Marx, Glauber, Cascudo, Adorno e eu

5 de Março de 2020, por Gilberto Felisberto Vasconcellos

Câmara Cascudo - memória do folclore
Câmara Cascudo - memória do folclore

 

Neste título enumerativo caberá incluir o crítico de cinema Walter da Silveira. Aí sim a roda fecha com o poeta venezuelano Ludovico Silva. O que avulta é a ironia do “eu”, mas que isso não seja encarado como autofilia, a estima exagerada de si mesmo, um narciso bobão. 

O linguista marxista Lindberg Campos Filho escreveu inteligente resenha sobre o meu livro Quebra Cabeça do Cinema Novo: é o estilo que revela minha maneira de ver o cinema e a sociedade. 

Não estarei ruim do juízo em afirmar que, de acordo com o crítico, para entender o conteúdo desse livro, há que destrinchar a forma, o que não quer dizer formalismo. Destarte, essa questão de forma e conteúdo é o maior rebosteiro da crítica, não só marxista. Ao que parece me dano e me salvo na forma, segundo ele.

Conteúdo revolucionário implica forma revolucionária, mas esta inexiste sem conteúdo revolucionário. Todo mundo sabe disso depois da poesia concreta com Décio, Augusto e Haroldo, sem esquecer o trotskista Edmund Moniz em sua reflexão sobre Canudos. Para mim, o mais difícil, como dizia Marx referindo-se a Honoré de Balzac, é explicar a relação contraditória da personalidade, a autonomia da subjetividade do autor com a obra materializada em signos objetivos. 

O autor pode ser de direita em sua opinião subjetiva e revolucionário em sua obra. A isso dá-se o nome de astúcia da mimese para explicar o “paradoxo”, não só em se tratando de ficção. É por causa disso que entrevistar o autor sobre o que ele pensa não revela grandes coisas. A caracterologia do autor (seus traços psicológicos) não é suficiente para afirmar o significado de sua obra. Faço essas considerações porque Lindberg Campos Filho passou-me o sabão por querer juntar o kino marxista de Glauber Rocha e Walter da Silveira com o folk de Luis da Câmara Cascudo, escritor tido como anticomunista que fez parte do integralismo no limiar dos anos 30. Há fotos dele vestido de camisa verde, ainda que tivesse sido muito efêmero esse sarampão integralista, o qual não deixou nenhum traço em sua investigação sobre o povo brasileiro. Conheço pouquíssima gente que amou tanto nosso povo quanto Luís da Câmara Cascudo por conhecê-lo em profundidade.

Em 1934, no auge do integralismo, escreveu um livro notável, Viajando o Sertão, que não tem nada a ver com o ideário integralista. Não se depara com o nome de Mussolini em sua obra. Por outro lado, nunca falou de luta de classes como motor da história. Citou Lênin, se não me engano, uma única vez: “sem promessa não há revolução”. Em meados da década de 20 escreveu Lopez Del Paraguay defendendo o Império. Seu amigo Gustavo Barroso não só foi a favor da Guerra do Paraguay como de 1930 em diante militou nas hostes integralistas escrevendo livros péssimos; mas antes disso foi um excelente pesquisador do povo brasileiro. Etnólogo magnífico. Influenciou o estilo e a metodologia de Luis da Câmara Cascudo. Fato é que Gustavo Barroso de 1911 a 1930 foi revolucionário pelo amor à expressão e costumes do “poviléu”, como dizia. Terra do Sol é de 1902. Gustavo Barroso informou a geografia dos trópicos do romance nordestino de Lins do Rego até o cinema de Glauber Rocha, incluindo a escola energética da biomassa de Bautista Vidal e Marcelo Guimarães. É onipresente o sintagma “terra do Sol” na literatura brasileira do século XX.

Inexiste luta de classes no sol, mas sem pôr o sol na luta de classes não se entende o trópico e o colonialismo. O invasor holandês, marinheiro e mercantil, veio para cá a fim da rapadura, de que resultou a guerra dos holandeses. Sem a Terra do Sol de Gustavo Barroso não haveria a poesia Pau Brasil, embora Oswald de Andrade odiasse o integralismo e os “galinhas verdes”.

