O golpe na Bolívia

26 de Dezembro de 2019, por Elaine Tavares

Eric Foronda, a serviço dos EUA junto à presidenta ilegal
Eric Foronda, a serviço dos EUA junto à presidenta ilegal

Com o golpe cívico/militar na Bolívia e a saída do presidente Evo Morales e do vice Álvaro García Linera do país iniciou-se a perseguição aos ex-ministros de Evo e outras autoridades ligadas ao governo. Por conta do iminente risco de prisão nove dessas autoridades pediram asilo na Embaixada do México no dia 10 de novembro, dia do golpe. Seis são ex-ministros, Juan Ramón Quintana, Héctor Arce, Javier Zavaleta, Cesar Navarro, Wilma Alanoca e Hugo Moldiz, um ex-vice ministro, Pedro Damian Dorado, o ex-governador de Oruro, Víctor Hugo Vásquez e o diretor de governo eletrônico, Nicolás Laguna.

A situação é bastante tensa porque o governo da usurpadora que ocupa o cargo de presidenta tem realizado desde então um sistemático assédio junto à embaixada, com a presença ostensiva de militares e, inclusive, com a embaixadora do México, Maria Teresa Mercado, sendo seguida por onde quer que vá. O governo deixa claro que não está protegendo a embaixada de possível ataque de grupos civis armados, incentivando assim a prática de crime. Os jornais bolivianos tem realizado forte campanha contra os políticos asilados, inclusive informando que os tais “grupos armados” estariam planejando invadir a embaixada para justiçar o ex-ministro Juan Quintana. Ou seja, a mídia está preparando o cenário da invasão, manufaturando a opinião pública de maneira a excluir qualquer suspeita sobre uma ação do governo.  .

Há informações na mídia opositora de que o atual governo inconstitucional teria armando um grupo especial da polícia, com cerca de 150 policiais civis e militares, denominado de Grupo Antiterrorista, assessorado pelos Estados Unidos, que vem, desde o golpe e o pedido de asilo, identificando, perseguindo e prendendo pessoas acusadas de ações de terrorismo. Mais de 30 pessoas morreram nos conflitos pós-golpe e não se tem o número certo de presos. Na verdade o “terrorismo” em questão é ser apoiador do governo de Evo Morales e resistir ao golpe. Com base nisso as pessoas são detidas e jogadas na cadeia. 

Também circulam informações divulgadas pelo jornal La Nación de que esse grupo estaria preparando um assalto à embaixada do México, onde estão os ex-governantes, agora durante as festas de final de ano, pois segundo o atual Ministro da Defesa do governo golpista, Arturo Murillo, a presença dos asilados afeta a imagem do governo de Jeanine Añez  no que chama de tentativa de “pacificar o país”.

A Secretaria de Relações Exteriores do México divulgou essa semana um comunicado denunciando os altos níveis de assédio junto a sua embaixada em La Paz e divulgando ao mundo a situação no país. Adverte ainda sobre o caráter inviolável da embaixada diante dos acordos internacionais e insiste para que o governo boliviano forneça os salvo-condutos que permitam aos asilados saírem do país. Até agora o governo liberou apenas 11 desses salvo-condutos, mas todos eles para familiares de autoridades. 

É preciso lembrar que os ex-ministros e governantes que hoje estão na embaixada não cometeram qualquer crime, o que por si só já justificaria o salvo-conduto. A ordem de prisão emitida contra eles se deu unicamente por fazerem parte do grupo de apoio de Evo Morales. Também vale dizer que o próprio Evo está sendo acusado de terrorismo, coisa que não tem qualquer cabimento. 

Caso venha se efetivar o ataque à embaixada do México, além de violar a Convenção de Viena, será uma atitude sem precedentes na América Latina, visto que mesmo durante a vigência da sangrenta Operação Condor, que semeou ditaduras por todo o continente nos anos 1960 e 1970, isso jamais aconteceu. 

O que os diplomatas mexicanos esperam é que a ingerência dos Estados Unidos na política colombiana possa impedir o ataque. Sabe-se que a presidenta usurpadora tem hoje a assessoria do jornalista boliviano Eric Foronda, que foi parte da equipe de imprensa da embaixada dos Estados Unidos em La Paz e que segundo os jornais locais, sempre colaborou com a CIA na Bolívia. A partir  de orientações dele, que agora é o secretário privado da presidenta,  ela tem adotado a estratégia estadunidense de "guerra permanente" e inclusive até já aprovou a compra de armamentos e munições com o intuito de aprofundar a luta contra o que chama de “terrorismo” e que nada mais é do que a batalha que o povo está dando pela democracia. 

O golpe na Bolívia vai se aprofundando, mas no cenário internacional esse tema já saiu de foco. Outras novidades ocupam os jornais. E mesmo na Bolívia, excetuando um ou outro órgão de imprensa, o golpe já está naturalizado. No natal, a presidenta usurpadora chegou a sair fantasiada de mamãe noel distribuindo presentes às crianças, sob forte cobertura midiática, que afirmava a sua “generosidade” para com os pobres. Enquanto isso, o assédio aos ex apoiadores de Evo segue sem trégua.