Em terras de veias abertas, é preciso manter os olhos bem abertos.

21 de Novembro de 2019, por Edson Mendes Nunes Júnior


A esquerda que ganhou as eleições na Argentina não é nada radical. Aliás, Alberto Fernández deixou o governo de Cristina Kirchner, em 2008, classificando seus apoiadores como radicais (1)  (imagina o que ele pensaria de uma organização realmente radical, anticapitalista e socialista). Era parte da estratégia eleitoral do peronismo, é claro, uma chapa que trouxesse um nome mais moderado, como o de Fernández, unido a uma força política de grande significado – em contraposição forte com as medidas de Mauricio Macri –, ou seja, Cristina Kirchner.
 
Compreendemos que a esquerda que ganhou as eleições é uma esquerda moderada. Ainda assim, Fernández criticou, durante a campanha, a submissão de Macri ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e já tem apoiado questões humanitárias de forte importância para movimentos sociais na Argentina. Em especial, vale destacar seu apoio à legalização do aborto (2) , pauta que motivou grandes manifestações feministas no país, chegando ao ponto de conseguir levantar o tema para discussão no Congreso de la Nación Argentina  (sendo aprovado na Câmara dos Deputados e, depois, rejeitado no Senado).
 
Daqui do Brasil, já temos a experiência de que não é preciso ser da esquerda radical para levar um golpe, visto a derrubada de Dilma – ainda que seu segundo governo tenha aprofundado intensamente as medidas neoliberais. Evo Morales, como sabemos, apesar de aceitar realizar novas eleições, conforme demandou a Organização dos Estados Americanos (OEA), também sofreu um golpe.
 
O peronismo na argentina, apesar de vitorioso nas eleições – com 48,1% dos votos para Fernández contra 40,4% de Macri – precisa estar atento. Maurício Macri convocou manifestações na Plaza de Mayo para o dia 7 de dezembro, apenas 3 dias antes da posse de Fernández, dia 10 de dezembro (similar ao que a própria Cristina Kirchner fez ao passar o governo para Macri em 2015). A tentativa de medir força contra o próximo governo é evidente. Não sabemos, no entanto, até onde Macri está disposto a ir, visto a ofensiva imperialista evidenciada em países da região, como, por exemplo, através do golpe boliviano, da submissão irrestrita do governo brasileiro aos EUA e das constantes investidas contra Maduro.
 
Fernández ganhou as eleições, é claro, mas ainda não levou. E se levar, ainda não sabemos em que condições poderá (ou não) governar.
 
Lembremos que nem mesmo os liberais acreditam realmente na democracia procedimental de Schumpeter (1984), visto que não limitam, de forma alguma, sua atuação e sua disputa política à conquista de votos e ao período do processo eleitoral. Assim, seria interessante para as esquerdas latino-americanas aprenderem com experiências recentes, que questionam a compreensão de disputa política e conscientização dentro da realidade concreta latino-americana, como: os espaços de convivência e formação da luta feminista argentina (BAMBIRRA, 2019) ou as comunas e assembleias populares venezuelanas construídas pelo governo de Hugo Chávez (HARNECKER, 2008; SCHEIDT, 2017). Sempre, é claro, analisando seus acertos, erros, limites e contexto. Também é importante discuti-las em suas diferenças, ocorrendo fora ou dentro das instituições.
 
É cada vez mais importante reconhecer que a politização e conscientização política, infelizmente abandonada durante o projeto conservador do lulismo no Brasil (SINGER, 2012), precisa florescer. Ela é parte fundamental da emancipação política, social e econômica da região. Não podemos, contudo, simplesmente esperar que a esquerda moderada e conciliadora se encarregue de qualquer iniciativa politizadora.
 
A esquerda que ocupa espaços institucionais acreditando em um republicanismo cego age, cinicamente, como se na política, não existissem sabotagens, golpes, espionagem ou manipulação. Fingem não estar inseridas no “balcão de negócios da burguesia”. É necessário identificar, de forma concreta, o território onde se atua. A politização precisa passar pelo conhecimento da disputa política como ela é. Reconhecer isso não significa, é claro, abdicar de disputas eleitorais ou espaços no Parlamento, mas uma região que viveu sob a Operação Condor não pode se permitir o luxo de relaxar diante do imperialismo. Vale a pena retomar Eduardo Galeano (2010), sete anos após lançar sua famosa obra As veias abertas da América Latina, debatendo sobre as ditaduras militares que proibiram seu livro: “A engrenagem internacional continua funcionando: os países a serviço das mercadorias, os homens a serviço das coisas”.
 
Caso a esquerda argentina venha a apaziguar os ânimos por ter ganho a disputa eleitoral, abandonando a conscientização política cotidiana, cometerá o mesmo erro que, dentre outros, continuamente submetem as experiências de esquerda latino-americanas (salvo exceções, como o caso venezuelano) à falta de sustentabilidade para resistir aos momentos de acirramento da disputa política concreta. Para a esquerda radical, empenhada em mudanças estruturais na América Latina e na superação do modo de produção baseado na exploração – em nível nacional e internacional –, existe o desafio (mas, também, a oportunidade) de organizar-se e superar a confiança que as esquerdas moderadas colocam nas engrenagens imperialistas.
 
Na América Latina das veias abertas, é preciso manter os olhos bem abertos. As limitações da esquerda moderada devem ser bem demarcadas e criticadas. Em terra de presidentes, filósofos, psicólogos e doutores autoproclamados, que não exista o medo de se proclamar radical. Que não subestimem o golpismo das classes dominantes. Já alertara Che Guevara: “[...] não se pode confiar no imperialismo nem um tantinho assim. Nada!" (4) .
 
REFERENCIAS
 
BAMBIRRA, Liara. A educação se tece na luta: o movimento a favor da legalização do aborto na Argentina como espaço de construção de conhecimento. In: ECHART, Enara; COELHO, André; VILLARREAL, Maria (org.). Sulatinidades: debates do GRISUL sobre a América Latina. Rio de Janeiro: Périplos, 2019, pp. 151-167. Disponível em: <http://www.grisulunirio.com/wp-content/uploads/2019/11/E-book-Sulatinida.... Acesso em: 18 nov. 2019.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.
HARNECKER, Martha. Reconstruyendo la izquierda. Siglo XXI Editores, 2008.
SCHEIDT, Eduardo. A democracia participativa na Venezuela da Era Chávez e a questão dos conselhos comunais e das comunas. Tempos Históricos, vol. 21, 1º Semestre de 2017, pp. 261-291.
SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.
SINGER, André. Os sentidos do lulismo. Reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012
 
Notas
 
2 -  Durante a campanha argentina, somente Alberto Fernández, da Frente de Todos, e Nicolás del Caño, da Frente de Izquierda de los Trabajadores-Unidad, defenderam abertamente a legalização do aborto. Disponível em: <https://www.telesurtv.net/telesuragenda/postura-candidatos-presidenciale....
3 -  Para mais informações sobre o movimento feminista na Argentina para a legalização do aborto, recomendamos o artigo de Liara Bambirra (2019).
 
Edson Mendes Nunes Júnior. Mestrando e Graduado em Ciência Política pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Graduado em Relações Internacionais pelo IBMR. Contato: mendesjr.edson@gmail.com