O sol-folk, o sol democrático do povo, remete ao desenvolvimento desigual: por favor, o sol não é paulista, segundo a sociologia de Gunder Frank que em seu Reorient deixou no entanto fora Oswald de Andrade que deu a dica: avancem para o Sol!

Tirem o folclore dos fotogramas de Glauber Rocha e o cinema deste perderá a vitalidade política terceiro-mundista de Barlavento, Barravento até Riverão Sussuarana, a onça faminta cantada pela vaquejada. O curioso é que o desafio amartelado em seus filmes colide com a opinião depreciativa que tinha do folclore, ao contrário do apreço pela “cultura popular”. Há muitos autores que não distinguem folclore de cultura popular, o que não é, no entanto, a mesma coisa.

Quem filmou Luis da Câmara Cascudo ao vivo e eloquente foi Walter Lima Junior. Documentário magnífico. Digo sem receio de errar que Luis da Câmara Cascudo está mais para Karl Marx do que para Plínio Salgado. A prosa estropiada na prosódia de Glauber Rocha deve-se mais ao fandango que ao Finnegans Wake de James Joyce. Essa prosódia, a partir da relação boca e orelha, é uma maneira de se comunicar evitando que o gringo invasor a entenda, espécie de idioleto curupira ecológico como se fosse um gogó vietcong dos trópicos. No romance Riverão Sussuarana Guimarães Rosa, que não era marxista, mata o gringo imperialista na facada. O Vietnã ganhou a guerra contra os EUA com canças de bambu, advertiu Jorge Abelardo Ramos.

Navegando na nau Catarineta com Bautista Vidal mudamos a grafia do socialismo para eliminar qualquer traço plúmbeo: socialismo é solcialismo. Arrenegamos o petróleo, combustível que não pode mover a sociedade socialista. Na revolução brasileira propagada pelo meu amigo Nildo Ouriques devem ser imprescindíveis o marxismo, a energia da biomassa e o folclore. Eis a ciência do povo à moda do som da viola registrado por Gustavo Barroso: “é o surtão da maritanha seu sinhô de meio mundo, de meio solo e meia lunha qui só pru mim manda embaixada ouve-me generá e atende este ilustre embaixadô qui in tua presença espera”. 

O embaixador é João Guimarães Rosa em Riverão, o rio dialético de Heráclito, o river grecotupy. Releva dizer que o folclore sem marxismo corre o risco de tornar-se macumba para turista, todavia a revolução marxista não persuade a classe operária sem o inconsciente coletivo do folclore. Resulta daí a necessidade de uma programática revolucionária que faça a síntese de Karl Marx e Luis da Câmara Cascudo e que não os apresente como galos duelando.

Dêem-me licença senhoras e senhores, a natureza dos trópicos continua desconhecida. A natureza é o corpo do homem, segundo Karl Marx. Eu não sei se o autor de O Capital, diferentemente de Montaigne, chegou a tomar conhecimento da mandioca tão odiada por Roberto Campos. Mandioca, a rainha do Brasil. Por que não insistir na mandiocália comunista? Eis a distinção: socialismo no povo porque socialismo do povo ainda não há. 

Não importa no encontro do marxismo com o folclore, que aliás já foi esboçado com o afro marxista Edison Carneiro, se à noite Luis da Câmara Cascudo puxava o terço antes de dormir. Meu amigo Marcelo Guimarães não estava pensando nos filósofos pós-modernos da Unicamp com o seu anexim: só pode ser considerado intelectual de verdade quem souber 50 nomes de cipó. 

Atenção: o primitivismo repudiado por Glauber Rocha em Estética da Fome está ausente em Luis da Câmara Cascudo. Basta ler Prelúdio e Fuga do Real. A recusa do anedótico. O filósofo brasileiro tematiza um assunto vital e pouco estudado: a superstição. O que dá azar, o número 13, o passar debaixo da escada. Vai baixar noutro terreiro, Exu. Erramos ao tratar isso como retardamento mental, sinal de alienação, ópio do povo, que serve para a classe dominante explorar o proletariado. Assim, remar contra o iluminismo e o marxismo é supor que haja na superstição alguma coisa revolucionária. 

