Individualismo e capitalismo em tempos de coronavírus

20 de Março de 2020, por Maicon Cláudio da Silva


A crise capitalista recente, agravada pela pandemia de Covid-19, tem evidenciado os piores dramas da sociedade capitalista. Por um lado, o desespero levou muitas pessoas aos supermercados num acúmulo desenfreado de mercadorias. Essa situação fez que chegasse até mesmo a faltar certos produtos em alguns lugares, como papel higiênico, massas, frutas, álcool em gel, etc. Por outro lado, a imprensa burguesa, reforçando seu flerte com o liberalismo de esquerda, tem dado destaque a iniciativas individuais de solidariedade na crise. Os dois casos refletem a podridão dos valores sociais oriundos de uma sociedade baseada na exploração do homem pelo homem.

Nas filas gigantes dos supermercados, diante do desespero pela pandemia, surgem os mais diversos relatos, de pessoas levando pacotes e mais pacotes de papel higiênico, enquanto que outros tentaram até mesmo comprar caixas de álcool em gel. Gritos, brigas, caos. Na ideologia dominante propagada pela sociedade capitalista é assim, o ser humano vê no outro não o signo de sua libertação, mas o limite da sua liberdade, um concorrente, portanto. Por outro lado, as iniciativas individuais, vaquinhas, incentivo para comprar em tele-entrega do comércio local, palmas para os trabalhadores da saúde, ou até mesmo o questionamento sobre o "privilégio" de poder estar em quarentena, só demonstram um caráter individualista da política. Essas inciativas, ainda que possam parecer positivas a uma primeira vista e resolver um ou outro caso imediato, estão muito mais relacionadas com um sentimento de culpa individual do que propriamente com uma vontade consciente de alterar as estruturas dessa sociedade. Não ao acaso emissoras como a Globo não sentem nenhum tipo de inibição em dar destaque a tais medidas individuais.

A mesma Globo, já há muito conhecida como o partido da burguesia brasileira, que em um bloco dá destaque às palmas para os trabalhadores da saúde, também dedicou toda uma reportagem na edição do Jornal Nacional de ontem (19/03) para tratar do projeto de reforma administrativa que reduziria o salário e a jornada dos servidores públicos em 25%. Ignora, cinicamente, que a maioria dos trabalhadores da saúde que estão enfrentando a pandemia são funcionários públicos. Nas palavras da emissora, o momento talvez sensibilize o STF, que havia interrompido a votação sobre a constitucionalidade da pauta antes da pandemia, a aprovar a medida. Nenhuma palavra, ao contrário, para denunciar o saqueio realizado pelos bancos ao Estado brasileiro através do sistema da dívida.

O governo de Jair Bolsonaro já vem demonstrado claramente que mais do que ser antipovo é deliberadamente assassino. Diante da que tem tudo pra ser a maior crise da história da economia brasileira, o que o ultraliberal Paulo Guedes tem anunciado? 200 reais para autônomos (esses mesmos que ficarão meses sem trabalho), corte pela metade do salário dos trabalhadores, reforço da necessidade em aprovar as contrarreformas para sair da crise (sic). Hoje mesmo 158 mil benefícios do Bolsa Família foram cortados em meio à pandemia do coronavírus. Essas medidas refletem a intenção deliberada do governo de Bolsonaro em realizar uma carnificina contra a classe trabalhadora brasileira.

A crise está apenas começando. E logo que a pandemia passar ainda enfrentaremos os efeitos da própria crise do capital. No Brasil, que já estava com a taxa de desemprego de 11,9% ano passado, e bateu o recorde de informalidade em 2019 com 41,4% de trabalhadores informais, o coronavírus vai matar muito pobre, mas o capitalismo vai matar ainda mais. E diante desse cenário, saídas individuais não são a solução. A classe trabalhadora brasileira precisar se organizar e criar consciência crítica diante disso tudo. Tenham certeza que como em toda crise capitalista, tem muita gente ganhando com isso tudo. E entre a bolsa e a vida, eu fico com a vida.