Deus e os cientistas políticos diante da façanha eleitoral de Jair

23 de Novembro de 2018, por Gilberto Felisberto Vasconcellos


É estarrecedora, mas não inexplicável, a vitória de Jair. Eu não sabia de um programa na TV Bandeirantes no qual um palhaço o representava durante quatro anos sendo chamado de “mito, mito, mito”. 

Julgava que “mito” fosse uma denominação dada para atribuir-lhe uma espécie de carisma no sentido da graça. Nada disso: “mito” foi uma baixaria criada dentro de um programa de auditório.

Eleito, rindo com escárnio, explicou que mito vinha de um apelido de infância no interior de São Paulo. O chamavam de Palmito, porque ele era um homem magro e alto, daí a corruptela “mito”. 

É conversa fiada que ele teria despencado do céu, sem vínculo com as relações sociais ou com a mídia. Na verdade é um prato que está sendo cozinhado há muito tempo. 

Logo que ganhou a eleição deu uma declaração jocosa: nenhum cientista político é capaz de explicar minha vitória. Foi coisa de Deus. A ciência não explica Deus. A ciência política não o explica. Nenhum cientista político é capaz de arrumar uma explicação para sua façanha eleitoral. A ciência política é impotente. Só Deus.

Os cientistas políticos são ludibriados pela estatística eleitoral. A ciência política exibe uma lamentável indigência teórica. Os cientistas políticos apenas comentam as pesquisas eleitorais. Neles não há interação entre estrutura de classe e estrutura política, enfim não há gênese histórica. É uma crônica anedótica e superficial que não tem nexo com o passado. 

Os EUA nas mãos de Trump e o Brasil sob o comando do capitão, que o povo já está começando a chamar de capetão. Daqui a dois anos Trump vai para casa tomar capilé e Jair não terá o seu coleguinha por mais tempo. 

Nunca na história do Brasil houve um total alinhamento com o imperialismo gringo. Banco Central com autonomia irmanado com o banco estrangeiro. Adeus Petrobrás. O propagado “nacionalismo” de Jair é a favor dos EUA.

A desnacionalização do país traz a deformação sobre a história do golpe de 64. A safadeza que não houve ditadura, que a tortura foi fofinha, que o exílio foi de mentirinha, e quem estava realmente querendo dar o golpe eram os marxistas teleguiados por Moscou. Retorna a mistificação que 64 salvou o Brasil do abismo comunista que iria matar todas as nossas criancinhas. 

As Forças Armadas voltam a ser objeto de reflexão. Haveria ou não uma ala nacionalista no Exército brasileiro? Afinal, o Exército está inteiramente alinhado à desnacionalização feita pelas multinacionais? 
A desnacionalização do território coloca em risco a existência das Forças Armadas. Paulo Guedes é um notório representante do capitalismo monopolista vídeofinanceiro alienígena. 

Escola sem partido mas com Bíblia sob a hermenêutica evangélica do bispo Edir Macedo. Vamos cortar os professores de história. Toda a referência ao golpe de 64 será proibida. O que houve, e o que deve ser ensinado pelos professores de história, é movimento de 64, uma onda, um evento, quase uma moda. 
Golpe é uma expressão que não poderá ser usada, nem ditadura militar. Porque essas duas expressões não condizem com a realidade que tivemos quando houve a jubilosa intervenção de Castelo Branco, interrompendo o processo democrático trabalhista de João Goulart, que aparece como um bandido. Um bandido que deveria ser expulso e assassinado antes de ir para o Uruguai. 

Atente-se que Jair em 1964 não tinha mais que 10 anos, portanto não participou do golpe. Ele gostaria de ter participado, mas era um pirralho. 

Vejamos o roteiro sinistro. Abrir o país ao capital estrangeiro, considerar o capital estrangeiro como algo benéfico para o povo e para o país. É por isso que foi amaldiçoado o que ocorreu antes de 64, assim como depois quando as chamadas forças de esquerda tomaram o poder, com a ressalva de que não sei se ele acredita mesmo que o PT tenha alguma coisa a ver com comunismo. 

Do ponto de vista histórico, a antítese do bolsonarismo encontra-se no nacionalismo trabalhista brizolista que está morto, portanto Jair não tem opositor real. O seu opositor histórico é o brizolismo marxista. Leonel Brizola é odiado por ter arregimentado o povo na defesa de Jango em 1961 com apoio de uma parte das Forças Armadas. Foi mais ou menos isso o que aconteceu com o Chávez na Venezuela, que é o fantasma para Jair e a direita militar.

O Pentágono demonizou Hugo Chávez, demônio tanto para Trump quanto para Jair. Caluniaram Simão Bolívar, que, aliás, era militar. Estão dando um tiro no próprio pé. Para lembrar meu amigo Bautista Vidal que costumava conferenciar no Clube Militar, os militares brasileiros estão se desqualificando a si mesmos. 

O bolivarianismo não é de forma alguma uma contrafação corrupta e apatriótica na América Latina. Jair é antibolivariano, o equivalente dele na Venezuela foi o general Santander. Não é por obra do acaso que o banco Santander foi generoso em sua campanha eleitoral.