Nacionalismo conservador não o define. O folclore é tão universal quanto o marxismo, revestindo-se de acentuada impregnação regional: psicologicamente o homem é regional, a fisiologia é universal. A região é a fala e na entonação está o destino. Em Estocolmo, colóquio de cientistas, na hora do jantar havia um garçom servindo e falando em inglês: na bucha, Luis da Câmara Cascudo lhe perguntou: de que parte do Ceará você é? – De Baturité.

A frase “o local é indispensável” foi repisada por Bautista Vidal para conceituar a tecnologia diferente da ciência. O pacote tecnológico forâneo, o abre-te-césamo da Cepal, corresponde ao deslumbramento pelo enlatado cinematográfico. 
Não há nada de passividade no bumba-meu-boi. Nem impotência na mistura do frango que veio da Europa e do quiabo from África. O conceito de tecnologia do marxista Álvaro Vieira Pinto é cascudiano: papagaio não comeu? Morreu. 

Longe de mim demonizar a tecnologia. Não há grupo humano sem técnica, mas o computador por si é incapaz de fazer revolução tecnológica ou de eliminar a fome. 

O erudito e poliglota Frederico Engels, que gostou da gramática da língua portuguesa, queria conhecer a rede de dormir, mais ortopédica e higiênica do que a cama, segundo o médico Silva Mello que prefaciou Luis da Câmara Cascudo gozando o desajeitado equilíbrio de Einstein no Cosme Velho com dificuldade em acomodar-se sentado na hamaca boliviana. 

Gostei muito da resenha de Lindberg Campos Filho, meio que cripto-adorniana a falar do meu suposto adornianismo, se bem que o filósofo da nova música não curtisse cinema: “cada vez que eu vou ao cinema eu fico, sem querer, mais estúpido e pior”. Gostava de filme mudo que nem Jean Luc Goddard gostava pelos intertítulos e a imagem sem a muleta sonora. Se não me engano, Glauber Rocha nunca citou Theodor Adorno, autor indispensável para se entender o capitalismo videofinanceiro. Os olhos e os ouvidos estão degradados pela mercadoria. O ouvido é o órgão onipresente na cultura popular, que desde Silvio Romero não oculta o trabalho na história do homem. Todo trabalho do homem é para sua boca, o trabalho como meio de vida, não como meio de morte, segundo o professor jagunço que, pasmem, escreveu A Crítica da Economia Política na História da Alimentação. O ponto de partida não é maçã, é a banana.

Ruy Mauro Marini, nascido em Barbacena, não iria considerar um deslize antidialético juntar Theodor Adorno e Luis da Câmara Cascudo com a teoria marxista da super exploração do trabalho. Claro que não é a produção sonora a causa da super exploração do trabalho, mas é um fator condicionante em sua reprodução cotidiana. A mais valia ideológica de Ludovico Silva é antes de tudo acústica: o ouvido do trabalhado está dentro e fora da fábrica. 

O rádio e a televisão são inimigos do folclore e do socialismo. E a escola obrigatória também, segundo Pier Paolo Pasolini que elaborou uma linguística materialista com base na oralidade da tradição popular. Acusado de nostalgia do passado e de irracionalismo estético. Bobagem, ele dizia, é considerar a tradição popular como guardiã da propriedade privada. Tradição é região. Guilhermino Cesar, mineiro de Cataguazes, radicado em Porto Alegre, admirador de Cobra Norato de Raul Bopp, defendia a percepção do terrunho não raro em detrimento do universal. 
Moscou é cidade camponesa portadora do antigo e do milênio, segundo Pasolini que radicalizou em As Cinzas de Gramsci a paixão marxista pela cultura oral que antecede a cultura letrada. Essas duas culturas são diversas mas não adversas. Quanto a isso, Glauber Rocha é o cineasta pasoliniano dos trópicos, para quem Villa Lobos retratou o desejo do povo na assimilação das vanguardas musicais. 

