Espaço-Tempo, Mater. O Materialismo é, na origem, feminino. 

O olvido desse caráter é, ao mesmo tempo, revelador do quanto a dimensão de gênero, masculino, conforma os fundamentos filosóficos da filosofia e da ciência modernas que vão se explicitar na expressão “dominação da natureza” (Bacon), como androcentrismo que está autorizado a dominar a matéria que, como todo ser dominado, é tornado objeto. Tal e qual a mulher, a natureza é objeto a ser dominado. O Sujeito é masculino. Assim, não temos uma ciência do cuidado, mas sim da dominação da natureza. A natureza (feminino) é o que se faz por si própria, naturalmente.

Dominá-la será objeto de uma “filosofia masculina” (Bacon), razão que domina a emoção (Bareuther, 2021). A ciência, pouco a pouco, vai se libertar na abstração matemática, se afastando da sensibilidade que engana a razão. As mulheres serão afastadas da ciência, elas que se deixam levar pelas emoções e não pela razão que, assim, se abstraindo, vai se tornando androcêntrica.
Essa razão que começa a se impor desde o Renascimento não pode ser entendida fora desse momento histórico em que se caçavam as bruxas, mulheres, por seu conhecimento da natureza, dos mistérios das ervas, da cura, do parto, da reprodução, que compartilhavam com suas comunidades camponesas.

A ideia que será consagrada na egosofia cartesiana - “Eu” penso, logo “Eu” existo - só será possível na medida em que se desfazem as comunidades camponesas. A vida orgânica pouco a pouco será atomizada em indivíduos que uma força externa mecânica moverá e colocará em ordem [2] . A ordem mecânica é burguesa e masculina. A propriedade privada é masculina e organiza o estado liberal, capitalista. Emerge, assim, um mundo marcado pela lógica identitário conjuntista, como lhe chamara Castoriadis (1982). A célula, o átomo e o indivíduo passam a reinar por todo lado (Porto-Gonçalves, 1989).

Mais uma separação, já não bastasse a que separava o espírito do corpo, a natureza da sociedade, o espaço do tempo, cada um/uma separado/a de sua comunidade. E a matemática deixará de ser uma mera abstração na medida em que a vida começa a ser objeto de transações com base num equivalente geral – o dinheiro - que se abstrai de toda qualidade. E inunda com cifras (e cifrões) o cotidiano de tal modo que parece natural tornar tudo número abstraído das suas qualidades (Bartholo, 1986). 

Talvez hoje estejamos sendo instados a não mais confundirmos a bolsa (de valores) ou a vida (sem valor). E quem sabe nosso Materialismo assim recupere seu radical Mater – Mãe. Afinal, Madre Terra é a essência do equivalente homeomórfico Materialismo. 

Notas

[1] Permita-me o leitor o pleonasmo da expressão Idade Média, que é uma periodização que só faz sentido numa geografia específica, a da Europa. Fora dela, não há Idade Média.

[2] No mundo andino, entre quéchua-aimarás, não existe uma palavra para indivíduo, pois entre eles tudo que existe é relação e relação de relação. Assim, os corpos de cada quem, humano e não humano, são construções que emanam das relações, daí o sentido de comunidade se impor. E comunidade de vida, de que fazem parte todos os entes, inclusive, os do mundo sobrelunar

Bibliografia

BARTHOLO, Roberto (1986). Os Labirintos do Silêncio. Cosmovisão e tecnologia na modernidade.
BAREUTHER, Johannes (2021). Androcentrismo e Razão Dominadora da Natureza: natureza demoníaca e natureza mecânica (1ª parte).
CASTORIADIS, Cornelius (1982). A Instituição Imaginária da Sociedade. 
DUSSEL, Enrique (1993). O encobrimento do outro: A origem do mito da modernidade.
ESTERMANN, Josef (2006). Filosofía Andina: sabiduría indígena para un mundo nuevo.
FEDERECI, Silvia (2017). Calibã e a Bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva.
LANDER, Edgardo (2005). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciências sociales.
LEFF, Enrique. (2009). Racionalidade Ambiental: a reapropriação social da natureza.
MALDONADO-TORRES, Nelson (2007). Sobre la colonialidad del ser: contribuciones al desarrollo de un concepto. 
MIGNOLO, Walter (2003). Histórias locais, projetos globais: Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter (1989). Os (Des)caminhos do Meio Ambiente.
QUIJANO, Aníbal (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.

Carlos Walter Porto-Gonçalves é  professor Titular do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Co-Ordenador do LEMTO – Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.