Hora de trocar o figurino

6 de Janeiro de 2015, por Elaine Tavares

Uma revitalizante análise do mundo das ciências sociais, carcomido pelo colonialismo. Assim pode ser definido o livro do professor de economia e presidente do IELA, Nildo Ouriques, “O colapso do figurino francês”, que acaba de sair da gráfica. O trabalho, fruto de anos de estudos sobre a realidade brasileira, reúne artigos inéditos que versam sobre as ciências sociais, a universidade, a dependência, o subdesenvolvimento e compõem uma totalidade sobre como a intelectualidade local se mantém cativa de ideias europeias e estadunidenses.

Nildo aponta as razões pelas quais a universidade brasileira nunca discutiu com seriedade o programa de pesquisa sobre subdesenvolvimento e dependência, principal contribuição do pensamento crítico latino-americano às ciências sociais, formulada por intelectuais como Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos e Vânia Bambirra. Ele mostra como o circuito da USP - principal espaço de formação do país – negou e escondeu ao longo dos  anos a Teoria Marxista da Dependência, um pensamento genuinamente brasileiro, em detrimento das teorias do “figurino francês”, boas para explicar o mundo europeu, mas completamente insuficientes para pensar a realidade local.

O livro, de 206 páginas, é um explosivo espaço de crítica, respaldado no fecundo conhecimento amealhado a partir de pensadores latino-americanos – igualmente esquecidos pela academia brasileira: Mariategui, René Zavalleta, Falls Borda, Ludovico Silva, Agustín Cueva, entre outros. Com eles, e no diálogo com os expoentes da Teoria Marxista da Dependência, Nildo Ouriques vai analisando a realidade dos dias atuais, hegemonizada pelo que Gilberto Vasconcelos chama de “petucanato”.

“O colapso do figurino francês” mostra como a proposta colonizada que sempre regeu o pensamento uspiano e da universidade brasileira em geral já encontrou seu esgotamento, sendo hora de apostar em novas práxis e pensamentos autóctones, capazes de auscultar com maior presteza os desafios do tempo presente. Temas polêmicos como a relação nacionalismo x classe e revolução x reforma são explorados com originalidade e um vigor intelectual há muito desaparecido nas universidades. As novidades teóricas que assomam pela América Latina, desde as originais transformações vividas pela Venezuela, Bolívia e Equador, igualmente menosprezadas pelos intelectuais – ou acadêmicos como prefere chamar – brasileiros, são a prova viva de que o pensamento latino-americano é original, musculoso e o único capaz de dar respostas aos problemas locais.

Nildo Ouriques propõe que é chegada a hora de os estudantes brasileiros inventarem seu próprio figurino, latino, tropical, enfrentando com originalidade os desafios de seu espaço geográfico. Uma leitura de tirar o fôlego!

O livro, editado pela sempre parceira Editora Insular, de Nelson Rolim, saiu da gráfica essa semana e será lançado depois das festas de Carnaval, quando a vida retoma seu caminho no rumo da realidade.