Villa Lobos conversa em Natal, Rio Grande do Norte. Na parede da sala a fotografia com o dizer: “que boa testa para levar um cascudo”. Assinado: Villa Lobos. Conversa sobre a escrita e o falado: aquele fica menos retido na retentiva do povo do que este. Lembro Leonel Brizola que gostava que falassem dele mais do que escrevessem sobre ele. Depois do provérbio vem a fábula e, em seguida, o mito. Os homens são governados pelas palavras: nunca existiu político mudo.

O que me comoveu no artigo de Lindberg Campos Filho é que não me considerou um abiscoitado. Bela época de minha vida foi a juvenília na USP de 68 a 78. Minha birra com a USP não é vivencial, é política. O desenvolvimento desigual do capitalismo paulistrocêntrico contribui para a exploração imperialista no Brasil, tal qual acontece com Buenos Aires, conforme informou Juan José Hernández Arregui. 

Repara Lindberg Campos Filho que o sujeito da história desapareceu: leia-se o sujeito genérico da história, então há uma crise da práxis. E eu nela estou incluído: “não me parece ser coerente ter uma régua tão dura para ususpianos e paulistas em geral, ao mesmo tempo em que se abraça o projeto intelectual de Adorno transformando em ideologia da resignação”. Quietismo. Não sei se originalmente o “projeto” de Adorno tivesse sido resignado, o hotel burguês de 5 estrelas segundo Lukács. De mãos dadas com Greta contemplando o mundo como um abismo, sem querer transformar o mundo, ou se sou eu um conformista pequeno burguês avesso à revolução proletária. Um bundão que não se opõe ao mundo tal qual é. 

É mister separar os alhos dos bugalhos e não baralhar as asas com as patas. Sou paulista, minha mãe nasceu no interior de São Paulo, e está enterrada em Santa Adélia. Destarte, as duas grandes figuras intelectuais que marcaram minha vida foram Monteiro Lobato e Oswald de Andrade. No jornalismo foi Claudio Abramo que não gostava de Mario de Andrade.

Exilado nos EUA Theodor Adorno escreveu A Dialética do Iluminismo e anteviu o Curriculum Lattes, o positivismo norte americano que substituiu o “conceito” por “fórmula” no triunfo da “mentalidade factual”. O número é o “cânone do iluminismo”. Tudo o que não é quantificado é ilusão e mentira. O petucanismo pode ser visto como um neo positivismo pegando o sabonete para Rockfeller.

O que há de divergência entre o folclore e o marxismo já sabemos, o lance é saber o que há de comum entre uma coisa e outra. O ponto de partida é a superstição, que não se confunde com a religião. A presença da superstição é maior do que a religião na cultura popular. Marx, Engels, Trotsky e Lênin abominaram a superstição e viram o místico identificado com o irrealismo reacionário. Na cultura brasileira não foram poucos os artistas que se valeram do acervo supersticioso. Há beleza linguística na voz supersticiosa do povo mais que nos credos religiosos para não dizer nas teses acadêmicas. Será que não haveria um componente socialista na acústica supersticiosa do povo? 

A igreja de Edir Macedo tem uma atitude cínica e oportunista em relação à superstição. Ela é refratária à magia, aliás a igreja católica também é hostil à mentalidade supersticiosa. Por que a religião é hostil à superstição? Luis da Câmara Cascudo informou que as superstições são construídas com resíduos religiosos, embora não se confundam com a religião. A semântica da palavra superstição é “supersticium”, em latim significa aquilo que sobrevive.  Ora, aquilo que sobrevive na experiência popular não pode ser revolucionário? 

Pergunto: por que a reflexão marxista não atina para a superstição como um potencial socialista no povo? Não acredito que a presença da superstição, ou o modo pelo qual ela entra na cabeça do povo se deva à fé e ao batismo nas igrejas. Não é simplesmente por meio da fé que o homem do povo é supersticioso. 

Edison Carneiro, autor de Candomblés da Bahia, estudou o feminismo na Bahia, assim como a pioneira insurgência intelectual feminista nasceu com o folclore no Rio Grande do Norte. Não chego a ponto de dizer que Luis da Câmara Cascudo escreve com estilo feminino e inteligente. Certa feita Glauber Rocha chamou Frederico Fellini de cineasta mulher.

