Invasão do Iraque completa 15 anos

27 de Março de 2018, por Elaine Tavares

Invasão começou em 2003 - AP Photo - Rwa Faisal
Invasão começou em 2003 - AP Photo - Rwa Faisal

Parece que foi ontem, quando as emissoras de televisão começaram a bombardear a ideia de que no Iraque havia um presidente louco que estava fabricando armas químicas e estava disposto a jogá-las em todo o mundo. Os EUA haviam sofrido o ataque nas Torres Gêmeas e já tinham invadido o Afeganistão atrás de Bin Laden. Assim que agregaram aos motivos para entrar no Iraque também a possibilidade de o tal presidente estar escondendo o facínora. Ou seja, aquela região estava dominada pelos terroristas e era uma ameaça ao mundo. O presidente dos EUA era George W. Bush.

A mídia estadunidense passou a ser referência para os meios em todo o mundo e a mentira das armas químicas acabou se transformando em verdade. Nos países mais longínquos as pessoas temiam Sadam Hussein, acreditando piamente que ele iria jogar arma química sobre elas em algum momento. O fato é que mesmo que fosse verdade a história das armas químicas, Sadam certamente só as jogaria nos Estados Unidos. Mas, como é comum, o império consegue passar a ideia de que seus inimigos são os inimigos de todos. 

E foi assim, baseados numa mentira, que os Estados Unidos entraram no Iraque em 2003. Segundo o governo e os generais que tramaram o violento ataque a Bagdá, na conhecida “Operação Comoção e Pavor”, a guerra era necessária para trazer a paz e a democracia. Sadam já havia sido aliado dos EUA, inclusive sendo treinado nos EUA. Mas, começou a querer autonomia e então, era hora de exterminá-lo. Enquanto aliado, ele podia ser ditador sanguinário, mas tentar andar com as próprias pernas, aí não!

Bagdá foi destruída, Sadam foi preso, foi executado, e a guerra continua até hoje. Já são 15 anos. A democracia e a paz são artigos que não se encontram por aquelas terras. A invasão ilegal tem matado 500 pessoas por dia  no Iraque, conforme dados de uma pesquisa publicada pela revista científica britânica The Lancet. Os últimos números contabilizados oficialmente  em 2015 davam conta de quase 800 mil mortos no lado iraquiano e mais de quatro mil soldados estadunidenses, sete deles na semana passada. 

Os Estados Unidos usou mais de 150 mil soldados na investida contra o Iraque e no mal chamado processo de “democratização”. E não são poucos os que voltam e ficam incapacitados para o trabalho por conta dos traumas de guerra. A tal ponto que foi criada uma “Associação de Veteranos do Iraque Contra a Guerra” , que hoje faz trabalho de apoio aos que retornam e também luta pelo fim da invasão ao país árabe. 

O sítio de notícias da jornalista Amy Goodman, nos Estados Unidos, Democracy Now!  entrevistou Matt Howard, que foi ao Iraque como fuzileiro naval e hoje atua no grupo de veteranos. Ele contou: “Eu assisti a invasão lá de Okinawa, no Japão, onde estava de plantão no momento, e me invadiu um sentimento de medo porque estávamos tomando uma decisão da qual nunca poderíamos voltar atrás". Ele esteve duas vezes no Iraque e por tudo que viu e sofreu passou a ser um adversário da guerra. 

Mas o grupo que luta pela desocupação do Iraque não é maioria. A pedagogia da guerra que é inoculada na população desde a mais tenra idade, ainda é mais forte. Para se ter uma ideia as Forças Armadas desenvolvem projetos nas escolas estadunidenses desde a terceira série do fundamental, quando as crianças brincam de guerra com peças de lego. E no secundário treinam tiro em campos de tiro dentro da própria escola. 

Ainda assim há os que questionam e tentam produzir pensamento crítico sobre a guerra. Esse grupo do qual Matt faz parte, os Veteranos do Iraque Contra a Guerra, organizou em 2012 uma marcha de repúdio ao massacre que vem sendo praticado no Iraque e pela vida dos soldados estadunidenses. Durante uma de generais da OTAN que estava acontecendo em Chicago os veteranos condecorados marcharam até as portas do local do encontro, e cada um deles fez uma declaração anti-guerra, jogando suas medalhas de guerra sobre as cercas.

Apesar dos protestos e discussões sobre a questão do Iraque, a guerra continua e o número de civis mortos aumenta exponencialmente. Isso porque a resistência à ocupação segue forte também. O país foi devastado, quase um milhão de vidas foram ceifadas, e os Estados Unidos ainda consegue enganar muita gente. Entrou no Iraque para sugar as riquezas. Nunca levou democracia, nem paz. 

Quinze anos se passaram e os meios de comunicação continuam apresentando a região como um lugar de malucos terroristas. No lugar do antigo ditador, agora tem um chefe “eleito”, sempre sob o controle dos Estados Unidos. Mas, para azar do governo estadunidense a luta interna não para. Dentro do Iraque há muitos grupos que lutam por liberdade e é justamente por isso que os próprios Estados Unidos fomentam a formação de grupos fundamentalistas. O objetivo é manter a região em perpétuo confronto interno, para que eles sigam nadando de braçada no petróleo, garantindo também o controle geopolítico. 

Os mortos se contam aos milhares, e poucas pessoas no mundo clamam pelo fim do terror. O consenso sobre os árabes criado pelos EUA ainda domina.