Edison Carneiro tal qual Nina Rodrigues, que é o pai dos estudos africanos no Brasil, achava que o negro não tinha desafricanizado em suas crenças religiosas. A África do outro lado do atlântico. Nisso difere de Luis da Câmara Cascudo, para quem o negro africano se tornou negro brasileiro. O devoto do Candomblé espera e quer que as divindades sejam recebidas por ele, dai o santo que baixa, a baixada do santo ou o cavalo do santo. A possessão do espírito desce com o mensageiro Exu, elemento crucial no Candomblé, macumba e Umbanda. 

As religiões no Brasil, catolicismo, budismo e espiritismo estão tentando sempre apropriar-se dos cultos populares baseados na possessão. O copo d’água no espiritismo, os guias, os irmãos do espaço, os banhos de descarga, o exu abrindo garrafa de cachaça, as caixas de fósforos, os ebós e despachos em encruzilhadas, tudo isso fundamentado na existência da superstição, Exu tranca rua, Exu caveira. A pomba gira é o equivalente feminino de Exu. 

As igrejas evangélicas são chupins que vampirizam os cultos populares.

Para o homem do povo brasileiro o céu não é moldado por aquilo que o padre ou pastor prega. O que é o céu para o homem do povo? Trata-se de um céu supersticioso que não difere das frases feitas sobre a morte que no Brasil não baila. A internet ainda não deu outro céu para o povo. Imagine um partido político revolucionário que tivesse por incumbência suprimir a superstição do povo, uma didática que eliminasse pouco a pouco essa maneira do povo pensar. Impossível. Seria um partido fadado ao fracasso. Se tivesse mais escola, se tivesse mais gente alfabetizada, a mentalidade supersticiosa iria desaparecer? Quanto maior o nível cultural menor é a superstição? Luís da Câmara Cascudo responderia: não.

Folclore, marxismo e feminismo. Para onde me levas, Cascudo? Livro publicado em 1947 nos EUA, A Cidade das Mulheres, no Brasil veio a lume em 1967. De autoria da antropóloga Ruth Landes, livro essencial para atacar a hegemonia evangélica do governo Bolsonazi que é inimigo do Candomblé e das crenças afro-brasileiras. Ruth Landes sublinha o poder das mulheres no Candomblé de Salvador, e também dos pais de santo homossexuais, objeto de ódio e perseguição da milícia bolsonara.

A antropóloga Ruth Landes e o etnólogo Edison Carneiro namoraram e fizeram do Candomblé um colóquio com babalorixás e mães de santo marxistas, mas isso não quer dizer que tivesse ocorrido a convergência do marxismo com o folclore na década de 30. Edison Carneiro escreveu A Dinâmica do Folclore a fim de mostrar que o folclore poderia ser um instrumento de emancipação popular. A presença feminina no Candomblé deveria ser motivo de reflexão das mulheres marxistas, tendo em mira a opressão machista da Igreja Universal Reino de Deus que seduz muitas mulheres idiotizadas. 

Há que se realçar que a contradição é menos entre Igreja evangélica e Igreja católica do que entre evangélicos e umbandistas, não obstante as afinidades destes com o catolicismo, conforme mostrou Roger Bastide na década de 60. Roger Bastide juntou Freud com folclore ao escrever a psicanálise do cafuné, mas deixou Karl Marx de lado. Florestan Fernandes começou pelo folclore do bairro do Bom Retiro, mas o abandonou quando abraçou a teoria do desenvolvimento.

O folclore deve ser visto como um desafio colocado pela luta de classes na história, de modo que hoje não seria disparate conceber uma frente folkmarxista de mulheres e homossexuais oprimidos contra a repressão sexual bolsonara. 

Ainda não foi explicada a fascinação popular que tem exercido a Igreja evangélica, que não é cura terapêutica, religião, teologia, a não ser auto-ajuda mistificadora. Eis a questão que ainda não foi esclarecida: qual é a psicologia do devoto evangélico? Não se conhece ex-renegado que abra o jogo acerca da sedução evangélica, ou dos motivos pelos quais alguém entra na seita tal ou qual. 
Ao contrário do Candomblé com sacerdotisas, mães de santo e Adés (sacerdotisas não raro homossexuais), nas igrejas evangélicas as poucas pastoras são personalidades fálico-argentárias. 

Um pastor não se confunde com um babalorixá porque este no Candomblé é um intermediário dos deuses ou o seu cavalo. No mundo evangélico não há santo. O pastor evangélico é a reprodução do dinheiro e este é amado como um deus. Basta olhar as mãos do pastor. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. 

Por que o povo pobre está preferindo os evangélicos aos Orixás? 

O dinheiro na mesa da Umbanda não se destaca como o crédito e o débito dos pentecostais. O pauperismo da sociedade brasileira predispõe o interesse pelo dinheiro vivo aos orixás mortos do Candomblé.

As Igrejas evangélicas são carentes de rituais e cerimoniais. Ausência do tambor. Fernando Ortiz em Cuba dizia que o povo aceita santos milagrosos, mas não um Cristo morrendo na cruz. Em seu último filme A Idade da Terra Glauber Rocha mostrou que o gringo do FMI tem medo é de Cristo fora da cruz. 

As igrejas evangélicas não toleram a existência da superstição. Depois de eleito Jair Bolsonaro foi ungido por Edir Macedo que tem horror das crendices populares, macumba, candomblé, umbanda, incitando a violência contra os umbandistas nos morros do Rio de Janeiro. 

Na filosofia racionalista a superstição é encarada como se fosse o ópio do povo. Por outro lado, a mentalidade popular é contra a racionalização da Fé. Deus não pode ser explicado. Luis da Câmara Cascudo oferece uma explicação racional da superstição. A superstição submetida à análise científica. Lendo seu livro Tradição Ciência do Povo basta substituir o vocábulo “tradição” por superstição: a ciência da superstição. A superstição é o continuum do tempo sem tempo.

E a superstição no tocante à indústria cultural? A indústria cultural é indissociável do fascismo. Observo que as telenovelas não conseguem retratar a superstição. O capitalismo monopolista e os seus agentes ideológicos, incluindo os aparatos religiosos, almejam solapar a permanência das superstições. A Igreja Universal Reino de Deus tem como adversário, não o Vaticano, e sim a crendice popular. Edir Macedo odeia o Saci Pererê e não o Papa Francisco.

A investigação cascudiana releva o universalismo no regionalismo, buscando o que há de universal na região e a importância da oralidade na superstição. A abordagem linguística da superstição, das frases feitas, da maneira do povo falar, a linguagem errada do povo, dizia Manuel Bandeira. Que está em Oswald de Andrade, em Gregório de Matos, em José de Alencar, que está em Glauber Rocha, em Guimarães Rosa e em Jose Lins do Rego.  

A oralidade popular está eivada de crendices e superstições. A Igreja Universal Reino de Deus não tolera a expressividade oral do povo brasileiro.
O Dicionário Houaiss é superficial ao definir a superstição como confiança em coisas absurdas. Ora, a superstição na vida cotidiana é funcional, não tem nada de absurdo A Igreja Católica desde Tomás de Aquino é contrária à superstição. 
Então onde haveremos de buscar elementos para fazer a revisão crítica, apontando que a superstição pode ser progressista e liberadora do povo brasileiro?

A visão racionalista sobre a superstição é contrária à frase de Luis da Câmara Cascudo, segundo a qual “não há momento na história do mundo sem a inevitável presença da superstição”.

O Brasil possui um Dicionário do Folclore Brasileiro: língua, visão de mundo, usos e costumes. Afinal, o marxismo como ciência da revolução nada tem a ver com o folclore como ciência do povo?

A superstição portuguesa não retardou a epopeia navegadora. A superstição não é necessariamente a ideologia da classe dominante. Por que não haverá uma humanidade livre do capital e norteada por um folclore revolucionário? Não digo mais nada e nem me foi perguntado. 

 

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